Velocidade mínima

Mais do que limitar velocidade, há que se impor
o conceito de velocidade mínima realista

por Bob Sharp

Realizou-se esta semana em São Paulo o 17º Congresso e Exposição Internacionais da SAE Brasil, importante evento que trata da mobilidade, o maior de tecnologia aplicada a esse tema da América Latina. Um dos painéis tratou dos problemas do tráfego urbano, cada vez mais denso e um problema sério de várias cidades aqui e no mundo.

Um dos palestrantes convidados foi o comandante Celso de Mello Franco, carioca, personalidade e autoridade que comandou com eficácia o trânsito no Rio de Janeiro em duas ocasiões, uma na década de 60 e outra na de 70. Ele sugere soluções como o pedágio urbano, o transporte solidário e a ampliação da rede do metrô, todas já conhecidas e que têm produzido bons resultados, sobretudo a primeira, em Londres. Mas ele tocou também num ponto que já comentei aqui: velocidade mínima.

Citou o Art. 62 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que diz que a velocidade mínima numa via não poderá ser inferior à metade da máxima — medida insuficiente, segundo ele, para assegurar a fluidez e, desse modo, aproveitar o mais possível a capacidade da malha rodoviária e urbana. Tem toda razão o experiente comandante, que não aparenta estar com 81 anos. Relembro o que dizia meu avô materno — que não dirigia — quando já tinha mais de 80 anos: "O que atrapalha o trânsito é a morosidade". Certos o comandante e o meu avô.

Essa é uma percepção fácil e óbvia. Ficou até provado numa experiência feita pela Universidade de Nagoya, no Japão, em que 30 carros trafegavam num círculo e, de repente, havia paradas sem nenhum motivo. Se todos mantivessem velocidade constante, o fenômeno não teria como ocorrer.

Cada motorista precisa ter consciência de fazer parte de um sistema e que, por isso mesmo, deve envidar todos os esforços para evitar que ele seja perturbado. Só que adquirir essa consciência não é fácil, são necessárias educação e campanhas que mostrem a cada um a sua responsabilidade.

As rádios-trânsito
Cada vez mais aparece o serviço de rádio-trânsito nas grandes cidades, que constitui um serviço inestimável. Aqui onde moro (São Paulo) surgiu há cerca de um ano a Rádio Sul América Trânsito, na freqüência de 92,1 megahertz, que vem fazendo um trabalho de primeira grandeza. A emissora, que é na verdade a Rádio Bandeirantes FM, ajuda realmente os motoristas ao transmitir pelo dia inteiro e por boa parte da noite informações de trânsito, fora os vários noticiários, também muito úteis. O corpo de radialistas ali é sério, bastante profissional.

Entretanto, o serviço pode melhorar muito, ir além de informar condições das vias da cidade ou informar roteiros por solicitação dos ouvintes. Pode, por exemplo, tentar elucidar por que uma determinada via está congestionada e não dizer apenas que a causa é excesso de veículos. É comum estar-se numa via qualquer e a massa de veículos parar de repente, para começar a rodar de novo. Isso sem que haja semáforo. A falta de motivo é apenas aparente, pois sempre há uma causa para o tráfego parar. O "excesso de veículos" é uma maneira simplista ou mesmo comodista de esclarecer ao ouvinte o porquê do problema.

A rádio deveria, com a grande eficácia que é própria deste meio de comunicação, dar toques nos motoristas para que trafeguem o mais rápido possível dentro do limite de velocidade do local. Seria uma ótima maneira de chamar a atenção de todos para esse problema.

Mudar o código
O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) bem poderia estabelecer novos critérios de velocidade mínima. A norma atual permite diferença de velocidade muito grande e contribui para o congestionamento das vias urbanas e rodoviárias. Além de numa auto-estrada de 120 km/h um carro a 60 km/h constituir verdadeiro "obstáculo móvel", os efeitos danosos sobre a fluidez são mais do que evidentes.

Em teoria, uma via pode estar repleta de veículos e mesmo assim a massa deles pode percorrê-la em qualquer velocidade. Fazendo-o dentro do limite imposto, a capacidade da via é plenamente aproveitada. Se, por exemplo, essa capacidade é de 5.000 veículos por hora, esse é o número exato de carros capazes de trafegar por ela. Mas, se a velocidade cair, cairá também a vazão. Simples.

Uma faixa de variação viável seria 20%, não os 50% de hoje. Para a mesma super-rodovia de 120 km/h, significaria não ser possível rodar abaixo de 95 km/h. Numa via expressa de cidade, de limite 80 km/h, ninguém poderia trafegar a menos que 65 km/h. Já comentei em outra ocasião que na estrada que liga o centro de Buenos Aires ao aeroporto internacional há limites máximo e mínimo de 100 e 80 km/h, na ordem. Numa das várias conversas durante o Congresso SAE Brasil eu soube que o trânsito na Argentina é baseado no da Alemanha, como os semáforos cuja troca do vermelho para verde passa pelo amarelo. Está explicado...

Alguns poderiam argumentar que, em algumas situações, veículos de carga não poderiam atender a novos limites mínimos de velocidade. Pois poderiam, desde que tivessem relação peso-potência adequada, não as muitas lesmas que ainda se vêem por aqui — boa parte porque recebeu eixo adicional como adaptação.

Também, que carros mais antigos não poderiam mais rodar nas estradas, como os Fuscas que se vê em grande quantidade na Via Dutra, na região do Vale do Paraíba, muitos rodando "na grande avenida" a 60 km/h. Como ali o limite é 110 km/h, teriam de estar de 90 km/h para mais. Como até Fusca 1100 de 25 cv, fabricado até 1953, atingia 100 km/h de máxima, qualquer outro produzido depois também pode. Se está em mau estado e não consegue mais, é outra história.

O mais incrível é uma medida que reduza a diferença entre velocidade máxima e mínima em nada reduzir a segurança do trânsito. Pelo contrário, seria capaz de aumentá-la (menos "obstáculos móveis"). Mas, como nem tudo é fácil nessa esfera legal, seria preciso uma lei que alterasse o Art. 62 do CTB, afinal de contas uma lei federal. O Contran não poderia chegar e baixar uma resolução a esse respeito.

O que acho estranho, isso sim, é um código elaborado durante mais de sete anos conter essas e outras imperfeições. É a prova, também, que o tema trânsito não tem a importância que merece para os legisladores. Isso explica o porquê de tantos problemas nessa área, como nossos altos e inadmissíveis índices de acidentes. É o famoso "não tô nem aí, quero é o meu no fim do mês e tirar férias" — vulgo recesso parlamentar, concedido em julho e em janeiro/fevereiro.

Velocidade máxima e mínima precisam mesmo ficar mais perto uma da outra.

Uma via pode estar repleta de veículos e mesmo assim a massa deles pode percorrê-la em qualquer velocidade. Fazendo-o dentro do limite imposto, a capacidade da via é plenamente aproveitada.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 11/10/08

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