Chamada geral

Comparecer ao recall deveria ser algo natural; como não é,
buscam-se maneiras para tornar o serviço obrigatório

por Gino Brasil

O processo produtivo em massa é algo de se admirar. Produzir milhares, às vezes milhões de produtos iguais e com as mesmas características demanda de seu produtor controle, engenharia e tecnologia de ponta para que a variação dos produtos que saem de sua fábrica seja mínima. Entretanto, isso nem sempre acontece e, por vezes, temos que uma leva ou um lote de produtos saem das fábricas e chegam ao mercado consumidor com características fora da especificação original e, pior, fora dos padrões determinados pelas normas de segurança.

Quando isso ocorre, a prática consagrada pelos fabricantes é a convocação, mais conhecida como recall (que em inglês significa "chamar de volta"). Chamam-se os proprietários dos produtos atingidos pelo defeito para o reparo sem custos. Na indústria automobilística, essa política tornou-se praxe quando é identificado que um lote de veículos saiu das fora das especificações determinadas pela fábrica e pela lei. Nas últimas semanas tivemos dois recalls anunciados:um da Chevrolet, para troca de componentes do cinto de segurança, e outro da Volkswagen para a verificação e possível troca da lanterna traseira dos veículos equipados com luz de neblina.

A convocação demonstra respeito ao consumidor e preocupação dos fabricantes com a integridade de seus consumidores. Há também a preocupação em preservar a imagem do fabricante de comercializar produtos seguros e confiáveis e, sem dúvida, de se prevenir contra eventuais demandas legais, que poderiam trazer prejuízo — tanto pecuniário quanto de imagem — mais devastador do que anunciar que determinado modelo de veículo saiu com defeito.

Ocorre que essa prática pode ir por água abaixo se a outra parte envolvida na questão — nesse caso, o consumidor — não colaborar. É o caso dos proprietários, chamados para levar seu veículo a uma concessionária da marca para efetuar os reparos recomendados pelo fabricante, que não o faz. Além de a atitude poder prejudicá-lo diretamente e a sua família, uma vez que ele estará circulando em um automóvel fora das especificações do fabricante e em desacordo com a norma em vigor, esse consumidor desleixado põe em risco também os demais motoristas e cidadãos que se utilizam da via pública.

O problema pode ir ainda mais longe, pois um dia esse carro provavelmente será revendido e o novo proprietário comprará um automóvel fora de especificação, que pode feri-lo ou a seus semelhantes em função de um ato displicente do dono anterior do carro. Alguns podem argumentar que seria obrigação do novo proprietário se certificar se o carro passou pelo recall ou não. Discordo visceralmente dessa opinião, pois a obrigação de cumprir a convocação é do atual proprietário e não do futuro. Ele é o dono do carro e, como tal, é dele a obrigação de tê-lo em condições de rodagem e dentro das especificações do fabricante e da lei.

Além disso, não são todos que — como nós que fazemos e lemos o Best Cars — têm paixão pelo automóvel e por tudo que a ele esteja relacionado. Muitos o encaram como simples meio de transporte e não se informam nem sobre a pressão recomendada para os pneus; que dirá sobre os recalls por que o modelo passou. Na verdade, acredito que até os mais devoradores de informações automobilísticas teríamos alguma dificuldade em saber essa informação sem pesquisa prévia. E os fabricantes, ao cumprir a obrigação legal de convocar os proprietários, enviam carta apenas ao primeiro proprietário — eles alegam não ter como contatar os que compraram o carro de segunda mão.

Falta de tempo
Os que são contatados, mas não comparecem a um chamado de recall, dão várias alegações, desde a falta de tempo até a impossibilidade de efetuar o reparo em fins-de-semana. E aí fica uma dica e um apelo às concessionárias e aos fabricantes: em casos de recall, ampliar seu horário de atendimento, ao menos nas primeiras semanas da campanha, com o intuito de atender o maior número possível de clientes, o qie trará dividendos ao preservar sua imagem, fazendo valer o investimento no programa de recall.

Acredito que, à parte esses fatores, haja também uma falta de senso de cidadania. A perda de tempo em levar o carro para a concessionária, ou mesmo a indisponibilidade do veículo pelo tempo do conserto, não causa impacto tão severo assim quanto o de uma lesão — ou até uma vida perdida — em função da falta da troca de uma peça de segurança, como partes do cinto, na presente convocação da Chevrolet.

Tendo isso em vista, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e a Secretaria de Defesa do Consumidor estão estudando uma maneira de tornar o comparecimento ao recall um ato obrigatório, que trará sanções àqueles que se recusarem a fazê-lo. A primeira idéia é bloquear o licenciamento do veículo caso este não tenha cumprido a determinação do fabricante. O raciocínio é o de que o carro estaria fora de especificação e, portanto, não poderia ser licenciado.

A idéia é boa. Contudo, vejo problemas na parte operacional. Como tornar isso possível? Fazer com que concessionárias e fabricantes informem quais os veículos que compareceram? Ou fazer o proprietário do veículo apresentar um termo, no licenciamento, de que o veículo passou pelo recall? Nesse caso, os Detrans espalhados pelo Brasil deverão saber quais os veículos e quais os números de chassi envolvidos em todos os recalls. É uma idéia, mas que tem que ser amadurecida.

De qualquer maneira, vale ressaltar que o proprietário que vendeu um veículo chamado para o recall, sem ter atendido à campanha, pode ser responsabilizado pelo comprador do bem em caso de lesão, pessoal ou patrimonial, que venha a ser causada pelo sistema defeituoso não reparado. Não resolve o problema, mas ajuda.

Na realidade, o que devemos ter em mente é que, além de objeto de paixão e desejo para uns e meio de transporte para outros, o automóvel é um bem que pode ferir e matar quando não usado corretamente. E, para usá-lo corretamente, é necessário que ele esteja dentro das especificações — seja do fabricante, seja as exigidas pelas normas em vigor. E não custa nada cumpri-las.

A perda de tempo em levar o carro não causa impacto tão severo assim quanto o de uma lesão — ou até uma vida perdida — em função da falta da troca de uma peça de segurança

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Data de publicação: 9/12/08

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