A crise econômica e o automóvel

Mudando de assunto, desta vez a coluna analisa o impacto
da crise mundial na indústria automobilística e no Brasil

por Gino Brasil

As notícias nas últimas semanas só falam de um assunto: a economia e, por extensão, a crise que se instaura no globo. Justamente por isso, vou me permitir sair um pouco da esfera jurídica e adentrar na da economia nesta edição.

A crise que se instalou no mundo inteiro ocorreu em função de uma coisa: falta de crédito. O dinheiro que faz toda a máquina econômica girar desapareceu. As causas, como todos sabemos, advêm da concessão de crédito de maneira desenfreada por diversos bancos, que agora descobriram que seus devedores não têm como saldá-lo.

Isso não é noticia nova. O que está assustando mais são as proporções que essa crise está tomando. Não me lembro de ter vivenciado um pânico econômico como esse — e não é para menos, pois diversos bancos já foram à bancarrota e só não ocorreram mais quebras em função da intervenção dos governos das nações em que esses bancos estão instalados.

Trazendo o assunto para nosso mundo automobilístico, o que mais assustou foi a notícia de que a General Motors poderia ir à falência. Acho que nunca poderia imaginar que escutaria uma notícia dessas. O gigante americano, criado há exatos 100 anos, passa hoje pelo pior momento de sua história. É incrível imaginar que um dia a GM estaria nessa situação.

Fato semelhante ocorre com os demais fabricantes americanos. A Chrysler tem um histórico um pouco mais conturbado, mas a Ford e a GM sempre se mostraram com grande fôlego. Aliás, a história das duas se confunde e ambas servem de exemplo para as escolas de administração, como formas antagônicas de modelos de negócios que deram certo.

A GM se notabilizou pela descentralização de suas operações, em um modelo em que as diversas divisões ficam sob o guarda-chuva da corporação, cada uma delas atuando com autonomia e plenitude. Esse modelo desenhado no começo do século passado atingiu sua plenitude com a administração da empresa por Alfred Sloan Jr., que proporcionou à GM um dinamismo ainda maior e permitiu que ela decolasse e se tornasse a maior empresa do mundo por muitas décadas. Já a Ford optou pelo caminho oposto: Henry Ford centralizava em uma única empresa o controle de tudo o que ocorria.

As discussões sobre qual modelo é melhor são infindáveis. Arrisco a dizer que o da General Motors tende a ser um pouco mais eficaz, pois proporcionou crescimento maior da empresa. Alguns de seus princípios podem ser vistos atualmente na administração dos mais variados tipos de companhias. Isso, contudo, pouco vale nesse instante. Ambas as empresas estão em sérios problemas financeiros, que já as acompanham há bom tempo, mas que, com essa crise no crédito mundial, pioraram drasticamente.

Em maus lençóis
As informações sobre a real situação da Ford são um pouco mais escassas que as notícias sobre a GM, mas se sabe que ambas estão em maus lençóis. A GM cogita até de vender o imponente prédio em Detroit, o Renaissance Center, onde fica sua sede. O problema está em arrumar comprador, pois pelo que consta ninguém tem dinheiro hoje.

Na realidade, quem tem dinheiro é a Toyota. Acredito que somente ela teria verba suficiente para isso, mas ver os americanos vendendo para os japoneses o prédio da sede da GM é algo que a população e o governo dificilmente deixarão acontecer. Isso causaria um impacto psicológico ímpar em todos — positivo para os asiáticos e negativo, mas muito negativo, para os americanos. E abalos de confiança em mercados importantes é que não se pode mais ter.

Se tivermos mais abalos de confiança e um fato como esse ocorrer, a situação mundial fica ainda mais complicada, com sérios reflexos para o Brasil. Aliás, a General Motors do Brasil vem anunciando que a crise não é tão séria assim e, para segurar a demanda, abaixou a taxa de juros de financiamento de parte de sua linha. Recursos para isso devem vir de seu caixa, que deve ter engordado bastante nos últimos anos de bonança, ou mesmo de um fundo que tenha sido criado no passado para situações como essa. Difícil saber.

O que importa é que o momento é delicado, mas pode trazer bons frutos. As vendas certamente cairão e isso fará com que o consumidor tenha mais descontos e facilidades para comprar um automóvel. Além disso, o consumidor pode aproveitar a situação para ficar mais crítico e exigir produtos de melhor qualidade, em sintonia com os vendidos nos países em que as matrizes dos fabricantes estão estabelecidas.

A situação traz impacto também para o governo dos estados da federação, que estavam bem animados com a possibilidade de aumentar a alíquota de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nas operações envolvendo automóveis, assunto esse que está em discussão no Confaz — Conselho de Política Fazendária — desde agosto.

A crise é séria e está trazendo um impacto estrondoso no mundo inteiro. Mas ela também pode trazer benefício para nós brasileiros, pois é em época de crise que se fazem as maiores mudanças.

A GM cogita até de vender o imponente prédio em Detroit, o Renaissance Center, onde fica sua sede. O problema está em arrumar comprador, pois pelo que consta ninguém tem dinheiro hoje.

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Data de publicação: 14/10/08

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