Luz na aprendizagem

Aumenta o número de horas do curso para habilitação, sinal de
que uma melhoria no padrão dos motoristas está a caminho

por Bob Sharp

É muito bom para quem escreve para um grande público, como o dos leitores do Best Cars, ver que aquilo de que se fala resultou em alguma coisa útil. Não significa necessariamente que é resultado do que se aponta, embora pareça. Foi o caso da recente medida do Conselho Nacional de Trânsito, que aumentou a carga horária dos cursos de direção por meio da Resolução 285, publicada no dia 22 do mês passado, ao lado de várias modificações importantes.

Faz tempo que venho falando a respeito da formação insuficiente dos motoristas, que recebem a habilitação sem serem, de fato, habilitados para dirigir com segurança nas variadas condições de tráfego urbano e rodoviário. Em 1/8 escrevi Motorista de mentira e falei bastante sobre a questão de uma pessoa ser habilitada e não conseguir dirigir, minimamente, segundo o que o documento autoriza.

Por coincidência, há 15 dias assisti a uma palestra da Dirigindo Bem, firma existente há oito anos que se dedica a treinamento de habilitados que, por qualquer motivo, não se sentem seguros ao volante. Eu soube da Dirigindo Bem por meio da assessoria de imprensa, que me informou como notícia que haveria a tal palestra. Como tenho interesse nesse assunto, pedi para assisti-la, no que os diretores concordaram. Gostei e me foi bastante útil.

Eram cerca de 40 "alunos", 95% mulheres, todas com mais de 40 anos de idade. Foi curioso ouvir os relatos e experiência de cada um, como uma senhora que tinha medo de dar ré e por isso só estacionava nas esquinas, sem carro à sua frente. Casos de mulheres que ganharam um carro de presente do marido e nunca os dirigiram — vários. O carro "morava" na garagem de casa, sem nenhum uso. Ou o caso de um homem de cerca de 35 anos, que logo que tirou carteira deu uma pequena batida e perdeu a confiança em si mesmo, ficando anos sem dirigir.

O treinamento inclui conversa com instrutores e/ou psicólogos que, aos poucos, vão devolvendo a autoconfiança ao motorista, tornando-os aptos a dirigir novamente. Incluem-se aí os alunos os que se envolveram em acidente e ficaram com o trauma. Vale mesmo a pena. A Dirigindo Bem pode ser encontrada na internet em www.dirigindobem.com.br. A escola está em expansão, conta com nove unidades em São Paulo, três na região metropolitana (Guarulhos, Osasco e São Bernardo do Campo) e recentemente abriu uma unidade em Recife.

Achei interessante cada participante ter recebido uma pequena caixa quadrada, como se fosse um brinde, e dentro dela haver um espelho simples: era o símbolo da necessidade de o motorista se olhar, exercitar a autocrítica como fundamento para seu desenvolvimento. Lembrei-me logo da coluna que escrevi há sete anos chamada Autocrítica sempre, na qual recomendo a qualquer motorista que seja honesto com si mesmo e reconheça os erros cometidos.

Mudanças
As alterações determinadas pelo Contran, que valem a partir de 1º de janeiro de 2009, compreendem aumento da carga horária do curso teórico das atuais 30 para 45 horas. O curso de direção propriamente dito passa a ter 20 horas em lugar das 15 até então. Segundo a Resolução 285, o curso teórico abordará também questões relativas à direção de veículos em situação de risco e incluirá equipamentos de segurança do condutor motociclista, condução de motocicletas com passageiro ou carga, cuidados com a vítima motociclista e as conseqüências do consumo de bebida alcoólica e substâncias psicoativas.

Ainda não foi o estabelecido o custo para se tirar carteira de habilitação a partir do ano que vem, mas certamente será bem superior aos quase 500 reais de hoje, talvez o dobro. Mas, para o candidato, o gastar mais deve ser encarado como investimento em si próprio, pois é líquido e certo que venha a ser um motorista bem mais seguro.

Muito importante, o curso de direção de motocicleta passa a ser permitido na via pública — não era, verdadeiro absurdo —, mas precedido de treinamento em circuito fechado até que o candidato demonstre domínio do veículo. De grande importância também é o monitoramento do aluno por instrutor em outra motocicleta, isto significando que o candidato pilotará solo na via pública enquanto aprende. Continuam válidos os procedimentos de exames constantes da Resolução 168, de 14/12/04, que a propósito contém sério erro: para o exame em veículos de quatro ou mais rodas, constitui falta eliminatória avançar a via preferencial. Ora, esta deixou de existir no Código de Trânsito Brasileiro. Não vale mais o conhecido argumento "mas eu estava na preferencial!"

O elenco de modificações, inclusive no currículo, é extenso e vem ao encontro das necessidades de um dirigir seguro. Por exemplo, na parte de direção defensiva a carga horária dobrou para 16 horas. De aspectos gerais e simplórios passou a abordar assuntos de capital importância como dirigir em situações de risco, ultrapassagens, derrapagens, ondulações e buracos, cruzamentos e curvas, frenagem normal e de emergência, respeito mútuo entre condutores e situações de risco, entre outros. Na prática de direção veicular passou a ser obrigatório dirigir em condições climáticas adversas como chuva, nevoeiro, frio e noite, um enorme avanço. Para quem se interessa pelo assunto, vale a pena ler a resolução completa.

Faltou, na prática de direção veicular, especificar a obrigação de dirigir em rodovias de pista simples e mão única e, em especial, em auto-estradas de velocidade-limite 120 km/h, limitando-se o texto da resolução à prática em zona urbana e rural. Chegaríamos mais perto da Alemanha, onde é exigido treinamento prévio para dirigir nas autobahnen, onde não há limite de velocidade. Mas o avanço, de uma maneira geral, é de alto significado. Embora os resultados demorem a aparecer, foi dado o primeiro passo da longa jornada em direção a um trânsito brasileiro mais seguro e fluido. Alguma coisa tinha de ser feita e o Contran, com todo o mérito, fez.

Uma nova luz se projeta no processo de aprendizagem de dirigir no Brasil.

"O custo para se tirar carteira de habilitação certamente será bem superior. Mas, para o candidato, o gastar mais deve ser encarado como investimento em si próprio."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 6/9/08

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