Extintor, um peso morto

É equipamento de utilidade duvidosa, mas obrigatório,
pelo que devemos atentar para sua manutenção

por Gino Brasil

O Conselho Nacional de Trânsito (Contran), órgão responsável pela elaboração, atualização e publicação das normas de trânsito em geral, publicou a Resolução nº 223, de 9 de fevereiro de 2007, alterando a Resolução nº 157, de 22 de abril de 2004, a respeito dos extintores de incêndio que equipam os veículos em circulação no Brasil.

A Resolução nº 157/04 tinha como finalidade fixar as especificações para os extintores, um equipamento obrigatório nos veículos automotores, nos termos do artigo 105 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). A resolução estabeleceu que, além dos extintores de classe de incêndio B (líquidos inflamáveis) e C (equipamento elétrico) que vinham sendo usados, seria obrigatório a partir de janeiro de 2005 a capacidade de apagar incêndios de classe A (tecidos e plásticos).

A norma era clara, logo no primeiro parágrafo, ao determinar que nenhum veículo automotor pode sair de fábrica, ser licenciado e transitar em vias abertas à circulação sem estar equipado com extintor de incêndio, do tipo e capacidade determinados pela norma legal e instalados na parte dianteira do habitáculo ao alcance do condutor. Em seguida, a resolução determinava o tipo de extintor que deveria equipar os veículos automotores, dependendo de seu tipo, capacidade e aplicação.

Juntamente com essa determinação, informava a validade mínima que o extintor deve ter — algo que devemos saber com exatidão para evitar sermos ludibriados, em postos de gasolina e outros estabelecimentos que vendem o equipamento. Essa oferta foi extensa durante um bom tempo no país inteiro, a ponto de me oferecerem a inspeção e a troca do extintor de um carro zero-quilômetro que eu acabara de tirar da concessionária. Para se ter uma idéia do absurdo, o carro nem placas tinha ainda.

A questão da validade é muito importante, pois ela se divide em duas partes: a validade do componente químico que extingue o fogo e a do cilindro. Entretanto, a resolução era quase omissa nesse sentido, informando no artigo 4º apenas que a durabilidade mínima, a validade do teste hidrostático (do cilindro) e as características de manutenção e massa dos extintores serão as constantes no rótulo do equipamento.

Essa definição e a maneira como ela foi colocada na resolução tornaram-se letra morta, uma vez que, logo em seguida, a norma acabou por definir o período de vencimento do extintor. O prazo de durabilidade mínima e a validade do teste hidrostático devem ser de cinco anos da data da fabricação. Mas a questão é um pouco mais complicada: o extintor deve também obedecer a outros critérios de validade, como o indicador de pressão não estar na faixa vermelha, o lacre estar íntegro e a aparência geral externa do extintor estar em boas condições. Só que os critérios de validade mudaram.

Carros fabricados até dezembro de 2004 vinham com extintor de classe de incêndio BC. A validade da carga e do cilindro era de três anos. Isso quer dizer que um carro de setembro de 2004 só terá de trocar o extintor agora, no corrente mês de setembro. Se continuar com o mesmo tipo BC, a validade é de apenas um ano. Entretanto, a partir de janeiro de 2010 seu proprietário terá de comprar um extintor ABC — mesmo que o BC, válido por um ano quanto à carga combinado com o limite de garantia do cilindro, pudesse ir teoricamente até dezembro de 2010.

À medida que o tipo BC for tendo de ser recarregado, o consumidor pode optar pelo ABC, com validade da carga e do extintor de cinco anos. Mas não há possibilidade de recarga ao fim deste período, em que é preciso comprar um extintor novo (com mais cinco anos de validade, não apenas um ano como era). Na prática, entretanto, a compra deve ser à base de troca, como sempre foi. Depois do teste hidrostático — no fabricante deste ou em empresa de recarga —, se aprovado, o extintor poderá ser comercializado para uso por mais cinco anos.

Carros produzidos de janeiro de 2005 em diante já saíram com o tipo ABC. Isso quer dizer que o proprietário de um automóvel mais recente só precisará pensar em extintor em fevereiro de 2010. Qualquer tentativa de venda de extintor antes disso é golpe. É recomendável ficar atento à data de fabricação do extintor, que consta dele no rótulo apropriado, pois essa data prevalece sobre a de produção do carro.

Diante disso, temos as regras para manter o extintor dentro da lei, evitando gastos desnecessários com a manutenção desse equipamento ou que se fique sujeito a ter o carro retido para regularização, além de constituir infração grave (cinco pontos e R$ 127,69 de multa).

A necessidade
A grande questão a respeito de extintores é sobre a real necessidade desse equipamento nos veículos. A eficácia do equipamento é extremamente duvidosa, por diversos motivos.

O primeiro deles é a capacidade volumétrica de um extintor de automóvel para efetivamente apagar o incêndio em um veículo. A quantidade de pó químico constante nos cilindros parece insuficiente frente à necessidade de extinção de um incêndio que se alastre pelo carro inteiro, por exemplo.

Outra séria questão é a forma como utilizá-lo. Nós, motoristas habilitados, nunca tivemos treinamento para lidar com situações de emergência que envolvam fogo. São poucos os motoristas que sabem, por exemplo, que nunca se deve abrir o capô de um veículo de uma vez caso haja princípio de incêndio no cofre do motor. Com a corrente de ar que esse ambiente receberá, o fogo ficará mais intenso — pois o ar é comburente — e, pior ainda, virá em direção à pessoa que está abrindo o capô. Assim, na tentativa de minimizar os prejuízos do fogo, os danos podem ser muito maiores à pessoa.

No caso de um incêndio, a melhor atitude a ser tomada é acionar o corpo de bombeiros, que tem soldados qualificados e treinados a combater o fogo. Eles conhecem suas nuances e suas particularidades, sendo-lhes possível extinguir o fogo de maneira mais eficaz e com menos danos do que uma pessoa sem o treinamento específico. Tanto é assim que a legislação de trânsito da grande maioria dos países não traz como item obrigatório o extintor, por uma razão simples: ele não é necessário.

Nos carros importados que rodam no Brasil, o extintor causa transtornos para os importadores, que têm que encontrar um lugar dentro do habitáculo para fixar o equipamento, seguindo as determinações da resolução em questão. Não raro encontramos os extintores presos à base do banco do motorista, em posição que o incomoda ao entrar e sair.

O extintor é mesmo inconveniente e desnecessário. E, para aqueles que ainda acreditam em sua utilidade, vale lembrar que sua operação requer treinamento específico, pois o fogo e traiçoeiro e imprevisível.

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Data de publicação: 11/9/07

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