Ensino reprovado

Situações do cotidiano mostram que os motoristas
precisam de formação melhor e mais ampla

por Gino Brasil

Um acontecimento corriqueiro do trânsito brasileiro me ativou a memória e, mais que isso, me fez refletir sobre o atual estado em que se encontra o ensino dos motoristas. Há alguns dias presenciei um acidente de conseqüências menores, restritas aos bens materiais, mas que poderia perfeitamente ter sido evitado.

Tudo aconteceu durante a manhã de um dia que havia começado com muita chuva. As ruas ainda estavam molhadas e os carros trafegavam devagar, como em toda manhã nas grandes cidades. Sempre faço o mesmo trajeto, de minha casa para o escritório, e passo por um local que serve de alça de acesso a uma grande avenida. Ocorre que pouco antes desse local há um cruzamento de muito movimento, que exige um semáforo para coordenar o trânsito. O acesso a esse cruzamento é feito em curva de amplo raio e boa visibilidade.

Nesse dia eu estava mais à frente, aguardando o sinal abrir, quando escutei o som de pneus travando no asfalto molhado. Imediatamente olhei pelo retrovisor para ver se não havia algum carro vindo em minha direção. Entretanto, vi um carro com as rodas dianteiras travadas, completamente esterçadas para o lado de dentro da curva, seguindo reto em direção a um poste. O resultado não podia ser diferente. O carro bateu nele.

Isso me fez lembrar um episódio que ocorreu comigo há alguns anos. Estava voltando da casa de meus pais e quem dirigia era minha namorada na época. Ela sempre me surpreendeu pela habilidade ao volante, muito superior à média dos motoristas como um todo, mas, por não se interessar por carros ou direção, nunca se informou além do que os Centros de Formação de Condutores ensinam.

O cenário do dia era muito parecido, com a diferença de que estávamos no período da tarde. Havia chovido durante toda a manhã e as ruas e estradas ainda estavam molhadas. Estávamos descendo a serra que dá acesso ao condomínio onde meus pais moravam à época, a uma velocidade compatível com o local e com as condições da pista. Um pouco antes de chegarmos a uma lombada, havia uma curva, também de raio longo e boa visibilidade. Ali ela começou a frear para passar na lombada quando as rodas dianteiras travaram. Ela começou a virar o volante para o lado interno da curva, porém sem resposta do veículo, pois as rodas estavam bloqueadas.

Comecei a falar para ela soltar o freio, só que ela insistia em manter o pedal pressionado e a virar ainda mais o volante. Evidente que o carro continuava a ir reto. Fui mais enérgico ao lhe dizer para soltar o freio, gritando para que ela o fizesse. Com os freios soltos, o carro voltou a sua trajetória e ela conseguiu parar sem causar um acidente. O carro chegou a sair da pista e invadir a grama do acostamento, mas tudo ficou somente no susto.

As lições
Esses dois episódios têm muito em comum. Primeiro pelas condições de pista praticamente idênticas, segundo porque as reações dos motoristas foram quase iguais. Isso nos faz refletir e buscar as razões pelas quais os dois motoristas as tiveram. Só uma resposta me vem à cabeça: despreparo.

Sem dúvida o acidente relatado anteriormente poderia ter sido evitado — como ocorreu na situação com minha namorada — caso o motorista do primeiro relato soubesse que, se ele soltasse o pedal de freio em vez de mantê-lo pressionado, o carro faria a curva. Isso porque um pneu só consegue produzir a força lateral — a chamada força de curva, que possibilita o carro ser comandado em trajetória — enquanto estiver girando.

Esse é um dos atrativos do sistema antitravamento (ABS): o motorista contar com controle direcional enquanto o veículo está sendo freado, pois o ABS evita que as rodas travem, mesmo que seja aplicada toda a força possível sobre o pedal. Para que o acidente que presenciei fosse evitado, seria necessário que o motorista fosse orientado a reagir soltando o freio naquele instante, em vez de mantê-lo pressionado. Ou seja, ele precisaria de orientação para evitar bater no poste.

Com isso, fica fácil concluir que temos um sistema de ensino de motoristas falho e com diversas lacunas em seu currículo. Isso faz com que tenhamos condutores que sabem fazer somente o básico, não havendo nenhum tipo de instrução sobre como agir em situações de emergência ou, ainda, como evitar acidentes e colisões, por mais simples que sejam.

Justamente por isso, o currículo utilizado pelos Centros de Formação de Condutores deveria passar por uma revisão, ser atualizados e incluir instruções de como os motoristas devem reagir para sair de situações complicadas. O ideal seria haver aulas práticas com simulações, que poderiam ser ministradas durante o período em que o motorista obtém sua autorização de direção como fator de aprovação para obter a carteira definitiva.

Compreendo que tal alternativa ainda está muito longe de ocorrer, em virtude dos mais variados problemas que vão desde o custo até o logístico — onde faríamos essas simulações? Entretanto, nada impede que nos currículos atuais sejam incluídos os mandamentos teóricos dos procedimentos de emergência. Esse tipo de instrução pode ser passado a qualquer pessoa, com maior ou menor habilidade ao volante.

A pretensão aqui não é transformar todos os motoristas em pilotos de competição, mas oferecer as condições mínimas para que saiam de situações de emergência ilesos, seja material ou pessoalmente. O que não se pode é continuar a exigir que o futuro motorista decore somente as placas de trânsito e saiba estacionar ao longo do meio-fio.

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Data de publicação: 20/11/07

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