Ordenhando vaca

Já falei nisso aqui, mas vale a pena voltar ao assunto depois
de um fato novo: como segurar o volante nas curvas

por Bob Sharp

Na coluna Uma questão de habilidade, de 12 de abril deste ano, comentei como motoristas viravam o volante de direção na curva de esquina do hotel onde eu e um grupo de jornalistas nos hospedamos em Turim, na Itália. Eu disse que notei como todos pegavam no volante corretamente, sem movimentá-lo usando o método "ordenha de vaca", que é pegar o volante por dentro do aro, mão espalmada para cima e, pior, cruzando sentidos — mão direita em curva para a esquerda e vice-versa. Esse é um dos piores hábitos que um ou uma motorista pode adquirir. O motivo é simples.

Ao fazer uma curva, o carro segue a trajetória determinada por quem o está dirigindo. Ocorre que essa trajetória pode precisar ser alterada, qualquer que seja o motivo, como desviar de um pedestre afoito ou de outro veículo que entre no caminho. Partindo do princípio de que o volante pode precisar ser movimentado para um lado ou para ou outro a partir da posição em que está durante a curva, ao segurá-lo "ordenhando vaca" não haverá articulação de braço suficiente para isso.

Imagine o leitor uma curva para a esquerda. Na curva, estando a mão direita quase na posição correspondente à parte inferior do volante, virá-lo ainda mais (para desviar) é praticamente impossível. E se for preciso desfazer a curva rapidamente (para o mesmo fim), a mão direita não tem a necessária precisão para fazer realizar esse movimento inverso. É por isso que essa maneira de virar o volante precisa ser evitada ao máximo.

Esse assunto volta e meia vem à baila nas conversas com amigos ou então quando estou de passageiro e vejo alguém virando o volante dessa maneira. Exatamente por isso um amigo, o Felipe Bitu, curioso e atento como só ele, estava numa esquina em São Bernardo do Campo, SP num dia que notou ser de exame de direção pelo número de carros de auto-escola que passavam pelo ponto.

Ele começou a ver que os instrutores, em sua maioria, usavam a técnica da mão espalmada por dentro do aro do volante. Como tinha uma câmera fotográfica à mão, começou a fazer flagrantes de instrutores — só podia ser, pois estavam sozinhos nos carros de aprendizagem — fazendo uma curva à esquerda dirigindo dessa maneira. Ele me enviou as fotos, o que me incentivou a escrever essa revisita à "ordenha de vaca".

Por que ordenhar vaca
O motivo para alguém pegar o volante dessa maneira pode ser o enorme diâmetro dos volantes que existiam até o fim dos anos 50, tanto nos caminhões e ônibus quando nos automóveis. Pode ser que se achasse mais fácil "trazer" o volante com o braço oposto à direção que se queria dar do que avançar pela parte superior do aro com a mão certa, em antecipação ao movimento a ser feito. Mas é só uma hipótese.

O fato é que a "ordenha" se tornou uma espécie de sinônimo de dirigir bem, coisa de quem domina o veículo, que tem prática e experiência. Parece brincadeira, mas é verdade.

Quando tenho a oportunidade de mostrar para um ou uma "ordenhadora" como é mais fácil e muito mais preciso fazer como os italianos de Turim, a pessoa sempre fica meio desconcertada e chega a se atrapalhar no começo, mas depois conclui que é o certo a fazer.

Erro na base
O que é preocupante é ver quem deveria dar o exemplo — não só nesse detalhe, mas em tudo o que se refere a conduzir veículos — não o fazer. Imagine-se, então, como fica todo o elenco da técnica de dirigir. Movimentar corretamente o volante, por si só, é um dos elementos mais importantes do dirigir, pois tem a ver, direta e obviamente, com o dar direção ao veículo.

Talvez o leitor-motorista já tenha se esquecido que, assim que começou a ter aula de direção, tentou "dirigir" o veículo na reta, achando que se não fizesse isso o carro desviaria para um lado, bateria em outro carro ou em alguma outra coisa.

Todo veículo automotor (e até bicicletas) tem incorporada uma geometria de direção destinada a manter as rodas apontadas para frente. A menos que haja algum defeito de geometria ou a via tenha algum caimento ou inclinação lateral, o veículo segue reto sem necessidade de segurar o volante. Tudo o que é necessário é apoiar as mãos (ou uma das mãos, embora o Código de Trânsito proíba) no volante apenas para o caso de ser necessário fazer algum desvio pequeno. Entretanto, o iniciante tenta "dirigir", resultando em pequenos desvios sucessivos.

Grande parte dessa noção errada é dada pelo cinema, por incrível que pareça. Basta comparar nosso dirigir de todo dia com um filme em que aparece alguém dirigindo, estando a câmera voltada para a pessoa: o volante não pára quieto nunca, ao contrário do que fazemos normalmente. É provável que quem manda agir assim é o diretor, para passar a impressão de que o veículo está andando. Em muitos casos chega a ser cômico ver o volante para lá e para cá sem nenhuma necessidade.

Com os aviões dá-se o mesmo. O aluno tentar "pilotar" na reta, no caso procurando manter o vôo reto horizontal pelo manche. Resulta um vôo em que o nariz do aparelho sobe, depois desce, sobe de novo, até o instrutor dar a ordem "largue tudo!". O avião ainda oscila algumas vezes e depois se estabiliza, sem que seja preciso tocar nos comandos.

Com o automóvel, se é importante saber dirigi-lo na reta, imagine-se então nas curvas. Por isso é tão importante saber movimentar o volante corretamente, posicionar as mãos de tal maneira que possa ser girado de modo natural, sem qualquer dificuldade. Esse motivo é mais do que suficiente para instrutores darem o exemplo, e não "ordenharem vaca".

Falando de maneira simples, para esterçar para a esquerda, esta mão primeiro avança contra o movimento que será feito e depois faz girar o volante. A mão direita afrouxa-se no aro do volante e, quando este parar, aperta-o. O ideal é, uma vez atingido o giro de volante necessário, que as duas mãos fiquem entre a horizontal e um ângulo de 45 graus. Desse modo é possível dar mais volante ou diminuir, em caso de necessidade.

No caso de manobra, em que é preciso esterçar mais, repete-se a operação após a mão direita apertar o aro. A mão/braço esquerdo deixam o volante e volta a segurá-lo, precedido de rápido cruzamento de braços. Fica mais fácil entender essa seqüência assistindo a um vídeo; tratarei de fazer isso proximamente.

A propósito, já existe volante "anti-ordenha": é o de cubo fixo dos Citroëns C4 VTR, C4 Pallas e Grand C4 Picasso. Não dá para espalmar a mão direito e puxar o volante: o punho bate na parte que fica parada, o que chega a ser bastante incômodo.

Espero que o leitor que pratica a "ordenha" não fique ofendido e, acima de tudo, que instrutores que leiam esta coluna se conscientizem da importância do ensinar corretamente algo tão simples.

Que fique a ordenha restrita às nossas vaquinhas.

O que é preocupante é ver quem deveria dar o exemplo — não só nesse detalhe, mas em tudo o que se refere a conduzir veículos — não o fazer

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 22/11/08

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