Artérias entupidas

Muitos congestionamentos não existiriam se não houvesse
incompetência das autoridades e abuso dos motoristas

por Bob Sharp

O leitor Leonardo Viccari, de Porto Alegre, escreveu-me contando um pouco dos problemas que ele vê no trânsito de sua cidade. Um desses problemas é a "licença para estacionar irregularmente" proporcionada pelo pisca-alerta, como se fosse essa a finalidade dessa útil sinalização de emergência. Como ele, tenho visto isso também aqui em São Paulo: a pessoa pára ou estaciona infringindo o Código de Trânsito Brasileiro, situação de que emergência não tem nada, liga o pisca-alerta e lá fica na base do "eu posso porque liguei o pisca-alerta".

Contou o leitor o caso de uma rua em Porto Alegre de duas faixas de rolamento e uma de estacionamento. Havia um carro estacionado regularmente em frente a um prédio de apartamentos. Nisso uma motorista parou em fila dupla para esperar alguém que vinha saindo do prédio. No que parou de maneira irregular, o que ela fez? Ligou o pisca-alerta. Aquele único carro estacionado em fila dupla transformou a rua, que é bem movimentada, num verdadeiro caos.

Quem buzinasse ou avisasse à motorista que ela não podia estar ali era insultado, demonstração clara de que a motorista não dava a mínima importância para o que estava causando. A fila que se formou atrás passou de 50 metros. O detalhe, contou o leitor, era o carro dela ser o único estacionado num raio de 20 metros — ela poderia ter estacionado junto ao meio-fio, alguns metros antes ou depois da portaria do prédio. Com isso, a motorista mostrou não estar preparada para viver em sociedade, onde todos nós temos limites para que o direito dos outros — de circular, no caso — seja respeitado.

O mais estranho é que o CTB é um tanto vago nessa questão. Ela não estacionou em fila dupla (infração grave, Art. 181 inciso XI), pois estacionar, por definição, é parar por tempo maior do que o necessário para embarque/desembarque de passageiros. Pela descrição do leitor, foi um evento rápido, de embarque. Portanto, não foi estacionamento. Um enquadramento possível, mas não correto, seria o de parar o carro na faixa de rolamento, mas isso só é aplicável quando se tratar de pista de rolamento das estradas, rodovias, vias de trânsito rápido e das demais vias dotadas de acostamento, conforme o Art. 182, inciso V do CTB. Não foi o caso da motorista mal-educada, era uma simples rua.

Parar o carro afastado do meio-fio (mesmo artigo, incisos II e III) seria o único enquadramento possível para esse tipo de atitude desrespeitosa e abusiva, em especial o inciso III, que se refere a parar mais de um metro afastado do meio-fio, infração média (quatro pontos e multa de R$ 85,13). Mas seria necessário um grau e um valor correspondente a infração gravíssima, sete pontos e R$ 191,54 de multa, para a penalidade surtir um efeito "bolsoeducativo".

Maus hábitos
Parar afastado do meio-fio e em fila dupla são dois péssimos hábitos que parecem não dar trégua. Com toda certeza, respondem em boa parte pelos congestionamentos pelos quais todos estamos passando — e nem precisa ser nas grandes capitais. Ônibus e táxis são "especialistas" nisso. Alguma coisa foi incutida errado na cabeça de grande parte desse grupo de profissionais, pois é inadmissível o que se vê no dia-a-dia. Quem já teve a oportunidade de conhecer países avançados pôde ver (caso tivesse interesse) ônibus pararem rentes à calçada nos pontos. O que se vê aqui de ônibus parando bem afastado não é brincadeira.

Além de bloquear a faixa de rolamento da rua, dificulta muito o embarque ou desembarque de pessoas mais idosas e/ou de baixa estatura, devido à exagerada altura do primeiro degrau de acesso. E por que são tão altos os degraus? Porque a altura de rodagem de nossos ônibus deve ser tal que os permita trafegar por ruas cheias de lombadas, valetas e subidas íngremes, normalmente logo depois de uma esquina. Questão de estrutura viária, simplesmente. Ninguém parece se preocupar com isso, pelo menos nunca vi.

É preciso considerar, entretanto, que o caimento de muitas ruas é tão pronunciado que, se o ônibus parasse junto à calçada, haveria o risco de colisão da parte mais alta da carroceria com árvore ou poste. Olha o aspecto da estrutura viária aí de novo...

Esse mesmo aspecto vale para os caminhões, principalmente os de tipo baú. Se trafegarem pela faixa mais à direita há esse risco. Então, eles se afastam do meio-fio e, tendo a rua duas faixas, ela passa a ser de uma só. Mas táxi parar afastado não tem justificativa. Ainda esta semana vi um vídeo via internet, um noticiário de TV sobre os Fuscas táxi da Cidade do México que terão aposentadoria compulsória dentro de quatro anos. Uma das imagens foi a de um desses táxis parado totalmente afastado da calçada. Aqui se vê o mesmo em grande parte dos casos. A mim parece combinação de descaso com preguiça.

Outro dia um amigo me deu uma carona e, ao parar diante do meu prédio, em vez de andar alguns metros e encostar para eu desembarcar, parou numa das duas faixas de rolamento. Era tarde da noite, mas já ocasionou um pequeno acúmulo de carros atrás do dele. Felizmente ele não ligou o pisca-alerta...

Por falar de novo neste elemento de sinalização, sempre me intrigou o estacionamento permitido em algumas áreas, como nas imediações das escolas e defronte de farmácias, condicionando tempo de permanência (10 ou 15 minutos) com o pisca-alerta ligado. Qual seria o significado de ligar o pisca-alerta nessa situação, se o veículo não está enguiçado e nem está constituindo perigo ao trânsito? É a própria transgressão oficializada e, pior, estimulada.

Sinalizar uma situação anormal foi exatamente o objetivo da criação dessa importante luz nos Estados Unidos, em meados dos anos 60, e que recebeu o apropriado nome de hazard light — luz de obstáculo, de perigo em inglês. O primeiro carro a tê-la aqui foi o Chevette, em 1973, e ela passou a ser equipamento obrigatório de todos os carros em 1977.

Foi curioso essa luz ter sido "luz de túnel" durante algum tempo. Uma vez eu vinha com um amigo no Puma VW dele e lá adiante, num túnel longo do Rio de Janeiro, seguia um Chevette com o pisca-alerta ligado. Emparelhamos e nós dois ficamos olhando para o senhor que dirigia o Chevette. Em poucos segundos vimos a mão direita dele se dirigir para o topo da coluna de direção, rumo ao interruptor que tem o triângulo, para desligá-lo. Nem falamos nada... Hoje, menos, mas ainda se vê gente que, choveu um pouco mais forte ou se formou nevoeiro, liga o bendito pisca-alerta.

Voltando ao foco desta coluna, se quisermos ter atenuados os problemas de vias congestionadas nas grandes aglomerações urbanas, serão necessárias medidas que assegurem fluidez. Não apenas medidas de software, como falei na coluna Falta de cabeça três edições atrás, mas, e principalmente, medidas que corrijam o comportamento dos motoristas no sentido de uns não atrapalharem os demais.

Há que otimizar a utilização da malha viária. Como frisei na citada coluna, ninguém deve ter o direito de trafegar abaixo do limite da via, se no Brasil os limites já são notoriamente baixos. Ninguém deve ter o direito de atravancar o trânsito, qualquer que seja o motivo. O policiamento, de trânsito ou não, tem que ser rígido ao extremo nesses aspectos.

Desobstruir as artérias é a única saída.

"Parar afastado do meio-fio e em fila dupla são dois péssimos hábitos que parecem não dar trégua. Com toda certeza, respondem em boa parte pelos congestionamentos."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 13/9/08

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