Cabeça foi feita para pensar

Carro flexível em combustível: faltou-nos cabeça para
resolver um assunto tão sério e ao mesmo tempo simples

por Bob Sharp

Eu ia começar a escrever a coluna desta semana quando chegou um e-mail, em meu endereço eletrônico particular, perguntando-me qual seriam a potência e outros dados de um motor 1,6-litro atual se previsto para funcionar com álcool somente. Comecei a responder com um panorama do álcool que acabou resultando numa explanação longa, a ponto de eu julgá-la merecedora de ser compartilhada com os leitores em forma de coluna.

Ante um comentário do missivista, o Proálcool (Programa Nacional do Álcool) não fracassou no fim dos anos 80, mas terminou, em 1988, como era previsto. A falta de álcool que houve no quarto trimestre de 1989 foi localizada e não chegou a dois meses. Tanto que já em 1990 e nos dois anos seguintes as pessoas voltaram a comprar carro a álcool. Os dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram claramente isso.
 
O álcool entrou em declínio por dois motivos. Um, a chegada dos carros com motor de 1,0 litro, iniciada em 1990 com o Uno Mille e seguida por outras marcas de 1992 em diante, em que a indústria automobilística simplesmente se negou a produzir motores a álcool com essa cilindrada. A razão principal era ter de produzir outro cabeçote para chegar a taxas de compressão compatíveis então, 12:1 a 12,5:1. Outro, a queda dos preços internacionais do petróleo, que deixou o álcool, já sem os mecanismos de subsídio do Proálcool, desvantajoso em relação à gasolina. A diferença média de preço chegou a 20% apenas, o que tornava desinteressante o custo por quilômetro rodado do carro a álcool. Na década de 1990, muitos converteram seus carros a álcool para gasolina.
 
O fato é que carro flexível brasileiro foi um grande erro. A solução de poder usar no veículo gasolina ou álcool, puros ou misturados, atende às necessidades de um país que queira mudar a matriz energética por necessidade, seja ela econômica ou estratégica, este segundo caso o dos Estados Unidos. Assim, implementa-se um combustível alternativo e, enquanto este não existir em volume suficiente e/ou não contar com farta rede de distribuição, o carro deve ter capacidade de funcionar com gasolina. É impensável não se poder usar um carro porque lhe falta o combustível.
 
Nos EUA não existe álcool em todos os estados e a rede de postos que oferecem o produto ainda é muito pequena. Dos 170 mil postos daquele país, menos de 2.000 têm álcool, ao contrário do Brasil, onde toda a rede de 35 mil postos tem o produto. Num cenário desses é impensável um carro que funcione com álcool apenas.
 
Caso oposto ao do Brasil, pois temos gasolina refinada de nosso próprio petróleo (não há dependência financeira ou estratégica) e álcool produzido aqui mesmo em total e absoluta abundância. Ou seja, o Brasil é o único país do mundo que não precisaria da solução flex — surgida aqui em 2003, 12 anos depois dos EUA. Portanto, é uma daquelas falácias clássicas a tecnologia flex ser brasileira.
 
O conveniente para o Brasil seria haver novos carros a gasolina e carros a álcool, como era antes. Do mesmo jeito que na Europa, carros a gasolina e carros a diesel — alguém que possua carro a diesel por acaso se preocupa com o fato de só poder usar um combustível?
 
Depois dessa "novela" toda, respondi à pergunta do missivista: um motor atual, previsto para funcionamento apenas a álcool e incorporando toda a tecnologia da indústria automobilística disponível, seria fabuloso em todos os aspectos, em benefício do consumidor. Um 1,6-litro otimizado para o álcool, com taxa de compressão da ordem de 14:1 a 15:1, desenvolveria perto de 130 cv, com torque de pelo menos 12 m.kgf/litro (isso daria perto de 20 m.kgf), e teria um consumo de combustível muito menor que o verificado hoje nos carros flex quando abastecidos com álcool.
 
Poderia, inclusive, haver programação no sistema de gerenciamento do motor para funcionar com gasolina numa emergência, com potência reduzida, só para o proprietário não ficar parado — uma versão do "limp home", a volta para casa capengando dos sistemas de gerenciamento de motores e transmissões atuais. Os carros de hoje dificilmente enguiçam (ou quebram, como se diz em São Paulo).

Álcool errado
O Brasil também errou feio na especificação do álcool combustível — isso lá atrás, em 1976 — ao determinar que ele seria puro e do tipo hidratado. Isso obrigou à adoção do sistema de partida a frio por meio de injeção auxiliar de gasolina e todo o sistema necessário, como reservatório de gasolina (o popular "tanquinho") e sua bomba elétrica. E por conter água, seu poder calorífico é menor, o que não tem graça alguma.
 
Americanos e europeus partiram para uma solução diferente, a do álcool anidro (sem os 7% de água do álcool hidratado, mas só 0,5%) misturado com gasolina a 15%, resultando no que se chamou de E85 (85% de álcool, 15% de gasolina). A partida a frio se dá sem a menor dificuldade até 10 °C negativos. Não é preciso o famigerado "tanquinho", que no caso dos Hondas Fit e Civic levou à esdrúxula solução do reservatório fora do compartimento do motor por questão de espaço, localizado no interior do pára-lama dianteiro direito e envolto por uma carapaça de aço marítimo de 5 mm de espessura, por razão de segurança num acidente.

O leitor dono de carro flex pode experimentar "fazer" seu E85: mistura de 80% de álcool com 20% de gasolina (que já tem 25% de álcool). Por exemplo, 16 litros de álcool e 4 litros de gasolina. A experiência não traz nenhum dano, pois misturas são previstas em todo carro flex, aqui e lá fora (há quem jure que só aqui; durma-se com um barulho desses...).

Fornecedores como a Bosch já desenvolveram uma solução de partida a frio sem injeção de gasolina, que a indústria automobilística ainda está por adotar, mas que certamente tem seu custo — a ser pago por alguém, que não preciso dizer quem.
 
Bem recentemente, num seminário da SAE Brasil em São Paulo, a General Motors e a Renault sugeriram a adoção do E85 no País em vez do atual E100 (nosso álcool sem gasolina). Seria o caminho certo: carros flex importados poderiam rodar aqui sem necessidade de recalibração e os daqui poderiam ser exportados para os países que já dispõem do E85, embora precisassem de calibração para gasolina sem álcool, a exemplo dos Renault com motor Hi-Flex e do Fiat Siena Tetrafuel. Seria bom para todo mundo ou alguém tem dúvida disso?
 
Como se diz, a cabeça não foi feita para enfeitar o pescoço, mas para pensar.

Um 1,6-litro otimizado para o álcool, com taxa de compressão da ordem de 14:1 a 15:1, desenvolveria perto de 130 cv, com torque de 20 m.kgf, e teria um consumo de combustível muito menor

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 29/11/08

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