Questão de prioridades

Foi sancionada a lei que obriga ao uso de bolsas infláveis,
mas não teríamos outros pontos mais importantes?

por Gino Brasil

O governo federal sancionou a lei que obriga que todos os veículos, nacionais e importados, sejam equipados com bolsas infláveis frontais a partir de 2014. Ou seja, em cinco anos todos os carros novos licenciados no País deverão vir equipados com o item de segurança. Sem dúvida, a medida representa um valioso auxílio no combate aos números absurdos de vítimas em nosso trânsito. Embora considere interessante a novidade, receio que essa obrigatoriedade tenha vindo cedo demais.

Bolsas infláveis são equipamentos bem complexos, que devem ser previstos desde o projeto de um carro, pois não admitem adaptações em modelos que não as previram. Nesse aspecto não temos maior problema, pois — com exceção de utilitários como a Kombi — todos os nossos carros estão aptos a recebê-las. Ocorre que não é somente o carro que precisa se aculturar às bolsas infláveis: o motorista também.

A utilização correta das bolsas infláveis — a não ser as de padrão norte-americano, que não são comuns por aqui — requer que os ocupantes usem o cinto de segurança. Do contrário, o equipamento pode ser mais nocivo do que benéfico. Em caso de colisão, os cintos retêm o motorista e o passageiro para que seus corpos sejam projetados à frente no exato momento em que as bolsas infláveis já estão cheias, absorvendo o impacto. Caso os ocupantes não usem o cinto, serão projetados enquanto as bolsas estão inflando, o que causará lesões, pois o elemento pirotécnico que ativa o equipamento é muito potente.

Nos grandes centros a utilização do cinto é pratica comum, mas basta sair das cidades, ou mesmo transitar por seus bairros, para verificar que ele é deixado de lado. Além disso, há a questão das crianças transportadas no banco dianteiro, mesmo sem ter idade ou tamanho para tal (a legislação só o permite para maiores de 10 anos, com algumas exceções). Com um impacto, mesmo de cinto, as bolsas infláveis podem ser mais prejudiciais do que benéficas.

Há ainda outra questão que é o posicionamento correto do condutor. Não raro vemos no trânsito motoristas trafegando com o banco em posição totalmente errada, seja muito perto, seja muito longe do volante. Eu, pelo menos, nunca vi ninguém explicar em uma concessionária a que distância do volante o motorista deve ajustar seu banco, de maneira que a bolsa inflável não o lesione em caso de acionamento.

Manutenção
Deve-se atentar ainda ao custo de manutenção desse equipamento. A bolsa inflável em si quase não requer manutenção, apenas uma inspeção a cada 10 anos. Entretanto, sua instalação pode aumentar o preço do seguro dos automóveis, uma vez que haverá mais um equipamento a ser reparado e esse não é dos mais baratos. Diante de uma cobertura muito cara, mais pessoas deixarão de fazer seguro e, em caso de acidente com disparo da bolsa, terão que arcar com um custo de reparo muito maior. Arrisco ainda a dizer que muitos consertarão o carro sem a necessária troca das bolsas. E isso traz outro problema: como fica o consumidor que adquirir um carro nessas condições no mercado de usados?

Muitos alegam sobre a questão do custo do equipamento, que impactaria em grande aumento no preço dos carros. Essa questão é discutível, pois atualmente o item é caro em função da baixa demanda e pelo fato de ser importado. Com o aumento da aplicação e a promessa de instalação de fábricas no Brasil, fatalmente o preço cairá, tornando seu custo mais baixo para o consumidor.

Na realidade, acredito que a introdução das bolsas infláveis em nossos carros não necessita ser compulsória. Ela poderia ser natural na medida em que os custos do produto fossem caindo. Seu valor ainda é alto para os modelos mais simples, mas há espaço para melhorar com o aumento da procura. Para isso, por que o governo não oferece uma expressiva redução dos impostos incidentes sobre esses equipamentos, para que o fabricante e o consumidor os adquiram por preços mais baixos? Poderia até mesmo fixar um percentual de desconto nos tributos para o valor total do carro equipado com bolsas infláveis, de modo que seu custo fosse absorvido pelos impostos. Garanto que a cultura do consumidor brasileiro mudaria e ele passaria a comprar as bolsas de maneira voluntária, não compulsória.

Mas a principal questão, em minha opinião, é que temos que mudar a postura do brasileiro ao volante. Temos que conscientizar o motorista sobre os riscos do carro e da condução irresponsável. Acredito que, antes de aprovar uma norma que obrigue às bolsas infláveis nos carros, precisamos educar os motoristas, formá-los melhor. Mostrar que determinadas situações são incompatíveis com a boa convivência em sociedade e com um trânsito mais seguro.

Estamos longe disso? Sim, muito, mas precisamos começar por algum lugar — e impor algo pode não ser o melhor caminho. Acredito que pela educação e conscientização de que o equipamento é útil, associadas a um incentivo tributário, sua adoção poderia ser natural.

A instalação pode aumentar o preço do seguro dos automóveis, uma vez que haverá mais um equipamento a ser reparado e esse não é dos mais baratos

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Data de publicação: 31/3/09

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