País sem preparo

O Brasil não se preparou para o automóvel, mesmo tendo
iniciado sua indústria automobilística já há 52 anos

por Bob Sharp

Não é preciso ser perito em trânsito para constatar que não nos preparamos para a popularização do transporte individual, o que explica o caos que vai se formando nas principais cidades brasileiras, capitais ou não. Ainda compensaria essa falta de preparação viária caso as cabeças pensantes tivessem implementado, ainda no começo dos anos 50, ou pelo menos nos 60, nosso sistema metroviário. As grandes metrópoles já davam sinal de que ele seria necessário.

Nem bondes foram poupados da "caça" ao transporte sobre trilhos e hoje pertencem à história, exceção à linha que serve o bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, e outra entre Pindamonhangaba (sede do Best Cars) e a cidade serrana de Campos do Jordão, ambas em São Paulo. Se houver outras, gostaria de saber.

Quem conhece uma cidade de país avançado, como Paris, sabe que lá a quantidade de estacionamentos subterrâneos é enorme, apesar de terem uma malha de metrô de respeito, quase 400 quilômetros de linhas. Quantos desses estacionamentos temos aqui? Contam-se nos dedos. Esse e outros exemplos mostram que não soubemos nos preparar.

Assusta também a falta de uma real engenharia de tráfego, exercida por especialistas de notório saber. Ainda nesta quinta-feira, na esquina aqui de casa, no bairro paulistano de Moema, um motociclista se acidentou, felizmente sem gravidade. Minha rua, de mão única de direção, após um cruzamento passa a mão dupla. O rapaz vinha nesse trecho de mão dupla e não percebeu que, após o cruzamento, a via em que ele vinha virava contramão. Quando um carro que vinha pela minha rua se preparava para dobrar à esquerda, deu-se a colisão.

Faz anos que noto essa inversão repentina de mão se disseminando. Não faz sentido algum estar-se numa rua e, de repente, não ser mais possível seguir em frente e ter de dobrar para um dos lados. É antinatural. Nos meus primeiros vinte anos de motorista (habilitei-me em 1960) isso não existia. Não dá mesmo para saber onde essa turma que cuida do trânsito está com a cabeça. Em princípio, só se deve dobrar (em nosso caso para o lado direito) ao encontrar uma rotatória, a menos que se trate de uma curva, é lógico. Ter de fazê-lo só porque seguir em frente "virou" contramão de modo algum contribui para a fluidez. Pelo contrário, só serve para prejudicá-la.

Por falar em rotatória, poucas zorras são maiores que as rotatórias no Brasil. Já falei nisso em outra ocasião, mas vale repetir. A regra universal das rotatórias é a preferência de quem está dentro dela, circulando. Os que vão entrar nela têm de dar preferência, havendo inclusive sinalização regulamentar na entrada, o triângulo de fundo branco e bordas vermelhas. Não é ordem de parada, apenas de dar preferência. Pois aqui mesmo, em São Paulo, na grande rotatória que é a Praça Campo de Bagatelle — próximo ao Salão de Exposições do Anhembi, onde se realizam mostras como o Salão do Automóvel —, num ponto da rotatória quem está rodando é que deve dar preferência. Absurdo.

Sem contar a praga das minirrotatórias, que em estreitas ruas de bairro invertem uma regra básica expressa no Código de Trânsito: quem se aproxima de um cruzamento tem preferência de passagem sobre outro veículo que venha da esquerda. Na minirrotatória essa preferência é ao contrário, é de quem vem pela esquerda girando. Pior, a pouca largura das ruas, nesse caso, não permite pronta identificação de cruzamento normal ou minirrotatória. Pior: como veículos maiores são autorizados a passar por cima da demarcação por não caberem no traçado, trafegam como se a minirrotatória não existisse. Nesse momento qual regra prevalece, a do cruzamento comum ou a da minirrotatória? É ou não coisa de maluco?

Semáforos
E o que dizer dos semáforos fora de padrão? Inventaram os que têm mostrador com o tempo faltante para fechar ou abrir e com formato da caixa diferente. Vi isso em São Caetano do Sul, por exemplo. Já em Florianópolis os conjuntos têm uma escala de traços que vão se acendendo à medida que se aproxima o momento de fechar ou o abrir. Será que é tão difícil, para as cabeças que cuidam de trânsito, entender que sinalização tão fundamental como a semafórica tem de ser uniforme no país inteiro?

O caso mais grave que vi, no entanto, é na citada Pindamonhangaba. Num semáforo do centro, a seta que permite seguir reto, enquanto o sinal geral vermelho impede a conversão à esquerda, simplesmente se apaga sem ser precedida pelo amarelo — questão de programação incorreta da ordem de acendimento. Assim, o sinal aberto está de repente fechado e já se abre o da via perpendicular, um risco que jamais poderia ocorrer. E, no entanto, está assim já há alguns anos, conta o Fabrício, editor do Best Cars, que mora na cidade.

Quando se dirige no exterior nota-se que os semáforos são sempre os mesmos. É assim que tem de ser. Já imaginou o leitor se sinalização de pista dos aeroportos variasse de país para país, ou se os semáforos ferroviários fossem diferentes uns dos outros? Nesse ponto, aplausos para a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo e seus semáforos padronizados, com uma definição e luminosidade das cores nota 10, mesmo sob sol forte. Não sei se quem roda por aqui já teve a oportunidade de notar isso.

Em compensação, nota zero, extensiva aos departamentos de estradas de rodagem, pela numeração de faixas crescente da esquerda para a direita (1-2-3-4, por exemplo), como se tivéssemos mão esquerda (volante na direita) no Brasil. Isso só confunde, pois em nosso tráfego à direita (volante na esquerda) as faixas crescem da direita para a esquerda (4-3-2-1).

A zorra aqui chega ao ponto de ser usada a mesma placa de aviso (ao lado) para duas situações completamente diferentes. É ou não surrealista? A lombada perfil de estrada, a curvatura longitudinal, é indicada pela mesma placa usada para avisar sobre lombada (quebra-molas, ondulação transversal), a placa de advertência nº 18.

São detalhes como esses que acabam fazendo toda diferença num sistema de trânsito.

A coluna da semana retrasada sobre elevar velocidade mínima rendeu um número enorme de manifestações dos leitores, a maioria aprovando uma medida desse tipo. É a prova de que o motorista está atendo aos vícios de nosso trânsito e de que alguma coisa precisa ser feita para melhorá-lo.

Já que não se preparou antes, que o Brasil comece a se preparar para o trânsito futuro, mas sem esquecer do presente. O que não cabe é insistir nos erros do passado.

Poucas zorras são maiores que as rotatórias no Brasil. Na Praça Campo de Bagatelle, num ponto da rotatória quem está rodando é que deve dar preferência. Absurdo.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 1/11/08

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