Que situação!

Perplexos, estamos assistindo a uma derrocada em tudo o que acreditávamos

por Bob Sharp

Não faz tanto tempo assim. Quando alguém dizia que trabalhava na General Motors isso era um espécie de aval, capaz de colocar a pessoal num pedestal de admiração e em muitos casos até provocar inveja. Hoje, dezembro de 2008, o interlocutor deve pensar, "grande porcaria", para não usar termo chulo. Empresas do porte de uma GM eram como as pirâmides egípcias, algo sólido, eterno, inabalável. De repente, o cenário mudou completamente, um quadro que ainda é difícil de digerir. A GM poder ir à falência soa como pesadelo, e dos piores.

Não é só esse fato, mas tudo o que vem na esteira dele. Desemprego num volume incalculável não apenas no maior fabricante de automóveis do mundo, mas em toda a cadeia de fornecedores e concessionários. E a economia americana indo literalmente para o brejo e produzindo ondas de choque no mundo todo. Como foi possível chegar-se a um ponto desses? Não sou economista, mas uma coisa é certa: toda a economia estava armada com a mesma resistência estrutural de um castelo de cartas. Bastou uma carta sair do lugar e o resultado não preciso falar.

Há mesmo uma espécie de loucura correndo solta. Caso do dólar, por exemplo. É a moeda do país que se encontra numa crise de tamanha proporção que a queda da bolsa de Nova York de 1929 parece café pequeno. Entretanto, no Brasil está-se comprando dólar adoidado, a ponto de ter subido em três ou quatro meses do patamar de R$ 1,60 para R$ 2,50, apenas 56%. Como pode isso? É coisa de náufrago, que para se salvar nada em direção a um bote salva-vidas que ele sabe que está afundando. Qual o sentido desta loucura?

O pior é que o dólar livre, flutuante, quando dispara acabando afetando tudo aqui dentro, o que chama de volta a inflação. Lembra o leitor que, de 1994 para trás, ao receber um cheque corria feito doido para o banco para depositá-lo? Isso é o que não queremos que volte.

Enquanto isso, por estas bandas, a indústria automobilística começa a ter dificuldades. Pode-se imaginar o clima na entrevista coletiva mensal à imprensa dada pela Anfavea (a associação dos fabricantes) nesta quinta-feira, quando o presidente Jackson Schneider anunciou queda próxima a 30% nas vendas em novembro, na comparação com o mês anterior, e de 25% em relação a novembro de 2007. Na produção, resultado ainda mais desastroso: 34,4% menos que outubro e 28,6% pior que novembro do ano passado.

Onde será que isso vai parar? Ninguém sabe. "Parece que o tamanho do mundo mudou", disse Jackson Schneider. O presidente da Anfavea disse que se o ano que vem for igual a 2008, está bom. Admitiu que "foi muito forte a pisada no freio". Desnecessário dizer o quanto tudo isso reflete em toda a cadeia produtiva, da indústria de autopeças e de pneumáticos aos fornecedores de matérias-primas como aço e alumínio.

As previsões para o fechamento do ano mudaram, claro. De 3,06 milhões de vendas no mercado interno, passou a 2,815 milhões. A produção prevista antes era de 3,425 milhões de unidades; agora é de 3,24 milhões. Problemão. As exportações, por força da forte recessão nos mercados mundiais, também deverão cair, dos 14,3 bilhões de dólares para 13,7, superando 2007 em apenas US$ 200 milhões. Aconteceu o que ninguém queria e muito menos esperava. E isso traz problemas de toda ordem.

Os estoques se avolumam rapidamente. De 38 dias em outubro saltaram para 56 em novembro, que fechou o mês com 305.660 unidades estocadas, divididas entre 119.290 na indústria e 186.370 nas concessionárias. São 25 dias numa e 31 noutra. Chega um momento em que é preciso parar de produzir, pois não há espaço para tamanho volume de veículos, e já começaram as paradas por meio de férias coletivas. Felizmente sempre se pára no fim de um ano e começo do próximo — é pouco, mas ajuda.

Outro problema colossal é o mercado de usados que despencou, tanto por menor prazo de financiamento quanto por maior taxa de juros. Schneider foi enfático em dizer que "talvez o fator mais relevante seja o esfriamento da venda de usados", que ele atribui à cautela do consumidor em assumir dívidas. Por que problema colossal? Porque mais da metade das vendas de carros novos está associada à venda de um usado, seja dado como parte do pagamento, seja para ganhar espaço na garagem para guardar o novo. Desta vez a crise pegou para valer.

Crise diferente
Como em toda última coletiva do ano, a Anfavea convida alguém do setor da economia para uma palestra sobre o momento e esse ano, de novo, o economista Raul Velloso iniciou a sessão. Disse ele que esta crise é diferente, pois não se originou de países emergentes — como as crises russa e asiática do fim da década passada —, mas de economias desenvolvidas e que por isso o problema é nosso também, já estamos sendo afetados. Por outro lado, afirmou, com propriedade — e isso é de certa forma um alento —, que o Brasil está muito mais bem-preparado do que outros países emergentes e, importante, muito mais do que antes.

A atual crise, disse, começou há um ano com crise de liquidez e insolvência, que resultou numa crise sistêmica, difícil de controlar. As causas, segundo o economista, foram a supervalorização dos ativos e commodities, juros baixos demais e a bolha imobiliária nos Estados Unidos associada a endividamento exagerado das pessoas.

Antes da crise, EUA e Europa já vinham desacelerando, China um pouco menos, mais ou menos na mesma toada da Rússia e da Índia. O Brasil, entretanto, estava na contramão, crescendo 6%, mais que os 4,5% previstos, segundo Velloso. As conseqüências disso tudo para nós será aumento da inflação e déficit na balança de pagamentos. "Esse mundo de seis anos, que vai de 2002 a 2008, não existe mais, é um novo mundo", concluiu o economista.

Diante desse quadro, o que posso sugerir ao leitor é usar uma ferramenta muito simples: pense no dia seguinte apenas e dedique-se a ele com afinco, trabalhe, seja otimista. Pensar muito adiante, um mês que seja, pira. O resto é torcer para que esse mundo novo volte a girar em velocidade normal, que centenas de milhões de pessoas possam trabalhar e produzir. Com um pouco de sorte — sempre precisamos dela —, poderemos sair dessa terrível situação.

Afirmou o economista — e isso é de certa forma um alento — que o Brasil está muito mais bem-preparado do que outros países emergentes e, importante, muito mais do que antes

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 6/12/08

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