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Ford recomeça na Bahia

A marca retorna a onde se instalou em 1918, com uma
fábrica moderna e atenta ao meio-ambiente

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação
Roberto Nasser

Uma nova região econômica; um novo centro industrial; um novo conceito de construção de automóveis; produtos com independência de formulação; muita esperança; uma alavanca política. Se este largo espectro pode ser sintetizado, é o que representa o global da nova fábrica que a Ford plantou no meio do Centro Industrial de Camaçari, nas proximidades de Salvador, BA -- exatamente no terreno cedido à Asia Motors, que se aproveitou dos incentivos, nada fez e sumiu.

Ali, num processo cuidado de não-violência à natureza, com recuperação da Mata Atlântica e saneamento de esgotos primários utilizando tecnologia chinesa de alguns milênios, que é a passagem por dois campos plantados com arroz, a marca pretende tirar seis versões de uma plataforma que pode ter opções em motorização e aplicativos -- misto de sedã e monovolume; utilitário; sedã em quatro portas, picape, conversível, etc. e tal. E com o equilíbrio de baixo preço com engenharia adequada a situações ásperas e agrestes, criar um fluxo de exportações para países em desenvolvimento, além de recuperar as vendas.

Antônio Maciel Neto, presidente da marca, assinalou que dos 8,3% de participação no primeiro trimestre, quer elevar este volume para 14% -- percentual muito próximo dos primeiros colocados -- e ampliar este volume ao atingir o pico máximo de 250 mil unidades/ano.

Ação conjunta

Para alguns é uma ida à Bahia, mas na verdade é um retorno. Foi em Salvador, em 1918, que se instalou a primeira linha de montagem, nomeação pessoal de Henry Ford ao baiano Antonio Navarro Lucas. A marca somente instalou filial em São Paulo dois anos depois.

Como fábrica é um ambiente limpo, de poucos ruídos, ventilado -- ar úmido é insuflado próximo ao piso, reduzindo a temperatura interna em 5 graus relativamente à externa. São 1,6 milhão de metros quadrados de área, num terreno de 4,7 milhões de m2. Como polo agregador de processos, cria uma rede de 33 fornecedores à sua volta. Como máquina de fazer carros, começa bem, com o recorde operacional: consegue expelir um carro a cada 80 segundos, equivalendo a 850 unidades diárias quando a plena carga.

Não se trata de mais um produto ou de mais uma fábrica. Em verdade, os Fiestas que começam a sair dos portões de Camaçari coroam uma operação resgate. A Ford, pioneira, ex-líder e uma das quatro grandes do mercado, perdeu lucros, tempo e desgastou seu futuro quando formou a Autolatina com a Volkswagen. Despencando em vendas, participações, tendo prejuízos contínuos, a decisão de fazer não um novo produto ou uma nova fábrica, mas investir numa família capaz de ser absorvida internacionalmente e criar um centro industrial, agregando fornecedores e fábricas à sua volta, um empreendimento de US$ 1,9 bilhões de dólares, pode ser visto como o esforço capital para mudar o caminho da empresa.

Mercado

A Ford convive com a "Dúvida de Tostines": vende menos porque tem menos concessionários, ou tem menos concessionários porque vende menos?

A marca dispensa o tempo para filosofias. Por isto, enquanto provoca sua rede, motiva empresários, preferivelmente já concessionários de outras marcas, a operar pontos de venda, e foi para a Internet, onde seu sítio realiza vendas com entradas a partir de R$ 1 mil.

Resumo

Do que vi, é uma das operações mais corajosas e ampla para resgatar uma marca. Contém um dado muito importante nestes tempos de brasilidade atropelada pela globalização; a intensa participação da engenharia brasileira no criar de características ao produto, que segue em paralelo ao europeu, com características de atendimento a nítidas exigências de países em desenvolvimento.

A presença da mão nacional é notada na fábrica, dotada de um processo extremamente moderno de produção, mas ao mesmo tempo inteiramente adequada às condições de clima e localização. É uma unidade dedicada ao local onde operará, e deixa, por exemplo, a Costa do Sauípe com jeito de projetos padronizados e implantados sem combinação com a localização e características locais.

O melhor rótulo de sensibilidade às coisas locais, deu o cerimonial da inauguração. Cercado por um séqüito, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães teve tratamento de autoridade máxima. Foi o último a falar e fez discurso de estadista pacificador. Como se concordasse com a vitória de Lula, assegurou aos executivos maiores da matriz da Ford que a condução econômica do país não se modificará e assegurou tranqüilidade. O sr. Antonio Carlos Magalhães é um médico que não medica; não exerce mandato eletivo, mas continua sendo uma espécie de vice-rey da Bahia, tratado e reverenciado tal. Inclusive pela Ford, baiana desde pequena. Continua

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Data de publicação deste artigo: 21/5/02