Garçom, desce mais uma!

Estudo aponta alarmante ingestão de álcool ao
volante no Brasil: já são 290 mil motoristas por dia

por Gino Brasil

Preocupado, revoltado e perto de perder as esperanças: estes foram meus sentimentos quando li a notícia, recentemente divulgada, de que 290 mil pessoas dirigem alcoolizadas diariamente pelas ruas e estradas de nosso país. Confesso que quando li pela primeira vez pensei ter lido errado. Depois que reli, ainda achei que não seria possível aquele número. Só podia haver algum erro. Foi quando li a notícia inteira e a explicação sobre como foi feito, e por quem, o estudo que chegou a essa triste conclusão.

O estudo nomeado de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), elaborado pelo Ministério da Saúde, chegou a esse resultado após efetuar uma pesquisa nas principais cidades e capitais do País. Esse estudo baseou-se no número de motoristas existentes nos registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a porcentagem de pessoas que reconheceram assumir o volante após a ingestão de quatro a cinco doses de bebida alcoólica — quantidade suficiente para causar a alcoolemia, estado em que já se manifestam alterações no sistema nervoso, nos reflexos e na visão.

A primeira conclusão a que o estudo chega é de que o consumo de álcool aumentou entre os motoristas brasileiros. Na primeira pesquisa, realizada há dois anos, 16,6% dos entrevistados assumiram que consumiam bebidas alcoólicas dentro do padrão da pesquisa, de quatro doses para mulheres e cinco para os homens. Em 2007 essa porcentagem aumentou para 17,5% dos entrevistados, considerando a média de todo o país. A cidade de São Paulo registrou consumo de bebidas alcoólicas por 13,4% das 2.000 pessoas entrevistadas, o Distrito Federal 18,6% e São Luís impressionantes 23%.

Das pessoas que admitiram consumir de quatro a cinco doses de bebida alcoólica, a ingestão considerada abusiva de álcool foi três vezes maior entre as pessoas do sexo masculino, atingindo 27,2%. As mulheres respondem por 9,3% dos entrevistados, sendo que a maior freqüência de pessoas que têm o hábito de beber e dirigir foi encontrada em Palmas, no Tocantins, e a menor freqüência na cidade do Rio de Janeiro.

O estudo ainda mostrou que, conforme pesquisa realizada nos Estados Unidos, de 40% a 50% dos acidentes de trânsito estão relacionados a bebidas alcoólicas. Pesquisa realizada em quatro cidades brasileiras em 2003 mostrou resultados muito semelhantes, comprovando que a ingestão de álcool por motoristas é um mal que tem de ser duramente combatido.

Esses números poderiam ser muito piores, pois certamente há pessoas que ingerem bebida alcoólica em quantidade acima da permitida, mas não admitiram que o fazem. Isso de forma alguma inviabiliza o estudo: só o torna mais alarmante, pois os números descritos podem ser muito maiores e mais preocupantes.

As razões
Pela análise dos dados colhidos no estudo, percebemos que houve um aumento no consumo de álcool pelos motoristas brasileiros, o que nos faz refletir sobre os motivos que permitiram tal incremento. Diversos podem ser os fatores, mas alguns deles não podem ser deixados de lado de maneira nenhuma.

O primeiro é a falta de educação e de consciência do motorista, ou seja, a falta de percepção de que seu estado ébrio pode causar muitos danos a si mesmo e a terceiros. Isso tem, sem dúvida, relação com a falta de fiscalização e de punição que aflige o Brasil em diversos âmbitos. O bêbado tem a sensação, quando não a certeza, de que nada acontecerá e de que, se acontecer, a punição será pequena ou poderá ser contornada. São raros os casos em que a Justiça consegue colher provas e atuar com a presteza e força que os textos legais têm.

Já presenciei fatos dessa natureza. No fim do ano passado, meu irmão sofreu um acidente em que o motorista que o atingiu estava embriagado. Ele teve seu carro praticamente destruído e o causador de todo o transtorno, além de bêbado, ainda tentou fugir. A polícia foi acionada e, quando solicitamos que fosse feito o exame de corpo de delito para nos certificarmos do estado daquele motorista, o próprio policial disse que seria inócuo tal procedimento. Segundo o agente da lei, levaria tanto tempo para ser medida a quantidade de álcool em seu sangue, que o álcool já teria sido eliminado do corpo. Embora o policial também tenha percebido as condições do motorista, nada pôde fazer.

Esse seria um típico caso para utilização do bafômetro. Mas quem disse que a policia o carrega em suas viaturas? Há ainda a questão de que o cidadão pode se negar a soprar o equipamento, sob o pretexto de que a constituição lhe garante o direito de não produzir provas que possam incriminá-lo. Ninguém ainda pacificou o assunto e, enquanto isso, irresponsáveis continuam a pôr vidas em risco.

Como temos dito nesta e em outras colunas do Best Cars, hoje não há mais efetiva fiscalização nas vias. Não há rondas e policiais de trânsito: a fiscalização passou a ser eletrônica. Flagram-se motoristas em excesso de velocidade, desrespeitando o rodízio — no caso da capital paulista — ou furando semáforos fechados e pronto: aos olhos das autoridades, parece que a fiscalização foi suficiente. Não foi.

A fiscalização eletrônica não percebe se o motorista está dirigindo embriagado, se pratica a direção perigosa ou se coloca em risco a vida dos demais integrantes do trânsito. Ela apenas registra que o individuo passou naquele ponto especifico acima da velocidade permitida ou que cruzou o semáforo quando não podia. Eu, que sou um otimista, fico pensando como estará a situação daqui a 10 anos. Enquanto não poderemos passar de 80 km/h, poderá estar na pista ao lado um motorista completamente bêbado, pois a câmera fotográfica do radar não vai flagrar a situação desse motorista.

Como sempre falamos aqui: enquanto não houver uma formação sólida dos motoristas, juntamente com fiscalização eficaz e feita por agentes competentes e conhecedores da norma, a situação não mudará para melhor. Enquanto isso, o Brasil bate mais e mais recordes de mortos e feridos nas vias e estradas.

Parece que os garçons não terão mesmo descanso.

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Data de publicação: 8/4/08

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