Geladeira na garagem

A etiquetagem de veículos pelo consumo de combustível é
medida interessante, mas carece de esclarecimentos

por Gino Brasil

Há certo tempo, percebo que os carros estão cada vez mais semelhantes aos eletrodomésticos. Isso ocorre por diversos fatores, desde a construção em massa, com soluções de engenharia que visam somente ao transporte de pessoas, chegando à forma como são comercializados. Evidente que isso não atinge todos os carros que estão no mercado, mas é válido para a maioria.

Se essa comparação em princípio pode parecer negativa para os entusiastas, também tem seu lado positivo. E um desses fatores positivos chega agora com a introdução do Programa Brasileiro de Eficiência e Etiquetagem Veicular. Criado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial, o Inmetro, em conjunto com a associação de fabricantes de veículos instalados no Brasil, o programa entra em vigor em abril e qualifica os veículos disponíveis no mercado em uma escala criada em função do consumo de combustível, medido em ciclo urbano e rodoviário.

Para tanto, será usada a antiga norma NBR 7024 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), um ciclo padronizado que simula as condições de rodagem na cidade e na estrada para obtenção de valores de consumo. Para que a norma funcione a contento, o Inmetro criou uma graduação de A a E e dividiu os carros em oito categorias: subcompacto, compacto, médio, grande, esportivo, fora-de-estrada, comercial leve e comercial derivado de veículo de passageiro.

Com isso, pretende-se criar uma referência ao consumidor acerca do consumo de combustível do veículo que ele pretende adquirir, para evitar surpresas desagradáveis ao futuro proprietário. Surpresas que, aliás, acabam sendo constantes basicamente por dois motivos. Ou o fabricante simplesmente não informa o consumo do veículo ou, quando o faz, adota critérios que podem variar de acordo com sua origem. Por exemplo, fabricantes europeus seguem normas européias e fabricantes asiáticos adotam outra norma de aferição, embora, juntamente com a americana, sejam parecidas. E há quem anuncie, para veículos importados, o consumo obtido no exterior com gasolina sem álcool, que permite quilometragem por litro em média 10% maior que com nosso combustível alcoolizado.

Com a nova legislação será adotado um parâmetro de medição de consumo de qualquer veículo, produzido aqui ou importado, que esteja disponível no mercado nacional.

Mera referência
Entretanto, é necessário deixar bem claro ao consumidor que o valor a ser apresentado na etiqueta será mera referência, nunca o retrato fiel do consumo do veículo nas condições em que será usado. Isso ocorre porque o ciclo utilizado para a aferição do consumo é um ciclo padrão que reproduz, em laboratório, uma condição pré-determinada de rodagem — não uma condição do mundo real. Isso quer dizer que, como sempre ocorreu, deverá haver discrepância entre os valores informados e os obtidos pelo proprietário.

De todo modo, a intenção de criar um parâmetro único e de deixar à mostra os resultados dos testes, ainda que feitos em condições longe das ideais, deve ser vista com bons olhos, já que se cria uma referência ao consumidor preocupado com o consumo de combustível de seu futuro veículo. Além disso, a segregação conforme o tipo de veículo permite que a qualificação seja feita de maneira mais justa. Todavia, acredito que o maior desafio dessa norma será esclarecer ao público que os números ali apresentados, que definem a classificação recebida pelo veículo, são uma mera referência e não o consumo efetivamente a ser apresentado pelo veículo.

Diante disso, é compreensível a apreensão que os fabricantes têm diante de uma medida como essa, pois não serão raros os casos de consumidor reclamar ao fabricante que o veículo não chega nem perto dos valores fornecidos. Se isso já acontece com certa freqüência atualmente, em que as informações de consumo são divulgadas de forma mais comedida, o que dirá quando houver a ampla informação e a qualificação do veículo pelo consumo.

Além disso, a orientação do público é fundamental para que a norma e todo o programa de etiquetagem dos veículos não sejam desacreditados rapidamente. O público, ao entender que aquela informação não condiz com o que efetivamente ocorre, pode não dar o devido crédito à proposta. O que seria lamentável, pois, se bem empregada, a idéia pode estimular as vendas de automóveis mais econômicos e levar a indústria a trabalhar melhor esse importante aspecto, que influencia também na emissão de dióxido de carbono (CO2), gás com efeito sobre a aquecimento ambiental.

Nossa esperança é de que a norma seja aplicada com sucesso e que o Inmetro, em conjunto com os fabricantes, exponha claramente o intuito da medida e os detalhes de obtenção dos valores apresentados na etiqueta. É importante orientar, de forma clara e precisa, o que efetivamente representa o valor anunciado para que essa não seja mais uma norma efêmera, que trazem apenas mais trabalho aos órgãos de defesa do consumidor.

A orientação do público é fundamental para que a norma e todo o programa não sejam desacreditados rapidamente, o que seria lamentável

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Data de publicação: 11/11/08

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