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O Rali dos Antigos visto por
um quase-participante

Preparei meu FNM 2000 TIMB para percorrer as cidades
mineiras,  mas fui impedido pelo platinado e os freios

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação
Roberto Nasser

“Preparei-me a participar do Brazil Classic Fiat Tour 2003, atrativo rali com veículos com mais de 25 anos de uso, perpassando as históricas cidades das Minas Gerais. Obrigação de qualquer antigomobilista aderir à idéia — afinal, primeira iniciativa do gênero, variante nacional das famosas Mille Miglia Storica, e chancelada pela Federação Internacional de Veículos Antigos.

Defensor da preservação dos nacionais antigos, separei o de rodar mais agradável, o FNM 2000, versão TIMB, de 1968, 62 mil quilômetros desde novo, submetida a ampla revisão de conferências. O automóvel participara da inauguração da belíssima ponte do Lago Sul, em Brasília, e recém-premiado como um dos 10 Melhores no Carro do Brasil, evento exclusivo aos nacionais antigos.

Revisado, seguiu em caminhão-cegonha para Belo Horizonte. Lá, foi lavado e polido à noite, teve os líquidos conferidos no posto Ale da rua do Ouro — serviço atencioso e os banheiros mais limpos que já vi no ramo.

Dia seguinte, alinho na Praça da Liberdade, número 36 dentre os 41 participantes. Mesclavam-se Fords A, incluindo raro Coupé Cabriolet, Dodge, Studebaker do final da década de 20, a exemplares como Ferrari Dino GT, Rolls-Royce Phantom, Hudson Hollywood, o único do país; Packard roadster 1937; Corvette 1960; Mercedes SL 280; Alfas GTV preparadas a ralis no Mercosul; dois Mercedes SLR — os mais caros, raros e reverenciados. Nacional, só mais um, Corcel 1977.

Largada a cada minuto, pelo ministro dos Esportes e mineiro Walfrido Mares Guia. A 10 minutos da saída, o TIMB, cujo motor aquecia e carregava a bateria, morreu. O Paulo, mecânico de mão-cheia e soluções, correu, mexeu, trocou a bobina, e nada. Mais tentativas, tempo correndo, o rali partiu. Engenheiros da Fiat, Robson Cotta e Guilherme Matheus, mostrando que não entendem só de centralina e injeção eletrônica, abriram caixas de ferramentas tiradas do bolso do colete em operação salvação.

Descobriram o platinado derretido na base e na fibra de contato. Compras no feriado, carro funciona, bobina volta a aquecer. Nova inspeção e chega-se a defeito atípico, mas típico de veículo antigo em evento: a chapa defletora de calor aposta sobre o motor de arranque afrouxara-se, fechando contato com os fios da partida, jogando forte amperagem na ignição. Caso resolvido, pé na estrada: tanque completo com gasolina premium, aditivo para octanagem, óleo 2 tempos para proteger sedes e guias de válvulas contra o álcool; aditivo limpador de carburador — e o motor morre: o platinado se fechara.

O pessoal da Fiat, patrocinadora do evento, mandara um Doblò me comboiar. Achei que Allah, clemente e misericordioso, me sugeria um rali turístico. Fui de Doblò. O TIMB, para a concessionária Strada.

Rali na frente correndo bem, cheguei a Tiradentes depois de todos os participantes. Nos outros, panes bobas. Sexta, viagem a Prados, igualmente histórica e o ponto alto de um inimaginado espírito antigomobilista: as crianças aplaudiam os antigos — e vaiavam os novos.

No hotel, surpresa: a engenharia da Fiat arranjara os parâmetros de regulagem e acertara ignição e carburação do TIMB, enviando-o a Tiradentes. Sábado, excitado, nem prestei atenção aos 8 graus de temperatura. Passei rápida água no automóvel, liguei-o, funcionou alegremente, aqueci, saí. Os 131 cv relincharam de alegria quando cambiei as quatro primeiras marchas a 5.600 rpm, limpando o motor, troando na manhã nascente e fendendo a neblina.

Relincharam de volta quando usei o motor para detê-lo, pois o freio só operava após a décima bombada. O mesmo Paulo descobriu uma fenda na pinça dianteira esquerda. Bloqueou-a. Mais vale um carro com freio em três rodas do que faltar carro. Nova sangria e desta vez quem vazou foi o cilindro-mestre. A esta altura Allah já estava gritando comigo. Chamei uma plataforma e mandei o TIMB embora, assumi-me observador, a bordo do Doblò.

Não estava só nas panes. Um Mustang conversível perdera o freio e Hugo Pichioni substituíra por um Mercedes 220. O Ferrari GTS bloqueou os freios; o Rolls teve pane elétrica; o Packard perdera a segunda marcha, e o Mercedes Pagoda, o hodômetro — por incrível que pareça a dupla Boris e Luiz Feldman errou pouco, utilizando apenas o olhômetro.

Neste sábado, um trecho formidável, a Estrada Real, asfaltada após 300 anos, a estalagem onde se reuniam Tiradentes e Inconfidentes; uma serra competente, a histórica Ouro Branco, e finalmente, Ouro Preto. Dia seguinte, Mariana, com seu preservado casario, o monumental órgão da Matriz e seu museu.

Como resultado, venceram Wanderley Natali, com Alfa GTV; Leonardo Gouvêa de Corvette 60 e seu irmão Nelson, em Porsche 911 Targa 73.

Resultado adicional, a certeza que o rali histórico criou um novo tipo de evento antigomobilístico no país, mesclando habilidade mínimas de navegação, com o usar dos antigos e o convívio com conhecidos e amigos do hobby. Foi um daqueles eventos que ao final, os participantes sabem que os não-participantes, os pouca-prática de visão restrita, sabem exatamente o que perderam.

Daqui a dois anos haverá outro. Allah, clemente e misericordioso inspirará os mecânicos que cuidam do meu carro. Ah, o Doblò é formidável, especialmente quando dirigido pelo paciente Wagner." Continua

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Data de publicação: 1/7/03