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De fusões e confusões

Palio e Corsa

Peculiaridades da associação entre Fiat e GM

por Roberto Nasser

Roberto NasserFinalmente a Fiat conseguiu um parceiro que lhe garanta futuro, mercados mundiais, e estrutura operacional que lhe permita crescer sem afogar-se em investimentos, sem renegar a bandeira italiana, nem enterrar uma história de cem anos. Fez negócio associativo com a General Motors Corporation. Cede 20% de suas ações na Fiat Auto e recebe um máximo de 6% das ações da GM Corporation. O objetivo das duas marcas é a redução de custos, complementação de suas capacidades, instalações, ociosidades. Um casamento de interesses, onde os parceiros continuam morando em casas separadas.

O NEGÓCIO

Esta Coluna especulou em torno de negociações com a Ford -- que não deram certo. Errou no parceiro, acertou no geral. Como negócio entenda-se que a chegada dos americanos a Turim, sede da Fiat, não significa assumir um quinto do que possui Gianni Agnelli, herdeiro maior e presidente de honra. O objeto de troca foi tão somente 20% das ações da Fiat Auto -- uma das grandes empresas do grupo que se dedica ao setor automotivo. Trens, tratores, Fiat New Holland Case, fundições, engenharia, automatização industrial ficaram de fora. E no ramo automobilístico -- como relatou a mesma Coluna -- Ferrari e Maserati não entraram, pois não pertencem à Fiat Auto, mas à Fiat SpA, a holding família. A Ferrari tem a cara da Itália, vendê-la seria visto pelo emocional italiano como crime de lesa-pátria.

O negócio tem peculiaridades de comportamento. Se a Famiglia Agnelli quiser vender o restante das ações só poderá faze-lo à GM, e a preço de pregão. Mas se a GM quiser comprar, dependerá única e exclusivamente da vontade dos Agnelli.

NA PRÁTICA

Empresas se associam em casamentos de interesse, para juntar forças, disponibilidades, talentos. É o caso. Para a Fiat isto pode significar a volta ao mercado norte-americano através de uma ou mais marcas. Não há futuro se não há consumo pelos norte-americanos, e talvez isto seja o sinal de volta da Alfa aos EUA.

No Brasil há possibilidades, como anunciou Friedrich Henderson, presidente da GM no Brasil, de se utilizar o novo motor Fire 1,3 no Corsa. Ou que o picape que a Fiat prepara para concorrer com Ford Ranger e GM S10 tenha componentes feitos pela própria GM.

De agora em diante, o panorama será de especulações e dúvidas sobre quais produtos de uma das marcas podem ser mesclados com os da outra, mas frutos efetivos não existirão em menos de um ano. GM e Fiat continuarão a operar separadamente, e a fórmula associativa deve passar pela criação de duas empresas -- uma de motor e transmissão, outra de peças e compras externas -- que assumirão a parte de sinergia, redução de custos, etc.

Não há uma receita comum pois há peculiaridades entre as empresas. E uma delas é o fato de a Fiat ser maior que a GM na América Latina. Outra, é que Gianni Coda, superintendente da Fiat no Brasil, integra a mesa de seis diretores encarregados do entrosamento entre as empresas. O representante da GM para América Latina, Central e África não tem escritório no Brasil, mas em Michigan, EUA.

As farmácias agradecerão. Todo processo associativo dá em enxugamento de pessoal, e até que fiquem determinados conceitos de comportamento, as úlceras, dores de cabeça e outros males aparecem em quantidade industrial. Eflúvios da globalização.

Minha avó, sapos e ônibus

Dizia minha avó, sábia macróbia mineira mas residente no Alegre, ES, "a necessidade é que faz o sapo pular".

Minha avó nada entendia de ônibus, até porque ela era do tempo da tropa e da jardineira, nada mais que um caminhãozinho com bancos, mas à época o pico da tecnologia e da socialização do transporte, depois substituídas pelos Scania Marcopolo
ônibus da Viação Real e da Itapemirim, daqueles tempos em que estrada no Espírito Santo era do tipo Trem Fantasma -- cada curva, um susto!

Mas apesar da distância do tempo, a situação da indústria brasileira de ônibus tem muito a ver a síntese da minha avó sobre estes atléticos anuros. Na atividade de fazer ônibus, as encarroçadoras do Brasil são boas de serviço, e as fornecedoras da plataforma mecânica adequadas às parcerias. Tudo aparentemente bom, mas faltou combinar com o governo. Dentro da instabilidade gerencial sem controle, a indústria de ônibus foi surpreendida no ano passado por uma retração não programada. E tentaram opções: novos nichos de mercado e novos mercados.

A Marcopolo, de Caxias do Sul, RS, forneceu nove unidades à Seletrans, uma operadora de Vitória, ES. A novidade é que os ônibus (foto) têm perfil operacional eminentemente urbano, numa combinação que visa conforto de passageiros e motorista. Uma ossatura mecânica Scania, freio auxiliar Retarder com transmissão automática, uma trava que impede o ônibus de se mover se alguma porta estiver aberta, e um outro, igualmente importante, que rebaixa o lado direito do ônibus a 28 cm do solo, facilitando o embarque dos passageiros. A mudança do sistema de transporte integra o programa Mão na Roda.

Outra montadora, a Busscar, de Joinville, SC, abriu no ano passado um excelente mercado no Caribe, vendendo 1.400 ônibus para Cuba. E acaba de enviar 45 unidades para renovação da frota urbana da ilha de Barbados. Os ônibus usam mecânica Mercedes-Benz e são adequados às regras remanescentes do tempo em que eram colônia inglesa: direção ao lado direito e escadas à esquerda. Um terço da encomenda tem ar-condicionado, e duas unidades, elevador para cadeira de rodas.

Marcha a ré

O Contran, Conselho Nacional de Trânsito, órgão máximo da política de trânsito, baixou a Resolução 111, de 24 de fevereiro, publicada no DOU de 10 de março. Num emaranhado jurídico que se refere a duas outras, do mesmo órgão, prorroga para 30 de junho o prazo limite anteriormente citado. Não entendeu? É o seguinte.

A redação atrapalhada, exatamente como não devem ser os textos legais, quer dizer simplesmente que a data final para a substituição das placas amarelas pelas atuais, de cor cinza, será o meio do ano, e que este é o terceiro prazo que o Contran estabelece para a substituição. Os outros dois não foram respeitados.

Restam duas dúvidas: primeira, como fica a situação de quem trocou as placas antigas pelas novas, no período decorrido entre o fim do segundo prazo, do princípio do ano até a publicação da nova Resolução, pagando multa por ter perdido o prazo? Segundo: a terceira data é para valer?

Auditoria

Grassa a ineficiência em boa parte dos Detrans brasileiros. Conseqüência ou não do novo Código de Trânsito Brasileiro, com sua inacreditável capacidade de síntese que resume a missão de educar na de pespegar multas caras.

Por conta disto o deputado Ari Kara, PPB/SP, presidente da Comissão Especial para Acompanhar o Cumprimento do Código de Trânsito, depois de analisar os números de acidentes ocorridos no período do Carnaval, propôs uma intervenção do Denatran, o Departamento Nacional de Trânsito, órgão federal para a matéria, em todos os Detrans estaduais que não cumprem a legislação de trânsito.

Entende -- corretamente -- o parlamentar que o número de acidentes é alto por conta da falta de preocupação destes órgãos de trânsito em realizar campanhas e assumir posturas educativas, e que pelo menos em 16 estados, os Detrans deixam de cumprir o determinado pelo Código que é a punição por pontos, suspensão e cassação de carteiras de infratores habituais.

Roda-a-roda
FIESTA - A Ford européia deu uma acelerada em seus planos para fazer lucros e aumentar participação de mercado. As medidas vão da concentração de produtos em menor número de fábricas na Inglaterra, dispensa de pessoal e redução do prazo para o lançamento do novo Fiesta em seis a oito meses. A meta é novembro de 2001. Lá. Aqui, não, e sem previsões.
PIQUET - Nelson Piquet aceitou dirigir para a fábrica cearense de jipes Troller no Rally dos Sertões. Especificou o veículo: motor BMW para competições de resistência, caixa de marchas e de transferência importados, diferenciais especialmente construídos pela Dana -- fábrica da especialidade. Segundo a engenharia da fábrica, é conjunto para chegar com um dia de vantagem -- que aliás é uma bravata muito harmônica com o espírito livre, leve e solto do nosso tricampeão.
PREÇO - A medida de cooperação ou independência entre a Fiat e a General Motors poderá ser aferida a partir de agosto, quando a GM apresentar o Blue Macaw, nome código do produto que fará em Gravataí, RS. A montadora prometeu-o como o mais barato do mercado, e a Fiat reformulará o Mille para enfrentá-lo com preço menor. Se houver a competição, haverá independência. Se não, não.
NEGÓCIO - A Comunidade Econômica Européia vetou a compra da Scania pela Volvo, por entender que criaria um insuperável poder sueco na área de caminhões. Negócio condenado -- apesar das conseqüências internas já deflagradas na simplificação administrativa -- pode dar origem a outro: a divisão de caminhões da Fiat quer comprar a Volvo.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br