Data de publicação: 21/7/12

Álcool, a missão

Qual o efetivo benefício do combustível vegetal, considerando o que
se lança de poluentes na atmosfera nos processos de produção?

por Roberto Agresti

Qual o percentual de motoristas brasileiros que abastece seus carros sem ligar para a questão ambiental, optando por usar álcool ou gasolina em carros flexíveis tendo em vista apenas o critério econômico?

Qual é o efetivo benefício de se usar o combustível vegetal em substituição ao fóssil, não apenas considerando a qualidade dos gases que saem do escapamento, mas também o que cada um desses combustíveis lança de poluentes na atmosfera em seus processos de produção?

Qual a vantagem em termos sociais (considerando emprego, a questão agrária, preço dos alimentos, etc.) de plantar cana de açúcar para produção de combustível em detrimento ao uso da área para plantio de alimento?

Essas são apenas algumas das questões para as quais não há — ou eu, ao menos, não tenho — respostas claras, e que envolvem a aposta brasileira em oferecer a seus cidadãos uma opção à gasolina para suprir a crescente necessidade de combustível para uso em veículos.

A população cresce, a frota idem, e suponho que também a área plantada e a produção de álcool. Ou não? Se com relação à taxa de natalidade e de desova de veículos não há dúvida, o preço do álcool na bomba não parece confirmar a suposição de que haja mais área plantada para uma maior oferta do líquido "sustentável", e as aspas se dão com relação à segunda dúvida elencada no começo do texto: será mesmo tão sustentável usar álcool se pensarmos no que sua produção causa de danos ao meio ambiente?

E quais são esses danos? Quanto de agrotóxico exige o plantio da cana de açúcar? Onde vai parar o que não é aproveitado no processo de obtenção do álcool? Não parece estúpido usar caminhões movidos a óleo diesel para tirar a cana do campo, levá-la até a usina e, depois, usar também o diesel para fazer o álcool chegar até as distribuidoras e postos?

Nesse tema, imagino, é muito mais fácil obter respostas passionais, como se falássemos de times de futebol, do que ter acesso a efetivos estudos técnicos, que comprovem por A mais B que cobrir de cana terras férteis para colher combustível para carros é menos impactante ao meio ambiente do que furar um poço e extrair petróleo, e somar a isso os problemas (ambientais, econômicos, políticos) decorrentes do processo de refino.

Cidadãos de nível mediano, com curso superior, habitantes da maior metrópole da América Latina e muito interessados no tema, como eu, deveriam ter as respostas às questões acima bem decupadas, mastigadas, com clareza matemática, mas... não as temos. Das duas, uma: ou somos umas bestas, ou quem deveria nos dar a informação impecável não faz seu dever a contento.

Eu, como você, resisto a me considerar uma besta. Eu, como você, gostaria de pensar que quem detém o poder, e por consequência exerce uma explícita tutela sobre minha pessoa e o restante dos cidadãos — o governo —, quando estabelece políticas públicas fortes e impactantes, como essa de nos dar álcool para abastecer nossos carros, deveria nos dar, em paralelo, a plena informação sobre o processo todo. Qual é o conceito, qual a vantagem, como ganhamos e por que seremos melhores sendo o único país do mundo onde há essa opção no posto?

Estoque regulatório
Todavia, como disse, há dúvidas demais. E não só isso, o que já seria um grande problema. Ruim mesmo não são as dúvidas, mas as certezas: uma delas é constatar que o governo — o atual e todos os anteriores, desde que se começou a bancar a cruzada pelo álcool — não estabeleceu algo óbvio até mesmo para cidadãos medianos como nós, o tal "estoque regulatório". Nada mais, nada menos que reservatórios de álcool cá e lá, espalhados por todo o Brasil, destinados a garantir a estabilidade do preço do precioso líquido.

Tal medida não nasce do nada, já que desde o começo se sabe (ou não?) que na entressafra faltará o produto, e sempre que há escassez de algo o preço sobe. Isso para não falar de dispositivos legais para coibir tentações — leia-se a natural opção dos donos de usina que, no lugar de usar a cana para fazer álcool, a usam para fazer açúcar e vendê-lo ao exterior, o que em certos momentos é mais lucrativo.

Atenção: não sou contra o livre comércio, o capitalismo. Todavia, a questão que se coloca é simples: se o BNDES banca com meu dinheiro uma usina para produção de álcool, se empresta dinheiro nosso a multinacionais para investimento na tecnologia de motores flexíveis em combustível, o lucro do açúcar bem vendido para chineses, norte-americanos e russos deveria em parte compensar o encarecimento do álcool aqui, certo?

Planejamento, sabemos, não é o forte de latinos como nós. Somos bons nas artes em geral, sorrimos e cantamos como poucos e vivemos de maneira despreocupada, confiando que o dia nascerá belo e feliz, sempre. É claro que temos motivo para tal, já que nosso proverbial bom clima nos faz colher várias safras de qualquer coisa que se plante em nosso fértil solo, várias vezes por ano.

Já quem não conta com tais benesses típicas dos trópicos deve botar a cabeça para pensar e elaborar um plano para sobreviver nos seis meses ou mais de frio intenso com neve. Essa pode ser uma das raízes da cultura do tal "planejamento" que, talvez, falte a quem tem boas e luminosas ideias, como nos dotar de alternativa energética ao não renovável petróleo.

Olhando os números correrem rápido na bomba de combustível que joga álcool do Toyota Corolla recém-avaliado por nossa equipe durante um mês, pensei em tudo isso que escrevi acima — e me senti órfão dessas muitas respostas. O que me consola, bestamente, é imaginar que nesse orfanato, onde ninguém nos diz o que precisamos e gostaríamos de saber, não estou sozinho. Estamos todos nós.

Desde o começo se sabe (ou não?) que na entressafra faltará o produto, e sempre que há escassez de algo o preço sobe
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