Muletas de segurança

A adoção dos freios ABS de forma obrigatória é bem-vinda, mas
devemos pensar nos índices de absorção de impacto pelos carros

por Gino Brasil

Algum tempo atrás, comentamos aqui a questão da obrigatoriedade de bolsas infláveis frontais em nossos carros, que passa a valer de forma progressiva até a totalidade em 2014 (leia coluna). Naquela ocasião mencionamos que, em conjunto com essa obrigatoriedade, vinha também a dos freios com sistema antitravamento (ABS).

Esse sistema, como o leitor do Best Cars sabe, impede que as rodas travem em uma frenagem mais brusca. Sua eficiência é inquestionável e sua contribuição para a segurança também. Pensando nisso, a Resolução nº 312 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), de 3 de abril de 2009, determinou a obrigatoriedade de sua adoção, ainda que de forma gradativa, de maneira que todos os veículos nacionais e importados contenham esse equipamento até 2014. Para tanto, a referida resolução dividiu os carros em categorias de forma a graduar de maneira mais uniforme a aplicação do equipamento. Foram criadas sete categorias de veículos, divididas em transporte de passageiros, de carga e reboque, e foi criada uma graduação da porcentagem da produção dos veículos de cada categoria com o referido equipamento. Para amenizar o impacto da adoção do ABS nos preços dos veículos, a graduação é bem razoável.

Dessa maneira, temos que os veículos que transportem até oito pessoas, ou que tenham capacidade de carga de até 3,5 toneladas, deverão seguir uma ordem em que 8% da produção do ano de 2010 tenha o equipamento, 15% da produção de 2011, 30% da produção de 2012, 60% da produção de 2013 e 100% da produção de 2014. Para os veículos que transportam mais de oito pessoas e que tenham capacidade de até 12 toneladas, e ainda os reboques, o percentual exigido é menor e o prazo para adequação à exigência é mais longo. A obrigatoriedade da instalação só se inicia em 2013, quando 40% da produção desses veículos deverão estar equipados com ABS. Para 2014 já são 100%.

A transição para a obrigatoriedade, em forma de prazo para que todos se enquadrem na nova regulamentação, não é abusiva — muito pelo contrário. O período de tempo e os progressivos percentuais de exigência do montante de veículos que devem sair de fábrica com o equipamento são bem razoáveis e até tranquilo. Não cabe reclamação de curto período de tempo para adequação, como aconteceu pouco tempo atrás com a regulamentação para emissão de poluentes aplicada às motos (leia coluna).

O exemplo de fora
No entanto, o que se deve depreender dessa nova regra é sua real necessidade e se não há um movimento paliativo. Explico. No caso da obrigatoriedade das bolsas infláveis, suscitei o raciocínio de que seria mais produtivo, para todos os motoristas e usuários de vias públicas, não tornar um ou outro equipamento — ainda que de segurança — obrigatório, mas sim impor níveis de exigência para testes de impacto mais severos. Com isso, seria garantida uma maior integridade de todos os ocupantes, tornando o veículo como um todo mais seguro. E isso pode se estender aos pedestres também, com exigência de cumprimento de medidas de segurança que minimizem as lesões em caso de impacto com pessoas.

Se observarmos a legislação em vigor na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, veremos que o princípio que se segue é esse. A instalação das bolsas infláveis — de início as frontais, depois também as laterais, as de cortina e até as de joelhos — acontece por decorrência dos altos níveis de proteção exigidos, não pela obrigatoriedade pura e simples dos equipamentos. Os dispositivos se tornam padrão para que os veículos atendam aos requisitos impostos. Nada mais lógico.

Além disso, no caso do ABS, é necessária certa instrução para a utilização correta do sistema, pois existe uma pulsação no pedal (durante o trabalho do antitravamento de aliviar e retomar a pressão hidráulica, muitas vezes por segundo) que causa estranheza a motoristas pouco habituados. Se o veículo trafega sobre piso irregular, sobretudo as chamadas "costelas de vaca", o alívio de pressão nos freios pode chegar a prejudicar a frenagem, algo a que o motorista deve estar precavido.

Há ainda a necessidade de manter o pé pressionando o pedal — independente da pulsação ou vibração que este transmita — para obter a máxima pressão de frenagem. É preciso orientar também que a grande vantagem do ABS é que o veículo não perde sua manobrabilidade, ou seja, é possível desviar de um obstáculo mesmo com o pedal de freio totalmente pressionado. É necessário, portanto, que em conjunto com a obrigatoriedade do equipamento haja a instrução de como usá-lo corretamente. Caso contrário, será mais um recurso de pouca ou nenhuma utilidade.

No entanto, o que é mais alarmante é que pouco se fala sobre a exigência de proteção em colisão que nossos carros devem ter, mas muitos insistem em recheá-los de equipamentos. Na prática, esses dispositivos tornarão os carros mais seguros, mas também mais caros, e os níveis de absorção de impacto e proteção aos ocupantes são deixados de lado. Eles, sim, é que deveriam ser observados e exigidos de maneira a tornar os veículos mais seguros, de forma independente de muletas.

Na Europa e nos Estados Unidos, a instalação das bolsas infláveis acontece por decorrência dos altos níveis de proteção exigidos, não pela obrigatoriedade pura e simples dos equipamentos. Nada mais lógico.

Colunas - Página principal - Envie por e-mail

Data de publicação: 29/9/09

© Copyright - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados