Mais um ano, e que ano!

Com muitas perdas, novidades em leis de trânsito e um
último bimestre de amargar, 2008 não deixará muita saudade

por Bob Sharp

Esta é a última Do Banco do Motorista de 2008 e aproveito para falar um pouco do que tivemos esse ano. Parte do meu universo, parte do leitor. Perdi quatro pessoas importantes na minha vida entre janeiro e maio: o jornalista, engenheiro e piloto belga Paul Frère; o jornalista e autor do Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, Eduardo Martins; meu querido tio Paulo Amaral, que me iniciou na arte de dirigir e muito me ensinou acerca das coisas da vida; e o grande amigo e parte da história de nossa indústria automobilística, Jorge Lettry. Cada um, dentro do que fazia ou era, teve grande influência em minha formação ou atividade. Perdê-los e em tão pouco tempo foi bastante duro.

Na questão relacionada ao nome da coluna, tivemos uma das maiores trapalhadas legais, em minha opinião: a "lei seca", em junho. Foi um verdadeiro carnaval, da lei em si à repercussão nos meios de comunicação. A confusão gerada, as blitze em profusão, as pessoas deixando de freqüentar bares e choperias, tudo isso só servindo para tumultuar a vida do cidadão. Nada mais.

Tumulto até no limite para beber, uma vez que se ouvia falar lei seca, álcool zero, e não era exatamente isso. Um decreto do presidente da República estabeleceu no mesmo dia da promulgação da lei que até 0,2 g de álcool por litro de sangue era permitido, ante 0,6g/L autorizado pelo Código de Trânsito Brasileiro até então. Nem no nome da lei se conseguiu a expressão exata...

Ainda há quem, inocentemente, atribua a (pequena) redução de acidentes à lei, como se dois chopes transformassem o mais exímio e pacato motorista num causador de tragédias em potencial. Esquecem que com a "lei seca" começou uma fiscalização nunca vista antes no Brasil. Esta, sim, tirou boa parte dos bêbados do volante. O mais curioso é a lei não ter sido determinante para tais ações e, mais grave, é que elas já poderiam existir há mais de 10 anos, já que havia total rigor a respeito de álcool e direção no novo código de trânsito em vigor desde janeiro de 1998.

Hoje praticamente não se fala mais na lei, apenas uma ou outra notícia de que serão adquiridos mais medidores do ar alveolar, mais conhecidos por bafômetros — e que, de novo, não têm relação alguma com a "lei seca". Pior, passados exatos seis meses de sua entrada em vigor (19/6/08), o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) ainda está por emitir resolução regulamentando toda a delicada questão, o que é inadmissível.

Pouco antes o mundo havia ficado assustado quando, a partir de maio, o preço internacional do petróleo começou sua desvairada escalada, chegando, em julho, a 147 dólares o barril. Os americanos ficaram em pânico com o preço da gasolina em seu país, que chegou a alarmante R$ 1,70 o litro... Mas em outubro/novembro o preço começou a cair e hoje está abaixo de 50 dólares. O fato a lamentar é que alguns poucos ganharam muito dinheiro com esse movimento especulativo, e só na base dos contratos de mercado futuro. Só no papel.

Mundo diferente
Já falei sobre isso há 15 dias: desde novembro estamos vivendo momentos que parecem o pior dos pesadelos. Aconteceu o que ninguém ousaria prever, toda a ordem econômica e financeira mundial virar pelo avesso como virou. As notícias daqui e do mundo mostram um cenário que, francamente, não sei como poderá melhorar e tenho certeza de que ninguém sabe.

Aqui no Brasil as vendas de automóveis deram uma travada que um presidente de fábrica comparou a "um carro a 200 km/h bater contra uma parede indeformável." Parece uma questão simples, as vendas caírem e as fábricas reduzirem a produção, mas não é bem assim. Há toda uma cadeia de fornecimento de matéria-prima e de peças e componentes, em que tudo precisa ser reprogramado e isso leva tempo. É um momento bastante delicado e preocupante porque, sobretudo, pode resultar em demissões de funcionários. Junto vem o receio de comprar e assumir dívidas, complicando ainda mais o quadro. Esses dois meses estão sendo um verdadeiro inferno astral para todo mundo. É como se a forma do planeta tivesse mudado, em que nada do que valia vale mais.

Fatos como a Honda sair do campeonato Mundial de Fórmula 1 e a Suzuki e a Subaru abandonarem o Mundial de Rali parecem mais ficção. Aqui mesmo tivemos uma ausência, mas no Salão do Automóvel, a Audi, fato que se repete agora no Salão de Detroit marcado para o começo de janeiro. Mitsubishi, Suzuki, Land Rover, Rolls-Royce e Ferrari já anunciaram que não vão participar. A Porsche já havia saído este ano.

Muito de ruim aconteceu mesmo nesse ano prestes a acabar. Que leve tudo com ele.

4-cc
Alguns leitores me escreveram comentando a coluna da semana passada e lembraram o péssimo hábito de abreviar cilindros como cc, caso de dizer que um motor é de 4 cc. De fato, vê-se muito isso, como nos anúncios classificados. Costumo dizer que, já que cc é uma forma (hoje em desuso) de expressar centímetros cúbicos (cm³), o carro deve ter motor de aeromodelo... Também constitui um erro a combater tanto quanto 'montadora', 'cilindradas', 'piloto automático' e 'brake light'.

Vamos ficando por aqui. Que cada leitor e seus familiares tenham um Feliz Natal e um Ano-Novo repleto de alegria, saúde e realizações. Voltaremos a nos encontrar no dia 9 de janeiro. Até lá!

As vendas de automóveis deram uma travada que um presidente de fábrica comparou a "um carro a 200 km/h bater contra uma parede indeformável." É como se a forma do planeta tivesse mudado, em que nada do que valia vale mais.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 20/12/08

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