Bons hábitos

Dirigir é uma atividade mais difícil do que se pensa, mas
bons hábitos ao volante só ajudam o motorista

por Bob Sharp

Dirigir não é nenhum bicho de sete cabeças, mas também não é a coisa mais simples desse mundo. Exige treinamento, cuidado, atenção, bom senso e responsabilidade. Por exemplo, um veículo trafegando a 80 km/h percorre 22 metros por segundo; a 120 km/h, 33 metros. Portanto, as coisas se passam mais rápido pelo carro do que se pensa — ou o carro muito rápido pelas coisas, dá no mesmo. Essa noção, ou consciência, de que tudo passa rápido precisa ser exercitada e aprimorada sempre.

Quando o carro anda, adquirimos uma espécie de hipnose de velocidade, acostumamo-nos a ela e em geral não nos damos conta de a quanto estamos andando. Quem já não experimentou vir numa auto-estrada e, ao entrar num posto de abastecimento, achar que o carro "parou" mesmo ainda rodando a 40 km/h? Nos meus muitos anos de pista aprendi que, quando se está disputando uma posição durante várias voltas, a sensação que se tem é que os dois carros estão parados, mesmo no calor da mais árdua disputa. É outra forma de hipnose de velocidade.

Por isso é que no tráfego do dia-a-dia, seja na cidade ou na estrada, precisamos lutar contra esse tipo de hipnose. Mais do que nos basearmos no velocímetro, devemos procurar usar referências visuais como as bordas da pista, sempre usando a visão periférica.

Aquele momento em que o piloto do carro de corrida se aproxima do seu boxe sempre é crítico devido à diferença de velocidade. Em pistas velozes como Indianópolis, nos Estados Unidos, vez por outra ocorre acidente na manobra, mesmo havendo uma pista de desaceleração. Hoje, na Fórmula 1, bem antes de o piloto entrar na área chamada frente de boxe, ele freia e aperta um botão no volante para manter o carro no limite de velocidade naquele ponto. Nos treinos é 60 km/h e na corrida, 80 km/h.

Mas cuidado com a velocidade e entendê-la em relação ao meio em que se está, e com isso dirigir com mais cuidado ainda — não significa necessariamente devagar —, é apenas uma das facetas do dirigir com segurança. Há os chamados bons hábitos ao volante que podemos adotar com um pouco de esforço e vontade própria, de maneira a tornar o dirigir mais seguro e menos sujeito a erros. E mais prazeroso também. Falemos na coluna desta semana especificamente a respeito do que está relacionado ao banco do motorista. Afinal, é o nome da coluna, certo?

Sentar errado
Há uma tendência de se dirigir muito afastado do volante e isso não se dá apenas com os mais jovens. Vêem-se com freqüência pessoas dirigindo com os braços retesados ou quase. Muitos acham que é a melhor maneira (outros acham estiloso, o que é pior). Os comerciais de TV ajudam a disseminar essa idéia, tal a quantidade de exemplos de se guiar assim nos anúncios. Produtores e diretores de comerciais — e os fabricantes-anunciantes de automóveis precisam ficar atentos — deveriam assistir pelo menos uma vez a um filme de piloto de rali, dirigindo numa competição, e notar como ele fica perto do volante mesmo andando no limite.

A melhor posição é ficar numa distância tal do volante que os antebraços formem um ângulo de 90 a 100 graus com os braços (lembre-se da ordem: braço, antebraço e mão). Dessa maneira, os braços e antebraços nunca se atropelarão e, mais importante, nunca faltará braço para movimentar o volante numa situação crítica por estarem os braços esticados demais.

Além da questão de uso correto dos braços, há uma distância ideal do volante quando o carro tem bolsa inflável. Perto demais, a bolsa ao encher pode ferir e queimar o rosto; muito longe, a eficácia de proteção em caso de colisão é reduzida. Deve-se evitar ficar mais perto que 25 centímetros e mais longe que 40 cm do volante. Às vezes esquecido, o banco ao lado deve ficar na mesma distância que o do motorista se o carro tiver bolsa inflável.

As costas devem ficar totalmente apoiadas no encosto, para isso ajustando sua inclinação. Vêem-se muitos motoristas que não fazem isso, não encostam bem no banco. Quanto às pernas, a esquerda deve poder apertar o pedal de embreagem até o fim (ou chegar ao assoalho ao lado do pedal de freio se o câmbio for automático), faltando pouco para a perna esticar toda. Pode parecer um mero detalhe, mas sentar-se corretamente é três quartos do caminho andado para se dirigir bem.

Enroupado demais
É essencial para um bom dirigir que braços e pernas tenham livre movimento. Por isso deve-se cuidar para não vestir agasalhos demais ou mesmo dirigir de paletó. Vêem-se nos meses frios — mesmo no Brasil, em especial no Sul e no Sudeste — muitos motoristas agasalhados em excesso, seus movimentos limitados. Isso é tão sério que a Ford americana costuma estudar a perda de movimentos livres dos idosos justamente por meio de roupas espessas e agasalhos, que simulam com perfeição a condição de enrijecimento das articulações dos mais velhos. Se estiver fazendo muito frio o aquecimento deve ser ligado.

Outra recomendação, esta de segurança direta, é nunca deixar a gravata entre o corpo e a perna diagonal do cinto. Esse mau hábito é potencial causador de lesões no pescoço em caso de batida (pode haver forte puxão na região). Na mesma linha, sempre tirar a caneta do bolso da camisa, pois ela pode causar ferimento sério no tórax num acidente. Alguns carros (vêem-me à lembrança os Fords Mondeo e Focus) têm um porta-caneta no console exatamente para esse fim. Mesmo que não tenha, coloque a caneta em outro lugar.

Duas mãos juntas no volante
É bastante comum também ver-se alguém dirigindo com as duas mãos juntas na extremidade superior do volante (associado às costas não totalmente apoiadas no encosto do banco). Movimentá-lo com rapidez, como numa manobra evasiva para evitar atropelar alguém ou dar uma batida, fica bem mais difícil do que se as duas mãos estiverem posicionadas de forma correta, com os polegares na junção do raio com o aro do volante. Isso pode ser bem observado nas transmissões de corridas pela TV, pela imagem da câmera de bordo. Os movimentos dos braços ficam naturais.

Calçado errado
O tênis é um calçado bonito, elegante e confortável, muito em voga hoje, mas não é o melhor calçado para dirigir. Em geral são muito largos e costumam atrapalhar o uso dos pedais. Pior que isso, o solado quase sempre é muito grosso e tira parte da sensibilidade do pé nas sapatas dos pedais. A sensibilidade é essencial para exercer a pressão correta sobre eles.

Sapatos tipo mocassin ou dockside são melhores para se dirigir, seguidos dos de amarrar. Observe como as botas ou sapatilhas dos pilotos de corrida são estreitas e de solado fino. Além desse ponto importante, um calçado adequado facilita o chamado punta-tacco, o frear com a planta anterior do pé e dar um toque com o lado do pé no acelerador. Mulheres devem evitar ao máximo dirigir com sapato de salto alto, pois atrapalha bastante. O pé fica numa posição antinatural.

Penduricalhos 1
O retrovisor interno existe para proporcionar visão para trás, e só. Nunca deve ser usado para se pendurar qualquer coisa nele, dos famosos dois dados aos elementos religiosos com o fim de obter proteção. Estes elementos podem estar em qualquer parte do carro, menos ali, pois o objetivo será igualmente alcançado. O campo visual à frente, o mais importante de todos, deve estar livre e desimpedido. É uma regra básica. Numa situação crítica pode fazer toda a diferença. O mesmo vale para a montagem de acessórios como navegador portátil, que não devem obstruir a visão.

Penduricalhos 2
Procure usar chaveiros os mais simples e leves possíveis. Chave não foi feita para se pendurar objetos e enfeites nela. Há chaveiros compridos demais que ficam balançando e muitas vezes fazendo barulho. Em casos extremos, distraem. Há também a questão do peso do chaveiro, que não faz bem ao cilindro do interruptor de ignição e partida.

Por falar em chaves, evite deixar outras, como as de casa, no mesmo chaveiro do carro. Leve-as em outro lugar, como no bolso. Quando o carro for deixado na oficina ou, pior, se for roubado (sob ameaça de arma de fogo), outras pessoas terão acesso à sua casa antes que você se lembre de trocar todas as fechaduras. E, se você tem comando a distância do portão de casa ou da garagem do prédio, não o deixe "morando" no carro pelo mesmo motivo: possibilidade de invasão se cair nas mãos de estranhos.

Ter e cultivar bons hábitos sempre valerá a pena.

Produtores e diretores de comerciais deveriam assistir a um filme de piloto de rali, dirigindo numa competição, e notar como ele fica perto do volante mesmo andando no limite.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 4/10/08

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