Masculino e feminino

Não, nada a ver com o "sou masculino e feminino" do Pepeu
Gomes, mas fica a dúvida: carro é masculino ou feminino?

por Bob Sharp

Há muitos anos, 30 pelo menos, meu irmão tinha uma namorada que só se referia ao Puma conversível dele como "a Puma". Por mais que ele tentasse lhe explicar que era "o Puma", não teve jeito. Enquanto o namoro durou era "a Puma" e fim de papo.

Hoje a coisa está uma zorra total quando se trata de gênero dos automóveis. A ponto de se ler na revista Quatro Rodas absurdos como "um Porsche e uma Ferrari" na mesma frase. O que será que levou muitos, por gerações, a alternar o gênero dos carros, ora masculino, ora feminino? Há uma lenda urbana que diz que carro é masculino, sendo o Ferrari exceção à regra: "a" Ferrari. E toca redatores e jornalistas a perpetuar essa lenda e os leitores — muitos em fase de aprendizagem do mundo do automóvel — a aprender errado, o que é lamentável sob todos os pontos de vista.

No feminino, só quando se tratar da fábrica, da empresa ou da equipe, no caso de corrida de automóvel. "A Renault produz o R-27 de Fórmula 1", por exemplo. Sem nenhuma dúvida, em nosso idioma carro é masculino.

O mesmo em espanhol e alemão. Nossos vizinhos não vacilam: é "el Ferrari" mesmo. Ou "el Alfa Romeo". Não tem escapatória. Já no país abençoado de verdade por Deus, a Alemanha — por se poder andar nas auto-estradas a quanto se bem entenda —, o artigo que precede o nome do carro é "Der", "o". Der Golf, Der Porsche. Já na França carro é mesmo feminino. "La voiture" não deixa dúvida de que os franceses consideram o automóvel como sendo do gênero feminino. Franceses e, como se sabe, italianos também: "la macchina", "la vettura". O que levou os brasileiros a titubear nessa questão, não sei. Talvez influência dos imigrantes europeus de várias nacionalidades que aqui foram chegando desde o fim do século 18.

O caso do carretera
Trabalhei como redator em um livro a ser lançado no próximo dia 17, Entre ases e reis, que é a história do piloto Bird Clemente contada por ele mesmo. Logo me deparei com o sério problema de gênero quando ouvi o Bird dizer "a carretera". Carretera é um tipo de carro de corrida criado na Argentina, em que sedãs americanos bem do fim dos anos 30 e início dos 40 recebiam diversas modificações no motor e na suspensão para aumentar o desempenho. Com a proximidade com o Brasil, o conceito do carretera atravessou a fronteira e chegou ao Rio Grande do Sul, onde a modalidade se popularizou e se tornou símbolo do pujante automobilismo daquele estado.

"Carretera" é estrada em espanhol e a categoria se chamava Turismo Carretera, pois as corridas de que participavam eram provas de velocidade pura nas estradas, a exemplo da Mille Miglia, na Itália; da Targa Florio, na Sicília; e da Carrera Panamericana, no México. Só que na Argentina se diz "um coche de turismo carretera" ou, em forma reduzida, "un carretera". Por isso, quando escrevi o livro não tive dúvida: "um carretera". Para quê... Foram muitas discussões com o Bird e com o revisor da editora até se convencerem de que carro, em português, é masculino.

Esse negócio de gênero em português, aliás, só complica. Os assessores de imprensa das fábricas que o digam. Ao iniciar um comunicado já surge o problema: "Prezado jornalista...". Como grande parte ou mesmo metade dessa classe profissional é formada por mulheres, começa a confusão. Aí costuma-se usar aquele recurso que considero péssimo: "Prezado (a) jornalista". Feio, não? Nos meus tempos de assessor de imprensa — General Motors, Embraer e Stuttgart, o importador Porsche — eu sempre escrevia "Prezado jornalista, prezada jornalista", quando não dois comunicados, um para homens, outro para mulheres. Não se pode tratá-las por um reles "a" entre parênteses.

Nada disso acontece em inglês, pois adjetivo não tem gênero: é "Dear journalist" e pronto. "Dear" (querido, caro) serve tanto para homem quanto para mulher. Mas, como nada é perfeito, navio é feminino na língua de Shakespeare: "Isn't she beautiful?", ela não é linda? Um navio...

Muitos assistiram ao filme-desenho Carros, da Pixar/Disney Productions, de 2006, em que todos os personagens eram carros ou caminhões. Não houve quem não se encantasse com a Sally, uma doçura de "pessoa", personificada por um Porsche 911 ano 2002 azul claro. Havia outras "mulheres" no desenho, como a Flo, a dona do Café V8, um carro-conceito de 1950 com suas linhas extravagantes e fantasiosas, bem da época. No caso do filme era impossível fugir da dualidade de gênero dos automóveis, já que era essencial haver "homens" e "mulheres" no "elenco" para tornar a história verossímil e interessante. Mas no mundo real, em nosso idioma, carro é, necessariamente, masculino, por mais que o ouvido diga não. Será que fica um pouco estranho dizer, por exemplo, "o Alfa"? Concordo que fica, mas a regra não pode ser desrespeitada e mudada para "a Alfa".

Nessa questão toda constitui fator complicador o truque, a regra genérica quando se ensina português a estrangeiros de língua inglesa, habituados com a ausência de gênero nos adjetivos: se a palavra termina em "o", usa-se artigo "o"; se por "a", artigo "a". A faca, o lenço, a banana e assim por diante. Mas toda língua tem armadilhas e foi por isso que ao ler, há muitos anos, matéria na revistaTime sobre a criminalidade no Rio de Janeiro, vi a expressão "Mão Branco", apelido de conhecido bandido na época. O correspondente da revista americana no Rio de Janeiro provavelmente escreveu certo, "Mão Branca", mas o revisor lá nos EUA deve ter aplicado o outro truque, o de concordância de gêneros do substantivo e do adjetivo em função da letra final das palavras...

Carro é masculino, portanto. Mas, e no caso das peruas — ou camionetas, caminhonetes, station wagons, conforme a região do país? Aí tem de ser no feminino mesmo, fazendo concordância com o tipo de carroceria: a Variant, a Grand Tour, a Palio Weekend. É importante lembrar que o VW Brasília não é perua, mas um hatchback. Portanto, "o", "um" Brasília.

Esperemos que no ano que vem se escute ou leia por aí — como sempre foi aqui no Best Cars — que "Felipe Massa, com seu Ferrari, fez o melhor tempo, superando Lewis Hamilton no McLaren-Mercedes. Rubens Barrichello, com seu Honda, surpreendeu com o quinto tempo".

O Pepeu Gomes deve mesmo ficar totalmente fora desta parada.

"Carretera" é estrada em espanhol e a categoria se chamava Turismo Carretera. Só que na Argentina se diz "un carretera". Por isso, quando escrevi o livro não tive dúvida.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 8/11/08

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