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Strada forte

Fiat troca o motor 1,6 16V pelo GM 1,8 e
faz evento para demonstrar liderança e lucros

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação
Roberto Nasser

Incentivada pela possibilidade de redução de custos, como o uso de componentes comuns, em decisão festejada pela alta do dólar, a Fiat substituiu em seus picapes Strada o motor 1,6 16-válvulas, italiano, pelo 1,8 8v desenvolvido no Brasil, e aplicado nos Chevrolets Corsa e Meriva.

Conseguiu o intento. Mais barato, permite à empresa manter-se competitiva e líder no segmento, sem aumento de preço. Com mais torque -- 17 m.kgf contra 15,4 m.kgf do motor anterior -- ocorrendo em faixa de rotação inferior -- 2.800 contra 4.500 rpm --, o casamento oferece resultados dinâmicos superiores. O torque abundando em rotações inferiores o faz muito esperto, e permite o uso do motor sem a necessidade de elevar rotações para conseguir força. Resultado, embora a cilindrada tenha aumentado, o consumo se reduz um pouco. Em suma, o motor é muito mais adequado ao uso para trabalho que o anterior, típico de automóvel.

O segmento de picapes leves se elevou de 29% do mercado de comerciais leves para 36% em apenas quatro anos. E a Fiat, que o lidera, cresceu para 41% de participação nos últimos meses.

Reposicionamento

A Fiat aproveitou o embalo para arrumar o pacote destes picapes. Elevou o padrão de decoração e confortos da versão Working, base da linha, suprimiu-lhe o motor 1,5, destinando-o apenas às versões a álcool, e elevou-o padrão, primeiro nível com o novo 1,8. Degrau inicial desta escala, o Strada com o motor Fire 1,25. No topo, a versão Adventure, mais enfeitada e com apelos de liberdade pessoal. Os preços do Strada são inferiores aos do picape Saveiro, da Volkswagen, a quem conquistou a liderança no setor.

Do efeito e da demonstração

A Fiat fez convite e enfatizou como tema para o lançamento dos picapes com motor 1,8 a Mandala, símbolo indiano, e a palavra básica Energia. Fez um encontro em Araxá, MG, na imponência histórica do Grande Hotel, o que incluiu até avião fretado, com direito a pouso sobre plácidos bois e cavalos que pastavam, superiormente, na cabeceira da pista, e araxaenses em profusão, lotando os muros do aeroporto para assistir ao movimento de aviões de grande porte -- Araxá é servida por três vôos diários com o jato Embraer dito Jet Class.

Na aléia de acesso ao hotel, onde em ocasião de encontros de veículos antigos se parqueam os veículos de maior destaque, estavam todos os produtos e versões Fiat e Alfa comercializados no país. Na programação formal, diretoria em peso, devidamente comboiada por presidência e representação da associação de marca.

Lembrei-me do Regimento do Congresso Nacional, aquele onde, ao contrário do código de ética dos corretores zoológicos, não vale o que está escrito. Mas o que não está dito, as regras retas por linhas curvas, o denso conteúdo dos espaços em branco.

Não era festa para mostrar nova motorização de um produto -- o tema não justificaria tanto tempo e investimento --, mas a criação de entrelinhas para aguçar a percepção que a operação da Fiat no Brasil continua líder de vendas; que fechará o ano em lucro; com investimentos mantidos de R$ 3 bilhões até 2006; pretensões de ampliar mercado através dos 14 lançamentos entre produtos, versões e motorizações que terá em 2003; projetos de incrementar exportações para mais de 60 mil unidades no próximo ano, e mais de 100 mil até 2005; passos corajosos como exportar a marca para o México; a montagem de um Centro de Design em sua sede de Betim, MG, para projetar veículos e exportá-los mundialmente a partir do Brasil. 

Em suma, a festa não era para o baixo relevo de um novo motor, mas para mostrar, sem falar ou escrever, baseando-se tão somente no meio-ambiente, que independentemente do noticiário negativo que envolve sua matriz, vai muito bem, obrigado, líder, rentável, e perseguindo o futuro.

União e troca-troca contra o dólar caro

Sérgio Habib, o arguto presidente da Citroën no Brasil, declarou à Coluna durante o Salão de Paris, em setembro, que "dólar a R$ 3 inviabiliza a indústria automobilística brasileira". A afirmação tem clara justificativa: todos os produtos nacionais possuem, em variada escala, componentes importados e todos os custos de transporte, alfândega, e impostos de importação pagos em dólar, que expandem o custo do produto final, tornando-o, em alguns casos, igual ou maior que o de venda. Ou seja, prejuízo a cada carro vendido. Se a relação 3 x 1 arrisca a operação, nos 3,6 x 1 que parece estável, a situação é 20% pior.

Apesar de rigorosa, a observação tem fundamentos. Há três anos, quando o Banco Central em caminho turvo enriqueceu uns pilantras oficiais e oficiosos, e permitiu enorme desvalorização do dólar, a Fiat quase encerra a produção do Marea, que empregava motor importado, pois cada carro vendido era perda de dinheiro. Correu a nacionalizar o motor. Com os sustos mais recentes, mês passado a Mitsubishi deu férias coletivas, para evitar perdas na produção dos picapes L 200 e o novo utilitário Pajero TR4. Mesmo fez a Citroën, freando a linha de montagem do monovolume Picasso, ao mínimo de um terço de capacidade, equilibrando pessoal e prejuízos. De médios mil e cem unidades/mês, que produziu e comercializou, contentou-se com trezentas e poucas. Continua

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Data de publicação deste artigo: 3/12/02