Mais que um desenho animado

Cada vez que vejo Carros, acho-o ainda mais maravilhoso

por Bob Sharp

Nesta quinta-feira cheguei da rua no fim de tarde e sentei-me ao computador para escrever esta coluna. A TV por acaso estava ligada e sintonizada no canal HBO Plus, que exibia o filme-desenho Carros, uma produção Pixar/Disney de 2006 que estreou aqui em 30 de junho daquele ano. Assisti ao filme logo em seguida no cinema e no Natal minha filha me deu o DVD de presente. Assisti-o várias vezes depois disso, é claro.

Mas, quando dei uma espiada na TV e comecei a ver aquelas cenas todas de novo, não resisti e o vi de novo, até o fim. Não me arrependo de ter colocado a diversão antes do dever.

Para mim, que vivi praticamente um quarto de século ao volante de carros de corrida e também apaixonado por automóvel, é, de longe, o melhor filme que já assisti. Digo-o sem ter medo de parecer falso ou irônico. Por acaso — apenas por acaso — é um desenho animado. Mas a produção é tão primorosa que dá para nos abstrairmos que são imagens desenhadas e não tomadas.

O que aprecio de verdade em Carros são os valores humanos que desfilam por nossos olhos mesmo que não haja uma pessoa em todo o filme. Todos os personagens são veículos automotores, de automóveis a vans, passando por empilhadeiras e tratores. A idéia dos produtores em colocar os olhos dos "atores" no pára-brisa e não nos faróis, como seria de esperar, fez toda a diferença. Um decisão brilhante.

Lições como amor puro, respeito, reconhecimento e gratidão recheiam Carros do começo ao fim. O cuidado com todos os detalhes, dos ambientes aos carros, de corrida ou não, dá enorme satisfação, em especial a quem conhece o assunto. A sonoplastia, o som dos vários motores presentes na produção, é de um realismo absoluto. Dos stock cars ao Porsche 911 2002 — que personifica uma mulher, a Sally, uma das mais doces criaturas que já vi em cena.

A história é simples em si mesma. Na final de campeonato da Piston Cup — em paródia à Winston Cup, pois o patrocinador do certame eram os cigarros Winston, hoje sob auspícios da Nextel tanto nos EUA como na nossa stock car — ocorre um empate de três carros, difícil mas não impossível. Para apontar o campeão do ano, organiza-se uma corrida em outro autódromo, bem distante, dali a uma semana.

O personagem principal, um stock car de nome Lightning McQueen, entra no caminhão-transporte (outro personagem, o Mack) para a longa viagem. No meio do caminho, em plena noite numa interestadual, a porta de carga se abre após uma ligeira saída de estrada causada pelo sono — Mack dirigindo com sono é uma cena memorável — e Lightning se vê no meio de lugar nenhum. Sai atrás de Mack mas o perde de vista, ficando perdido. Pega uma estrada secundária qualquer que não conhecia e vai parar numa cidadezinha chamada Radiator Springs (Fontes de Radiador, bem sugestivo).

Lá encontra "pessoas" com quem vai conviver alguns dias e que provocarão mudanças importantes em sua vida. Conhecerá novos valores e em especial o amor — claro, apaixona-se pela Sally e ela por ele. Cria amizade profunda (e recíproca) por um velho e enferrujado guincho, o Mater, e descobre que ali mesmo em Radiator Springs vive um campeão da stock car de 50 anos antes, um Hudson Hornet cupê 1951. Era o Doc Hudson, que vivia em total anonimato esportivo, mas era o juiz de direito da cidade.

A experiência de Doc
A cena em que Lightning descobre o passado de Doc é um dos momentos altos do filme — vou ficar chamando de filme mesmo, não de desenho. E Doc Hudson, ao seu jeito amargurado, gosta do novato Lightning (eram dois carros de corrida, lembre-se) e lhe ensina alguns truques baseado em toda a experiência que tinha: tricampeão da Piston Cup, até que um sério acidente na temporada seguinte o afastou das pistas e depois não conseguiu mais apoio. Ferido em seu orgulho, retirou-se para uma pequena cidade do interior. As cenas dos dois andando juntos num trecho de terra, o som e a mistura rica visível no escapamento do seis-cilindros de válvulas laterais do motor Hudson (verdade), me arrancaram lágrimas, o que não tenho a menor vergonha de contar.

O mais notável era Doc ser dublado por ninguém menos que Paul Newman, o misto de ator de Hollywood e piloto de competição falecido no dia 27 de setembro último, aos 83 anos, após grave doença. Ao rever o filme veio-me a saudade desta grande personalidade.

No romance do stock car e "da" 911, outro momento tocante é quando Sally conta por que deixou Los Angeles e foi parar naquele lugarejo: cansara-se da vida da cidade grande onde era promotora de justiça. Um flashback mostra a cidade ativa anos antes por ser atravessada pela Rota 66, a antológica estrada de 3.600 quilômetros que vai de Chicago a Los Angeles e que hoje é uma rota turística. Depois aparece a construção da interestadual, toda reta, que logo fica coalhada de automóveis, ao mesmo tempo em que é mostrada a condição de abandono de Radiator Springs, com a canção Life is a Highway (a vida é uma estrada) como fundo.

O grand finale é a corrida de desempate para definir o campeão da Piston Cup, prova grande normal, 500 milhas, apenas três carros na pista. Lightning, sem muitos recursos, tinha Mack (seu caminhão) como chefe de equipe, mas quem aparece lá para esse importante papel nas corridas de stock cars? Doc Hudson! Assim que os locutores notam sua presença mandam as câmeras de TV focá-lo e o autódromo todo o ovaciona, flashes espocando, como merecem os grandes heróis. Mais lágrimas desse colunista...

Na corrida, o "vilão" Chick Hicks (outro carro!) apronta mil tanto com Lightning quanto com The King (personificação do grande campeão Richard Petty e seu famoso Plymouth Road Runner nº 43, com aerofólio traseiro elevado). Num dos toques, Lightning sai rodando para o interno da pista e nesse momento se lembra das lições de Doc sobre como controlar derrapagem em alta velocidade, direção contra-esterçada e mantendo potência. Mais lágrimas, claro.

Outra maldade de Chick e um pneu de Lightning fura. Sob bandeira amarela, ele entra no boxe e a troca do pneu é bem rápida, conseguindo voltar ainda à frente do carro-madrinha e não tomar uma volta. Sempre orientado pelo chefe de equipe Doc, Lightning consegue recuperar a liderança e se prepara para vencer, quando o malvado Chick não se conforma em chegar em terceiro e joga The King para fora da pista, que capota espetacularmente após o carro ter decolado (aconteceu realmente numa prova de stock car).

Pelo telão, Lightning vê King destroçado e se lembra da foto do Hudson Hornet, em mesma condição, que viu em Radiator Springs. Justamente essa prova, que era a despedida do King das pistas. Lightning McQueen freia antes da bandeirada da vitória e Chick vence a corrida. Naquele momento ninguém entende nada, até que Lightning manobra e vai até o Plymouth destroçado, se posiciona por detrás e o empurra para a linha de chegada. O King tinha de terminar sua última prova! Que atitude do novato, abrir mão do campeonato para ajudar um colega numa situação desesperadora!

No paddock, um grande patrocinador propõe patrocínio a Lightning, que lhe responde, "Não, obrigado, vou ficar com o pessoal da Rusteeze (líquido antiferrugem) que me patrocinou até aqui, que sempre me apoiou". Que reconhecimento! Que lição de gratidão, algo tão raro hoje! Lágrimas novamente...

Carros é bem mais do que esse breve resumo numa coluna e merece ser visto muitas vezes. Pais devem mostrar esses valores a seus filhos. Será uma contribuição, ainda que pequena, para que nosso mundo seja pouco melhor. Não me arrependo nem um pouco de tê-lo visto nesta quinta em vez de trabalhar, de deixar esta coluna para depois, o editor do Best Cars esperando. Pelo contrário. E os olhos do Hudson Hornet cupê escala 1:43 que meu genro me deu, que fica na estante de frente para mim, parecem estar sorrindo mais...

As cenas de Doc e Lightning andando juntos num trecho de terra, o som e a mistura rica visível no escapamento do seis-cilindros de válvulas laterais do motor Hudson (verdade), me arrancaram lágrimas

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 15/11/08

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