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Gravataí, um novo fazer
dos automóveis

Nova fábrica da General Motors adota um sistema
inovador, a ser imitado por muitas outras

por Roberto Nasser

Roberto NasserFui, como quase todo mundo, à inauguração da nova fábrica da GM em Gravataí, RS. Festa competente e organizada, e que nem o frio conseguiu complicar. Junto com 17 sistemistas que se instalam com fábricas ou depósitos, participando da montagem do novo produto, o Celta, forma o Complexo Industrial Automotivo de Gravataí.

A nova unidade industrial da montadora fica nas proximidades de Porto Alegre. O nome do Complexo é aparentemente pomposo e eufemístico, mas traduz as conseqüências das novas realidades econômico-industriais. É que no mesmo terreno de 3,96 km2 -- área de uma fazenda de aproximados 80 alqueires goianos -- estão os galpões da atividade industrial da GM, apta a retirar dos portões 120 mil unidades/ano do estreante Celta, e as construções industriais e depósitos dos 17 sistemistas acreditados pela montadora. No total representam 85 mil metros quadrados de área coberta e investimentos de US$ 544 milhões, sendo 360 da GM, próprios e de empréstimos gaúchos; 117 dos fornecedores e os 77 milhões finais do governo do Rio Grande do Sul, em obras de infraestrutura.

O PROCESSO

A idéia e conceito básico de uma fábrica de automóveis é a de uma empresa com uma série de operações industriais, construindo componentes, ou comprando-os de terceiros, estocando-os, de forma a alimentar um processo de montagem, sendo agrupados, individual ou em conjuntos, a uma estrutura central, que ao final,
completo, se transforma em um veículo. Este trabalho é realizado, naturalmente, por operários da empresa.

O novo processo tem um bom exemplo na Volkswagen Caminhões, que o chama de Consórcio Modular. Oito sistemistas cuidam da produção ou aquisição de terceiros; da montagem em oito conjuntos básicos; e sua agregação -- por funcionários de cada um dos parceiros sistemistas -- na ossatura que se transformará em um veículo. A Chrysler realiza processo ainda mais simplório e com menor número de intervenções industriais para construir o picape Dakota em Campo Largo, PR.

As conseqüências são de fácil percepção: menores custos, riscos, gastos com mão de obra e custos sociais; descarte dos custos de estoque. Por desdobramento, o custo final é menor -- ou o lucro é maior, ou ainda as chances de sobrevivência são maiores nesta atividade extremamente competitiva e na qual todas as marcas do mundo têm maior capacidade de produção que de vendas.

PASSADO E FUTURO

Será caminho comum a todas as marcas, que já se adaptam a estes processos de terceirização. Impossível? Absolutamente. Se você gosta de passado, isto já foi feito pioneiramente no Brasil por Guilherme Hanud, dono de uma pequena empresa, a Amazonas, que fazia motos com motor Volkswagen. A Amazonas possuía apenas um escritório nas
beiradas da Av. Paulista, detalhava, encomendava as peças, que ao final eram montadas na empresa que produzia as partes em fibra de vidro. Não fechou por conta do processo, mas por sua pequenez e pioneirismo.

Se você gosta de futuro, há uns dois anos, num café da manhã, perguntei a Jacques Nasser, executivo número um da Ford mundial, qual seria o futuro da indústria montadora frente à globalização e seus desdobramentos. E ele disse que não seria surpresa se, em poucos anos, as montadoras se resumissem apenas a prédios de dois andares: um para direção, outro para laboratórios e controles. Todo o resto seria feito por empresas contratadas.

CONSIDERAÇÕES

Algumas considerações feitas sobre Gravataí, a partir de ver e ouvir:

- É a primeira fábrica sistêmica da GM. Explicável porque o Brasil é o mercado com melhores perspectivas, e qualquer fábrica com este estilo, se montada em país desenvolvido, provocaria enormes protestos dos sindicatos.

- Mark Hogan, ex-presidente da GM no Brasil e um dos pais da idéia, aposta no êxito da fórmula, e a partir do efeito-demonstração no Brasil, na exportação da idéia.

- A diferença entre o Consórcio Modular dos caminhões Volkswagen, que utiliza sistema assemelhado, é que na GM Gravataí a agregação de conjuntos é feita por funcionários GM e não dos sistemistas. Mark Hogan explica que é para que não se perca a cultura da empresa. Luiz Moan, diretor da GM, complementa que a montadora evita o risco de enfrentar questionamentos trabalhistas dos funcionários de terceiros.

- A nova fábrica não é para um só carro. Permite outros, com dimensões assemelhadas e projeto sistematizável -- isto é uma declaração que o Celta terá outras versões.

- Um outro produto, diferente, como um picape grande, exigirá linha separada.

- Paira no ar um receio sensível: os sindicatos podem interferir de maneira drástica no processo de montagem. Basta fazer imobilização num dos sistemistas, que a produção se interrompe -- sem deter o custo da mão-de-obra fora da greve, mas sem trabalhar.

- A linha de montagem é feita sobre magazines auto-ajustáveis à altura dos funcionários, forma de obter melhor resultado e menos cansaço.

Não deixa de ser uma nova experiência, a de maior espectro já realizada, dentro do projeto de redução de custos produtivos -- hoje uma política de sobrevivência de todas as marcas e em todo o mundo.

Focus virá em versões hatch 1,8-litro e sedã 2-litros
Chega o Marea 2,4-litros

A Fiat não acredita nos azares de agosto e aposta no êxito da mais nova motorização do Marea, de cinco cilindros, 2.450 cm3 e 160 cv de força. Apresenta e inicia vendas no período habitualmente visto como de inferno zodiacal no Brasil.

Para a empresa, é um reposicionamento da linha Marea. Bom automóvel, bem construído, o Marea não vende como deveria. A pretensão da Fiat é colocar o 2.450 -- mesmo motor básico do 2.000, mas com ampliação de cilindrada -- numa situação mercadológica intermediária, entre as versões com motor 1,75-litro e a versão dois-litros Turbo, mantida em produção como pico de tecnologia e preço.

O diferencial que o motor 2.450 oferece será nitidamente perceptível por quem estiver aos seus comandos. O aumento de cilindrada oferece 160 cv de potência e 21 m.kgf de torque. Isto significa ter uma reserva de força mais que proporcional ao seu tamanho e peso, respondendo com disposição em quase todas as faixas de rotação, com poucas exigências de uso de marchas reduzidas e sem perda de velocidades nas subidas.

Esta capacidade de se mover sem esforços se dirige ao mercado que compra o Vectra, e em especial às versões com transmissão automática. A Fiat já testa este dispositivo, assim como um outro, o Speedtronic, aparato eletrônico que dá ao motorista facilidades de condução com o uso do câmbio manual.

Ford ajusta o Focus

Parece trocadilho, mas não é. A Ford está realizando os últimos acertos de adequação do seu modelo Focus ao mercado e condições brasileiras. O automóvel, alemão, que no mercado europeu substituiu o Escort e já produziu um milhão de unidades, tem sido duramente testado na pista própria que a empresa tem na calorenta Tatuí, SP. Buscam-se os melhores acertos de suspensão, buchas, molas, batentes, amortecedores e cargas, as principais exigências do mau piso nacional, pretendendo-se um resultado final de conforto, estabilidade e durabilidade.

A parte ácida do combustível alcoólico o automóvel deglute com competência de avestruz, e no tocante à rigidez estrutural surpreende. Carlos Meccia, engenheiro da Ford com larga quilometragem de desenvolvimento de produto, declarou-se surpreendido com a competência estrutural do automóvel, que após a sobrecarga de uso nada apresentava como desgaste na estrutura.

No Brasil vender-se-á o Focus produzido na Argentina, a partir de outubro. O automóvel será o futurista hatch cinco-portas 1,8 e o sedã com motor dois-litros, ambos da família Zetec, 16 válvulas. A proporção de vendas, projeta a Ford, será de 70% das unidades hatch e 30% do sedã. O Escort permanece em linha, abrindo o leque de preços da família média.

Roda-a-roda
POLÍTICA - Em tempos de boa vizinhança, antes de inaugurar a fábrica de Gravataí, a GM visitou o governador Mário Covas, de SP, para anunciar US$ 1,5 bilhão em suas duas antigas unidades de produção, em São Caetano do Sul e em São José dos Campos. Atualização de manufatura.
MINIVAN - A inversão de capital servirá para o lançamento da Zafira, uma minivan -- tipo Classe A, Scénic -- sobre a plataforma do Astra. Será produzida em São José dos Campos, na Vale do Paraíba, a partir do início do próximo ano.
FÉRIAS - Quem esperava que o Renault Clio em versão sedã de três volumes aparecesse no mercado nos próximos dias, esqueça. Como a matriz francesa está em férias de verão, os projetos locais ficaram desligados. É coisa para o final de agosto.
ESFORÇO - Se os franceses da Renault em São José dos Pinhais, PR, estão em marcha-lenta -- au ralenti, dizem eles --, os japoneses da Honda em Sumaré, SP, estão ativos. Em plena função de limpar pátio das atuais unidades do Civic, abrindo espaço para a fabricação do modelo 2001, que muda em estilo e evolui a motorização de 1.600 para 1.700 cm3.
BANCO - Você sabe qual é a parte mais rentável da indústria automobilística? O banco que cada uma tem. A Honda demorou mas aderiu à estrada financeira, montando o seu Banco Honda, que começa agregando o consórcio da marca e a Honda Leasing.
FUTURO - Bernd Pischetsrieder é o novo presidente do conselho diretor da Seat, braço espanhol da Volkswagen. Nós com isto? Seguinte: ex-presidente da BMW, defenestrado sem explicação, Pischetsrieder foi chamado para a Volkswagen, adensando o caldo da disputa para a sucessão de Ferdinand Puech no cargo de número 1 da Volkswagen mundial. Um dos bem cotados é o presidente da VW do Brasil, Herbert Demel.
FUTURO 2 - Na apresentação da nova fábrica da GM em Gravataí, houve perguntas sobre a integração entre a GM e sua nova associada, a Fiat. Ficou claro que logo, logo, o motor Fiat 1.000 Fire estará sob o capô do Celta.
EXPERIÊNCIA - Fui entrevistar Breno Fornari, legendário piloto de carreteras, e quem correu com Simcas durante mais tempo. Falou, contou e me levou para ver o 35, seu carro de competição preservado por seu filho Alexandre. No caminho, a grande área terraplanada, pronta para iniciar a construção da Ford, abandonada em meio à pobre Guaíba, depois que o governo petista resolveu fazer marketing político mudando as condições de negócio já feito. Acho que pelas frustrações e prejuízos o PT não se cria em Guaíba.
TESTE - A fábrica que a PSA instala em Porto Real, RJ, já deu sinais de vida. A Citroën fez a primeira pré-série da Picasso. Teste de métodos, processos e equipamentos. A Picasso é concorrente da Renault Scénic e do Mercedes Classe A.
MERCEDES - Enquanto corre solto o boato que a Mercedes teria aprovado o projeto de produção para exportação do Classe C em Juiz de Fora, a marca mantém-se em pesquisa: acaba de importar uma minivan Spacestar e um Colt, ambos Mitsubishi, sua nova associada. Quando a imprensa e os concessionários tomarem conhecimento disto, teremos outra leva de especulações.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br