O que lhe serve

Diante de infinitas opções, o comprador de automóveis deve avaliar,
sobretudo, se o modelo atende bem ao propósito que será dado

por Roberto Agresti

Meu amigo José Albano, fotógrafo cearense dos mais talentosos e famosos, lançou seu livro sábado passado na Bienal do Livro de São Paulo. Nele — cujo título é Manual do Viajante Solitário —, Zé Albano, como é comumente chamado pelos amigos, conta como viajou Brasil afora com sua Honda 125 ML durante mais de 20 anos, e por "Brasil afora" entenda-se o amplo sentido: do Ceará ao Rio Grande do Sul, e não apenas uma vez.

Zé é um gênio da imagem, mas não só da imagem. É do conceito também, mente privilegiada que determinou rumos precisos, mas não fixos e rígidos, a uma existência de 66 brilhantes e estimulantes anos. É e será exemplo para muitos. Seu livro é o que o título diz, pois ensina como qualquer um de nós poderá percorrer o Brasil (e o planeta) com o mínimo pois, convenhamos, uma moto de 125 cm³ fabricada em 1983, se não é o mínimo em termos de veículo de transporte, está próxima disso.

Mas Zé faz ver que o mínimo também é o máximo. Troca comodidade por simplicidade, luxo por essencialidade, complexidade por facilidade.

Eu, como editor de uma revista de motos, há mais de 20 anos recebo, ciclicamente, a mesma pergunta: qual é a melhor moto? Devolvo sempre a mesma resposta: para fazer o quê?

Motos, assim como carros, são múltiplas, variadas. Do pioneiro carro a conquistar massas e efetivamente popularizar o automóvel como bem de consumo, o Ford Modelo T, até hoje, o leque de variações sobre o mesmo tema cresce a cada ano que passa. Tem carro para viajar, para cidade, para parecer rico, para se mostrar esperto, para andar só em estrada e alguns são para onde estrada não existe. Tem para todo bico.

Quando comecei a reparar em carros, e isso aconteceu bem cedinho na minha vida, o Brasil estava no princípio de sua indústria automobilística. Basicamente tínhamos o Fusca e a Kombi, o Aero-Willys, a Rural e o Jeep, o Simca, o DKW e os picapes Ford e Chevrolet Brasil. Ou seja, dava para contar nos dedos das mãos o que havia à disposição. Mais tarde surgiram o Galaxie, o Corcel, o Opala e, de uma hora para outra, ganhamos uma quantidade de opções antes inimaginável.

Atualmente, ao abrir o caderno de veículos de um jornal de domingo ou ao navegar por um site de compra e venda de automóveis, sabemos que opção é o que não falta. Há carro para todo bolso e espírito, tanto feitos no Brasil quanto em países nas redondezas para os quais o imposto de importação é mais sereno, e também os importados de longe, taxados "alla grande", mas que nem por isso se apartam da briga pelo cliente.

Há quase uma sensação de viver no Primeiro Mundo aqui, e o "quase" fica por conta dos preços dos carros, que — por obra de impostos brutais e, acredito, por uma margem de lucro acima da média dos fabricantes — nos fazem entre os terráqueos que pagam mais caro para ter veículos de qualquer espécie.

Miríade de opções
Nesse caro mas fértil mercado de opções veiculares, lembrando Zé Albano e sua ML e minha clássica resposta "para fazer o quê?", vejo com alegria — e com uma certa dose de preocupação — essa proliferação de modelos de carros e motos imaginando o que se passa na mente de um consumidor não aficionado como eu, cuja profissão é escrever sobre veículos, ou você, que se me lê aqui é porque se interessa pelo assunto.

Imagine que pobre coitado é um desinteressado por carros nas garras dessa miríade de opções! Diante de tanta oferta, qual o critério que um leigo adotará para escolher seu veículo? Palpite do vizinho, do amigo, do cunhado? A propaganda, o preço, o estilo? A leitura de testes e avaliações?

Certamente, há de tudo isso um pouco.

Minha mãe sempre diz que o mundo é belo porque é variado, mas me angustia ver gente se frustrando na primeira esquina por ter escolhido mal esse objeto, meio de transporte que é símbolo de nossa sociedade, sinal inequívoco de nossa civilização sobre rodas. E maior do que minha angústia pela frustração alheia com as más escolhas é a certeza que a maioria que escolhe mal não se dá conta disso, convivendo com um incômodo sem perceber qual é.

Já escrevi na coluna sobre as madames e seus utilitários esporte nas grandes cidades, inadequados pelo tamanho, pela falta de maneabilidade e pela incoerência de carregar tanta massa para transportar tão poucas almas. Lembro-me de um trecho do livro de Zé Albano que fala que um carro pesa uma tonelada no mínimo, mas não é capaz de levar carga equivalente a seu peso, enquanto que sua Honda ML, que pesa pouco mais de 100 kg, leva até mais que isso se for o caso: FATO!

Certamente ter opção, variedade de escolha, é uma das melhores bênçãos do mundo capitalista. Mas há de se ter critério. Há de se pensar qual será a utilização que daremos ao veículo pretendido e gastar algum tempinho para verificar se ele é, de fato, o que necessitamos.

Apesar de admirar o conceito da Bauhaus, escola alemã de projeto que preconizava a ascendência da função sobre a forma, valorizando a racionalidade em arte, utensílios e arquitetura, entendo que um carro ou uma moto pode e deve conter elementos que não sejam obrigatoriamente práticos ou relacionados com a efetividade de seu uso. No entanto, é fundamental lembrar que é a utilização prática do veículo e não apenas sua aparência que nos fará satisfeitos.

E em todo esse blablablá, cabe repetir a constatação sábia de minha velha mãe sobre a beleza do mundo e de sua variedade, assim como ressaltar mais uma vez a filosofia veicular de Zé Albano, pois o que realmente importa é aquilo que lhe serve. Ou não?

Angustia ver gente se frustrando na primeira esquina por ter escolhido mal esse objeto. E maior é a certeza que a maioria que escolhe mal não se dá conta disso, convivendo com um incômodo sem perceber qual é.

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Data de publicação: 21/8/10

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