Festival de cilindradas

As mudanças nas alíquotas do IPI produziram uma explosão
do termo "cilindradas" nunca vista na história "deste país"

por Bob Sharp

O governo, acertadamente, anunciou nesta quinta-feira estímulos para manter a economia aquecida. Entre eles, redução das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos, prevista para durar até 31 de março. Só que, em meio ao noticiário que se seguiu, poucas vezes se cometeu tanto o erro de confundir unidade de volume com medida. Carros de tantas cilindradas foi e está sendo lido, ouvido e visto direto.

Costumo me perguntar o que está havendo com a cabeça dos brasileiros, ao errar em questões até simples como essa. O erro vem das mais diversas fontes e até o que o governo escreve é deturpado. É inadmissível que alguém raciocine que um motor tem, digamos, mil cilindradas. O termo está tomando conta do ideário do brasileiro de uma maneira que assusta e periga se tornar permanente.

Não é a primeira vez que falo a respeito disso nesta coluna e tenho certeza de que não será a última. É algo que tem de ser combatido com vigor, algo que ninguém em sã consciência pode deixar passar em brancas nuvens. Não vou desistir enquanto viver ou enquanto os que escrevem, muitos deles responsáveis pela comunicação de massa, não se darem conta desse erro primário.

A coisa toda chega ao ponto de meios de comunicação falarem em "potência 1.0" em vez de cilindrada, complicando ainda mais a informação. É mesmo difícil de entender como é possível se errar numa coisa tão simples.

Cilindrada, palavra aportuguesada do francês cylindrée, é um volume, tanto quanto o de uma lata de refrigerante ou cerveja. Todos nós dizemos lata de 350 mililitros (ml). Duvido que alguém diga "lata de 350 cilindradas". O mililitro é um submúltiplo do litro, sua milésima parte, e por isso 350 ml pode ser escrito 0,350 ou 0,35 litro. É a mesma coisa.

No caso dos motores de combustão com pistão de movimento alternado, que corre dentro de um cilindro, a maneira prática de definir o tamanho dos motores, estabelecida ainda na aurora do automóvel no fim do século 19, foi calcular o volume gerado pelo pistão em seu movimento de um extremo a outro. Geometria elementar, portanto.

No cálculo, há o cilindro de diâmetro conhecido e também sua altura, que corresponde ao curso do pistão. O volume desse cilindro se obtém, primeiro calculando a área do círculo, que é elevar o diâmetro ao quadrado (multiplicá-lo por ele mesmo), multiplicar o resultado por 3,1416 (o número pi) e dividir tudo por quatro. Se o diâmetro for expresso em centímetros, teremos a área do círculo em centímetros quadrados (cm²).

Continuando com nosso cálculo de volume, multiplica-se a área encontrada pelo curso do pistão, seu movimento de um extremo a outro dentro do cilindro. O curso do pistão também é uma medida construtiva, sendo dada pelo virabrequim. Ao usar a medida do curso em centímetros e fazendo a multiplicação de cm² por cm, tem-se cm³ (centímetro cúbico, devendo-se evitar abreviar por cc, que está em desuso). Pronto, está calculado o volume do cilindro ou sua cilindrada, que pode também ser chamada de deslocamento volumétrico. Se o motor tiver mais de um cilindro, multiplica-se essa cilindrada pelo número de cilindros, obtendo-se a cilindrada do motor. Desse modo, qualquer motor de mais de um cilindro tem cilindrada unitária e cilindrada total.

Não pode haver nenhuma dúvida de que se está falando de volume e, exatamente por isso, é imperativo usar unidades de volume para exprimi-lo. Cilindrada não é unidade de volume, mas ele próprio, uma medida.

Aposto minha vida que nenhum leitor concordaria com a afirmação de que "de São Paulo ao Rio de Janeiro percorrem-se 400 distâncias" ou que "do chão ao teto da sala são três alturas". O leitor acharia ambas as afirmações sem sentido. Pois é exatamente o que acontece com alguém que escreve ou diz "motor de 1.000 cilindradas". É inconcebível isso.

Único no mundo
Como no caso de "montadora", o Brasil é o único país em que se escreve essa aberração de dizer que um motor tem tantas cilindradas. O que deu em nós para incorrermos em erros tão primários e ao mesmo tempo tão absurdos?

No começo da década passada eu ajudava o jornalista Fernando Calmon na edição de seu programa de TV sobre Fórmula 1, o Primeira Fila, então exibido pela TV Record. Um dia, no departamento de edição da emissora, vi num dos monitores uma jornalista dizer "500 cilindradas" sobre uma prova de motovelocidade. Quase no mesmo momento encontrei-a e lhe expliquei a questão. Ela disse: "Ah, então é por isso que nos vídeos que recebo da Espanha falavam em 500 centímetros cúbicos!".

Ainda na questão de volume, além do centímetro cúbico há o litro, como vimos no exemplo da lata de 0,350 litro. É a mesma coisa, 1 litro e 1.000 cm³. Por isso, ao escrever pode-se usar o litro para exprimir cilindrada quando se quer simplificar a escrita. É mais fácil escrever 1 litro ou 1 l (também 1 L) do que 1.000 cm³. Desse modo, e resumindo, os escribas podem usar, por exemplo, 1.600 cm³ de cilindrada ou 1,6 litro de cilindrada. Ou que "a cilindrada é de 1.600 cm³", "a cilindrada é de 1,6 litro". Não é tão difícil, é?

Mas há outro problema, menor: usar o ponto para separar a parte inteira da fracionária, numa imitação do sistema inglês de medidas, quando no sistema métrico usa-se a vírgula. É comum, por exemplo, ver 1.6 litro, quando tem de ser — é obrigação de quem escreve — 1,6 litro. Nesse aspecto o editor do Best Cars, Fabrício Samahá, é exigente desde que o site surgiu há 11 anos, com toda razão. Só para o leitor entender, a vírgula é usada no sistema inglês para separação de milhar. Nos Estados Unidos, quando se quer escrever 1.000, escreve-se 1,000. É ao contrário daqui. Acho que o uso do ponto teve origem no Corcel II de 1,6 litro, em 1978, que trazia nas laterais dianteiras o emblema da cilindrada como 1.6. Aí a moda pegou.

Ainda dentro desse pequeno erro que comento, desenvolveu-se no Brasil o hábito de usar a cilindrada em litro como adjetivo, ainda por cima de maneira estranha. Lê-se muito — e pior, ouve-se — "motor 2.0" (dois-ponto-zero), que se subentende ser um motor de 2 litros. Como no resto do mundo, o que cabe é escrever ou dizer "motor de 2 litros" ou adjetivar a expressão escrevendo ou dizendo "motor 2-litros". Há outra mania, desta vez praticada até pelo Fabrício — estamos sempre discutindo isso —, de usar zero após a vírgula, o que é desnecessário de todo. Por exemplo, em "motor de 2,0 litros", quando "motor de 2 litros" é igual.

Enfim, são pequenos vícios que denotam não estarmos atentos ao simples e/ou ao correto. Por exemplo, outro dia recebi uma carta em que a data estava grafada 08 de dezembro de 2.008. Para que o zero à esquerda do 8 e a separação do milhar no ano? Ajuda em quê? E, enquanto escrevo essa coluna, acabo de saber que o Senado americano barrou a ajuda aos fabricantes — claro, estava escrito "montadoras" na notícia do portal Uol. Nem os EUA escaparam: GM, Ford e Chrysler passaram de fabricantes de automóveis a montadoras...

Brincadeira à parte, este assunto de salvar a GM e a Chrysler da falência é mais sério do que se pensa aqui no lado de baixo do equador. É torcer para que sejam mantidas funcionando.

E bem que o título da coluna poderia ter sido Festival de Cilindradas e Montadoras...

Não pode haver nenhuma dúvida de que se está falando de volume e, exatamente por isso, é imperativo usar unidades de volume para exprimi-lo

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 13/12/08

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