Etiquetas que não colaram

As etiquetas implementadas como forma de orientar sobre o
consumo de combustível tornaram-se fator de confusão

por Gino Brasil

Recentemente precisei fazer uma pesquisa para compra de eletrodomésticos. A primeira coisa que salta aos olhos quando se faz uma pesquisa desse tipo de produto — além do preço, claro — é o consumo de energia que cada um dos produtos apresenta, demonstrado por uma etiqueta afixada ao produto. Esse fato me fez lembrar que as etiquetas de consumo que estão presentes nos eletrodomésticos agora existem também para os carros, uma vez que já houve a regulamentação de sua aplicação aos produtos.

Como já mencionado aqui na coluna de 11/11/08, tais etiquetas por enquanto são facultativas e não abrangerão todos os tipos de veículos. O programa prioriza sua aplicação a veículos mais baratos e de baixo consumo, para depois alcançar os demais. E mais: não serão todos os fabricantes que terão seus veículos etiquetados, já que a adesão é voluntária e, por enquanto, somente Fiat, General Motors, Honda, Kia e Volkswagen aderiram ao programa de identificação do consumo dos veículos pelas etiquetas.

Uma das grandes discussões acerca do assunto, quando ainda em fase de implementação, era com referência à uniformidade da medição, ou seja, a determinação de um padrão para que todos os veículos fossem submetidos a testes idênticos e, dessa forma, as etiquetas pudessem servir de fato a uma base de comparação. Superada essa fase, em que ficou determinado que seriam seguidas as regras determinadas pela norma NBR 7024 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), fez-se o enquadramento dos carros em categorias, conforme suas dimensões, e passou-se a classificá-los de “A” para o carro mais econômico a “E” para o mais gastão em sua classe.

Ocorre que os testes de consumo realizados para a etiquetagem dos veículos apresentaram uma surpresa: uma variação muito grande em relação aos números divulgados pelos fabricantes, que seguem a mesma NBR 7024. Teoricamente, se os padrões de aferição do consumo para validação das etiquetas seria o mesmo adotado pelos fabricantes, esperavam-se variações pequenas, talvez em função das condições de elaboração do teste. Isso seria facilmente compreendido e até inserido dentro de uma margem de erro aceitável.

Surpresa nas variações
No entanto, as variações apresentadas foram surpreendentes, para mais e para menos. Diante desse cenário, ficaram indagações. Por que isso aconteceu? Em que informação podemos confiar, na do fabricante ou na da etiqueta?

Teoricamente, antes de o projeto se concretizar, as respostas para essas perguntas eram simples. Podia-se acreditar em qualquer um dos dois, pois os critérios de avaliação seriam os mesmos e, em teoria, um número deveria espelhar o outro. Ocorre que na prática foi um pouco diferente — aliás, bem diferente. Com a discrepância dos números obtidos, em vez de orientar o consumidor e lhe fornecer mais uma referência para a compra de um automóvel, o que vemos agora é a etiquetagem se tornar uma fonte de indefinição e dúvida.

A explicação para isso podem estar em diversos fatores que envolvem esses testes, com seu grande número de variáveis. Se os testes divulgados pelos próprios fabricantes foram feitos em equipamentos diferentes — ou seja, nos equipamentos de cada marca —, pode haver diferença de calibração de equipamento. No caso de teste feito em um mesmo local independente, a variação pode estar mesmo no produto, em cada carro que foi testado. Como se sabe, diferenças em uma linha de montagem são comuns e não existem dois carros ou motores realmente idênticos. O problema passa a ser o tamanho dessa variação, que não deveria ultrapassar uma margem de erro razoável.

De qualquer forma, mesmo que sujeito a variações nem sempre compreensíveis, o que interessa é que o consumidor tenha em suas mãos um instrumento interessante e conveniente, que serviria de baliza uniforme para a compra racional e até mesmo para a definição de escolha de determinado modelo. Mas isso não parece ocorrer na prática. Em visitas recentes a concessionárias, não vi em nenhum carro inserido no programa voluntário a etiqueta informando seu consumo. É preciso mudar logo o rumo tomado por essa medida para que ela não caia no esquecimento.

Com a discrepância dos números obtidos, em vez de orientar o consumidor e lhe fornecer mais uma referência para a compra de um automóvel, o que vemos agora é a etiquetagem se tornar uma fonte de indefinição e dúvida

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Data de publicação: 23/6/09

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