Entre o céu e o inferno

A diferença que faz uma lombada em nosso dia-a-dia

por Bob Sharp

Foi mera coincidência. Falei de lombadas na semana passada e tive duas experiências com elas esta semana, as quais me sinto compelido a compartilhar com o leitor. Naquela ocasião me ative mais a comentar a irregularidade na altura e no perfil das lombadas, como é possível não se encontrar uma dentro do padrão regulamentar. Hoje quero comentar dois fatos, o que é céu e o que é inferno quando o assunto são esses dejetos viários que tomaram conta do Brasil. Comecemos pelo inferno.

Como o leitor pode ler nesta edição do Best Cars, estive em Florianópolis para o lançamento do novo Voyage para a imprensa. O percurso de teste foi dos melhores já vistos, percorremos cerca de 150 quilômetros na ilha nas mais variadas condições de piso e de tráfego. Bem ao contrário da "voltinha" de 20 quilômetros dos lançamentos da Toyota...

As ruas, avenidas e estradas da região de Florianópolis estão crivadas de lombadas. A quantidade impressiona mesmo para os mais desatentos. Dificilmente se consegue trafegar de maneira normal, fluida, sem precisar a todo instante frear para transpor uma lombada. Até que não são das mais "montanhosas", é verdade, mas não estão no padrão.

A coisa chegou a um ponto tal que para muitos motoristas, sobretudo os mais novos, isso é o que é o normal, tornando-se a falta de lombada sinônimo de situação excepcional. Qual o problema que isso acarreta? Está sendo tirada da cabeça do motorista o resquício que ele poderia ter de responsabilidade. Nunca mais terá capacidade de julgar se, num trecho qualquer, é preciso ou não adotar velocidade compatível com a segurança. Poucos percebem a gravidade desse quadro, mas ele existe e está aí.

É aquilo que eu já disse em outras colunas: se as lombadas apareceram no início da década de 1980, como se fazia antes? Não me falem em densidade de tráfego, pois as vias eram em menor número, de modo que tudo é aproximadamente proporcional. Havia tráfego denso muito parecido com o de hoje. Os leitores mais velhos devem ter lido uma revista Quatro Rodas de 40 anos atrás, na qual uma reportagem dizia, "São Paulo vai parar". O drama de ruas entupidas era igual ao de hoje. E lombadas simplesmente não existiam. Quando se lia uma placa avisando zona urbana ou zona residencial, diminuía-se a velocidade e pronto. Não era preciso lombada. Os motoristas tinham essa importante noção que hoje poucos têm. Mas, e o céu, cadê?

O céu
Esta foi mesmo uma semana cheia. Antes de Florianópolis na quarta e na quinta, tivemos o lançamento do Sandero Stepway na segunda e na terça. O local usado como base pela Renault foi o Paradise, um enorme e magnífico hotel de lazer em Mogi das Cruzes, aqui perto de São Paulo. O hotel fica em uma rodovia estadual, a SP-39 Engenheiro Cândido do Rego Chaves.

Todos os jornalistas saíram com os Sanderos para suas avaliações e eu estava com o colunista Gino Brasil, que assina a matéria sobre a nova versão publicada na terça-feira passada. Pegamos a SP-39 acompanhando o roteiro sugerido pelo fabricante. Depois de rodar alguns quilômetros surgiu uma placa "Atenção com os pedestres" ou coisa do gênero, não me lembro exatamente. Era uma entrada de vilarejo, um local chamado Vila do Barroso. Logo adiante dessa placa, outra, indicando limite de velocidade 40 km/h. A estrada cortava a vila, que tinha várias edificações de um lado e de outro do asfalto. Foi então que veio a surpresa.

Atravessamos o vilarejo todo e não havia lombada na estrada. A nossos olhos era uma cena surreal, igual à que vemos quando dirigimos no exterior — como fiz em Portugal em março passado, durante o lançamento do novo Citroën C5. Naquele momento, eu e o Gino tivemos uma sensação estranha, a de não nos sentirmos no Brasil, embora a paisagem fosse tipicamente brasileira. Uma sensação parecida com a que deve ser o céu depois que formos dessa para outra (para quem acredita nisso, obviamente).

Estávamos andando rápido, como se costuma fazer nessas ocasiões (não só, mas também), chegamos a um vilarejo, reduzimos a velocidade e calmamente atravessamos o "centro" da Vila do Barroso. Terminado, voltamos ao ritmo de antes. Tudo sem confusão, sem submeter o carro a esforços anormais, sem ter a sensação desagradável de ver a energia gasta para acelerar o carro transformada em calor pela aplicação do freio, pois após uma lombada é preciso potência para acelerar. E tome combustível... O normal seria uma lombada no começo, duas no meio e uma quarta no fim.

O que aconteceu na realidade foi como nas corridas de hoje quando um piloto é punido com uma passagem pelos boxes sem parar. Nada mais fácil.

Até o início dos anos 90 eu havia perdido todas as esperanças de voltar a ver nossa moeda estável, que não desvalorizasse brutalmente em questão de meses. Torcia para não ter mais de assistir à suprema gozação do Cid Moreira no Jornal Nacional, com seu famoso tom pungente: "Saiu a nota de 1.000 reais, mas o governo já prepara a de 5.000". E veio o real em julho de 1994, para meu alívio e de milhões de brasileiros. Menos para um certo candidato a presidente da República que, em palanque, disse que se fosse trocar a moeda do país adotaria uma mais forte, como a libra esterlina... Mas isso é outro assunto — voltemos ao nosso.

O que acho mais fantástico da moeda brasileira atual é, passados 14 anos de sua introdução, nunca ter colocado na carteira uma nota de 100 reais. Pois não faz a menor falta. E sempre que tiro dinheiro num caixa automático escolho uma quantia que me dê cédulas inferiores à de 50 reais. Chamo isso — em relação ao real — de sensação de estar no céu... E qual a relação do real com a lombada? Também já perdi a esperança de vê-las eliminadas, mas, quando esse desespero aperta, penso na moeda brasileira que voltou a ser respeitada. Assim, reinstala-se em mim a esperança de um dia nos vermos livres dessa forma absurda e irracional de fazer os veículos reduzirem velocidade.

E poder viver de novo o céu nas ruas e estradas brasileiras — o céu que conheci um dia, mas que passou a inferno por obra de mentes doentias.

É preciso acreditar sempre.

"Atravessamos o vilarejo todo e não havia lombada na estrada. A nossos olhos era uma cena surreal. Uma sensação estranha, a de não nos sentirmos no Brasil, embora a paisagem fosse tipicamente brasileira."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 27/9/08

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