Mocinho e bandido

Os carros de serviço são vítimas e vilões no trânsito
assim que ligam as sirenes e luzes de emergência

por Gino Brasil

O trânsito das grandes cidades continua uma balbúrdia, e parece que soluções para ele estão cada vez mais distantes. Desde que comentei sobre abusos do estacionamento em fila dupla, na última edição da coluna, passei a notar outra questão que reflete bem como são os brasileiros imbuídos do espírito de Gérson, de querer levar vantagem em tudo. Isso acontece também com os carros de socorro.

Nas metrópoles, em congestionamentos, o que mais se vê são espertos que entram atrás dos carros de emergência, para se aproveitarem do corredor que estes abrem em sua nobre tarefa. Nessa hora se misturam os motoboys e alguns carros e seus motoristas Gérsons. Isso é um grande absurdo, pois coloca em risco não só o próprio “espertinho”, como todos aqueles que estão a seu redor. Existem diversas situações no trânsito que nos obrigam a dar a passagem ao carro de socorro e, logo em seguida, voltar à posição normal de tráfego, sob pena de cometer uma infração ou mesmo causar um acidente. Mas esse retorno muitas vezes fica impossibilitada pelo motorista aproveitador, que não tem senso de cidadania e de postura no trânsito.

A atitude de seguir o carro de emergência é irresponsável e absurda, tanto que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) a considera uma infração grave e prevê penalidade específica de multa, nos termos do artigo 190. Só que a prática não é combatida por uma razão muito simples: falta fiscalização do amplo rol de deveres do motorista e condutor de veículos.

Como as autoridades de trânsito só parecem preocupadas em multar e arrecadar sem ter trabalho, é como se só existissem três ou quatro tipos de infração de trânsito: excesso de velocidade, falar ao celular, trafegar com placa proibida no horário do rodízio — no caso da capital paulista — e avançar o sinal vermelho. Enquanto isso, as grandes cidades, notadamente São Paulo, registram recordes e mais recordes de lentidão. Quanto desse caos no trânsito se deve a motoristas que desrespeitam as normas e o bom senso?

Mas o problema não está somente nos que se aproveitam dos corredores abertos por carros de serviço: algumas vezes a questão está nos próprios motoristas dos veículos de emergência. É difícil avaliar quando esses condutores usam indevidamente sua prerrogativa de abrir o trânsito e fluir com maior desenvoltura. Em razão de sua necessidade de auxiliar a sociedade, partimos do pressuposto de que inexiste o uso indevido, de que eles sempre têm esse direito. Entretanto, algumas vezes fica nítido que há alguma coisa errada. Eu mesmo presenciei um caso nesta segunda-feira.

Ao sair do escritório, por volta das oito horas da noite, reparei que havia uma ambulância logo atrás de mim. Ela trafegava normalmente e acompanhava o fluxo à mesma velocidade que eu. Nada indicava que estaria em serviço ou prestando algum socorro. Ao chegarmos a um cruzamento com uma avenida em que todos são obrigados a virar à direita, porém, a ambulância simplesmente ligou a sirene e fez a conversão à esquerda, entrando na outra faixa da avenida e desligando o equipamento em seguida. Um total absurdo.

Absurdo porque, além de se utilizar indevidamente do equipamento luminoso — que deve ser usado somente em casos de emergência e quando o veículo está em serviço, como determina a Resolução n° 268, de 15 de fevereiro de 2008 —, esse motorista ainda fez uma conversão proibida nos termos do artigo 207 do CTB.

É evidente que o motorista poderia ter recebido um chamado urgente pelo rádio e, por essa razão, precisou acionar as luzes para atender ao chamado. Se fosse isso, ele deveria manter as luzes ligadas, assim como o aviso sonoro, como determina o CTB. Mas não foi o que ocorreu, pois logo que a conversão foi feita as luzes e a sirene foram desligadas.

E mais: não seria necessário fazer a conversão proibida, colocando em risco os demais motoristas que tinham trânsito livre na faixa em que ele entrou, pois o local não é um cruzamento em cruz, mas em "T". Há uma avenida e a rua por onde trafegávamos termina nessa avenida. Como existe local de retorno a poucos metros de onde a conversão foi feita, a conversão proibida não se justifica de maneira nenhuma. Foi um completo descaso com as normas.

Essas infrações encontram explicação no mesmo fato: a falta de educação e preparo de muitos motoristas, até mesmo os de carros de serviço e de socorro. O aprendizado de regras para que o trânsito seja mais pacífico e flua com mais eficiência é deixado de lado e, como não existe fiscalização com o intuito de educar, o resultado é visto em acidentes e congestionamentos.

Do jeito que está a situação, se não houver atitudes rápidas e eficientes e uma mudança na mentalidade de todos os que estão no trânsito — sejam os motoristas ou as autoridades —, será cada vez mais difícil chegarmos a uma solução para esse problema.

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Data de publicação: 25/3/08

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