Acertar a mira

Muito se fala sobre a emissão de gases nocivos, mas as
autoridades podem estar com percepção distorcida do vilão

por Gino Brasil

Há algum tempo observamos uma comoção generalizada sobre a emissão de gases nocivos na atmosfera. Num primeiro momento, a principal preocupação era o aspecto de toxicidade, de danos à saúde dos seres vivos. Passados alguns anos, o argumento passou a ser o efeito estufa que pode trazer sérias conseqüências desastrosas ao clima, o temido aquecimento global, causado pela emissão de dióxido de carbono (CO2), o chamado gás carbônico.

Ao mesmo tempo, outro efeito gerado pela mobilidade causa preocupação: o lançamento de material particulado pelos motores a diesel, capaz de se alojar nos pulmões e ser um agente causador de câncer. Para tudo isso já existe solução a curto prazo e a indústria está se movimentando de forma acelerada nessa direção.

Mas nada se compara à questão da emissão dos gases que levam ao efeito estufa, entre eles o já citado CO2 e o metano (CH4), este um produto do esterco dos animais — inclusive de sua flatulência —, em especial o do gado bovino. O problema tomou grande força após a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, e mais ainda depois do lançamento do documentário Uma verdade inconveniente, produzido pelo ex-vice-presidente americano Albert Arnold "Al" Gore. Como diz o jornalista Fernando Calmon, criou-se a "histeria carbônica". Tudo agora é seqüestrar (no sentido de retirar, claro) carbono da atmosfera pelo plantio desenfreado de árvores e plantas. É a "indústria do carbono" firme e forte.

Todos os segmentos da sociedade mundial elegeram um vilão para a grande emissão de dióxido de carbono na atmosfera: o carro. De meio de transporte e máquina que nos fascina, nos transporta e torna tudo e todos mais acessíveis, o carro virou o grande vilão, capaz de levar a Terra a um grande aquecimento. Ninguém lembrou que as indústrias, em maior ou menor grau, também contribuem com a emissão de poluentes, por exemplo. Aliás, poucos sabem que apenas 25% da emissão total de CO2 são causados pela mobilidade, ficando o restante para moradia e indústria. Ou que, desses 25%, apenas 10% cabem ao automóvel, sendo os 15% restantes distribuídos entre os demais modais de transporte.

Como não poderia deixar de ser, a onda histérica chegou ao Brasil. E rapidamente os carros foram crucificados e taxados como os principais responsáveis pela poluição da atmosfera. Acontece que, como em toda histeria e toda generalização, alguns fatores importantes foram deixados de lado para se formalizar uma acusação sólida, substanciada. Há diversos atores contribuindo para a poluição, mas que não estão recebendo a devida atenção. E isso ocorre pelos mais variados motivos.

Pequenas vilãs
Um deles é a emissão de poluentes pelas motocicletas. Para se ter uma idéia de como devemos prestar atenção aos — aparentemente inofensivos — veículos de duas rodas, a frota nacional hoje é de 6,3 milhões de unidades, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes (Sindipeças), enquanto a frota de carros e de comerciais leves está perto de 28 milhões de veículos.

Ocorre que uma moto emite, em média, o equivalente a 2,3 gramas de monóxido de carbono (CO) por quilômetro percorrido, ao passo que um automóvel a gasolina emite em média 0,33 grama de CO para a mesma distâncias. Isso mesmo: a moto emite quase 600% a mais, diferença brutal. Com isso, mesmo frente à diferença de quantidade de veículos em cada uma das frotas, as motos emitem muito mais que os automóveis.

Segundo dados do Cetesb, as motos são responsáveis pela emissão de 17% de todo o monóxido de carbono da região metropolitana de São Paulo. Ao contrário do CO2, um gás inofensivo mas que contribui para o efeito estufa, o CO é altamente tóxico e não é preciso muita concentração para levar o ser humano à morte.

Antes de acharem que estou crucificando os veículos de duas rodas, é necessário analisar os motivos de tamanha diferença. A principal razão é o fato de que as autoridades simplesmente ignoraram, até pouco tempo, que as motos também precisam de regulamentação neste campo. E isso é confirmado pelas fábricas de motos.

Atualmente as motos importadas e as de cilindrada acima de 250 cm³ seguem as determinações do Euro III, programa de controle de emissões de poluentes equivalente ao Programa de Controle da Poluição do Ar por Motocicletas (Promot) que temos no Brasil. Ocorre que nosso mercado é dominado por motos de até 150 cm³, cuja obrigação de controle de emissões só entrará em vigor em 2009, na terceira fase do programa.

Isso quer dizer que, embora exista um programa de controle de emissões, ele é praticamente ineficaz, pois atinge de maneira muito sutil a grande massa de motocicletas hoje em circulação. O mais interessante é que as fábricas possuem meios e tecnologia para isso, mas não a usam porque não são obrigadas, pois aumentaria o custo de produção e, claro, do produto final.

A principal culpa, se é que ela existe, de tamanha discrepância entre os níveis de emissões de motos e carros está nas autoridades de trânsito, que não atentaram para o tamanho do mercado de motos e para a principal faixa de produtos que é comercializada. O curioso é que a percepção da maioria da população é de que as motos poluem menos que os carros, talvez por serem menores em tamanho e cilindrada. Isso causa tamanha distorção que, no último Dia Mundial sem Carro (22 de setembro), muitas pessoas acabaram saindo de moto. Ou seja, o tiro sai pela culatra e demonstra que estão mirando no vilão errado.

Todo esse cenário nos faz formular questões como, por exemplo: qual a razão de as motos não terem sido incluídas no programa de controle de emissões instituído há 21 anos para os carros? Ou ainda, por que tamanha demora na instituição de um programa desses, específico para os veículos de duas rodas? E por que demora tanto para ele atingir a grande massa do mercado de motos, se as fábricas já detêm a tecnologia para que esses motores trabalhem com menores emissões?

O vilão nessa história pode estar errado. Não que os carros e comerciais leves nada poluam, ou ainda que as motos sejam as únicas culpadas. Mas é importante mostrar que existe uma grande distorção no tratamento que esses meios de transporte recebem, aos quais não é dada a devida atenção pelas autoridades.

O ponto de toda a questão é a preservação do meio ambiente e, da maneira que as autoridades vêm tratando o assunto, as atitudes ocorrem somente de um lado — claro, do mais visível. É necessário visualizar o objetivo que se pretende atingir e utilizar todo e qualquer meio para que o problema seja solucionado, de maneira eficaz e, mais importante, uniforme. Do contrário, fica a história do cobertor curto, pois no momento em que cobrimos os pés, deixamos de fora a cabeça, e o problema continua.

É preciso acertar a mira.

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Data de publicação: 23/10/07

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