Persona non grata

Após um ano da edição da resolução do Contran que obriga os
rastreadores, a Anfavea pede a reconsideração da medida

por Gino Brasil

Em julho do ano passado o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou a Resolução nº 245, que obrigava todos os novos carros, fabricados no Brasil ou mesmo importados, a ser equipados com rastreador via satélite a partir de agosto de 2009. À época, comentamos a edição dessa norma e abrimos o questionamento sobre a real necessidade do equipamento. E mais: questionamos se o custo da instalação de tal sistema seria algo compensador para o consumidor, uma vez que a habilitação do rastreamento deveria ser feita pelo proprietário do automóvel depois de sua aquisição, o que ainda implicaria um custo mensal para a operação e manutenção do sistema.
 
Diversas opiniões e questões controversas a respeito foram levantadas por nossos leitores, chegando-se ao questionamento da viabilidade técnica da instalação. Por último, mas não menos importante, houve dúvida sobre a real necessidade desse equipamento que visa, única e exclusivamente, a recuperar veículos roubados ou furtados.

Até agora impressionava o silêncio dos fabricantes, que não emitiam nenhum tipo de manifestação, nem favorável, nem contrária, à obrigação que estaria por vir. No entanto, por meio da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – Anfavea, os fabricantes informaram que a instalação em toda a frota seria impossível de ser respeitada, já que, conforme a alegação da entidade, o prazo para a adequação técnica e instalação do equipamento seria muito curto.

Tendo isso em vista, os fabricantes pleiteiam junto ao Contran que modifique os prazos e as condições para o cumprimento da obrigatoriedade. A sugestão da Anfavea é que a partir de agosto do próximo ano, a primeira data prevista, os rastreadores sejam instalados em 20% dos automóveis produzidos, atingindo primeiro os carros de maior preço. Em seguida, em janeiro de 2010, o percentual atingiria 40% dos veículos produzidos, com a porcentagem subindo gradualmente até atingir a plenitude da produção em agosto seguinte. Importante notar que, embora o pleito tenha usado o vocábulo produção, o que se pretende, de fato, é abranger os carros produzidos e também importados nos períodos.

Com esse pleito, os fabricantes de automóveis ganham um prazo interessante no cumprimento dessa obrigação, além de conseguir identificar possíveis problemas e transtornos que a obrigatoriedade pode trazer. E, com essa amostra de 20% dos automóveis de maior valor trazendo o equipamento, será possível testar sua aceitação. Isso porque se, porventura, os proprietários dos 20% dos automóveis de maior valor não habilitarem em massa o sistema, cria-se o argumento de que a obrigatoriedade é ineficaz e inócua, pois, embora obrigados a adquirir indiretamente o equipamento, eles não fariam uso do sistema. E o índice de rejeição poderia ser ainda maior nos carros com valor inferior, já que há custo para a utilização do rastreamento.

Complexidade e custo
Com argumentos como esse, se ganha força no combate a essa medida que traz poucos e discutíveis benefícios. É importante lembrar que a adoção de um sistema de rastreamento não é a mesma coisa que instalar um alarme em um carro: a complexidade de instalação em uma linha de montagem é muito maior que a do outro equipamento, pois o rastreador interfere diretamente em diversos componentes e sistemas do veículo, que precisam ser testados e validados com essa nova interferência eletrônica.

Além disso, o alarme não representa custo para o proprietário após a compra do veículo, ao passo que a habilitação do sistema de rastreamento segue em direção oposta, ao necessitar de serviço de uma terceira parte para que seja funcional.

Não se pode esquecer que a Volkswagen, algum tempo atrás, com o intuito de baixar o preço do seguro de seus carros (que estava impactando diretamente em suas vendas), equipou diversos modelos de sua linha com o rastreador de série, cabendo ao proprietário a decisão de ativá-lo ou não. A medida foi um fracasso e obrigou o fabricante alemão a retirar o equipamento. Pior ainda foi para a empresa parceira da VW nesse projeto, que amargurou grande prejuízo. E não foi por falta de tentativa de emplacar o rastreador que o sucesso não veio, já que, além de não trazer custo adicional, a VW chegou a oferecer o primeiro ano de funcionamento de graça.

Desta maneira, deve-se analisar com muito cuidado essa obrigatoriedade, que pode representar um ônus desnecessário e inútil para os consumidores em geral.  Se nem o diesel com menor teor de enxofre, uma medida interessante e de grande e evidente apelo ecológico, foi possível introduzir no prazo estipulado pelas autoridades de trânsito, o que dizer da obrigatoriedade da instalação do rastreador?

A adoção de um sistema de rastreamento não é a mesma coisa que instalar um alarme: ele interfere diretamente em diversos componentes e sistemas do veículo, que precisam ser testados e validados com essa nova interferência eletrônica.

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Data de publicação: 28/10/08

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