País às escuras

A moda dos vidros escurecidos já virou marca registrada do Brasil — infelizmente

por Bob Sharp

Eu estava decidido a não voltar mais ao assunto de vidros escurecidos até que houvesse alguma mudança no panorama legal a respeito. Mas, como o leitor poderá ver na avaliação do Mille Economy, estive na ensolarada Fortaleza, a bela capital no nosso Nordeste. Pois foi lá, ao desembarcar e tomar o ônibus para levar nosso grupo de jornalistas para o hotel, que vi algo difícil de acreditar, assim que começamos a rodar: um Astra da Polícia Rodoviária Federal completamente “filmado”, desses cujas películas escurecedoras não permite ver nada dentro.

É inaceitável que uma viatura policial ignore — para não usar a grosseira expressão correspondente a defecar para — solenemente o Código de Trânsito Brasileiro e regulamentação do Conselho Nacional de Trânsito. Quando vemos um fato desses, pouca esperança resta para que venhamos a ter o trânsito ordeiro e seguro com que a maioria de nós sonha. Seria melhor desistir e, como já disse a ministra do Turismo que deve voltar a comandar a prefeitura paulistana carregada nos braços do povo — coisas da democracia... —, relaxar e gozar.

Outro dia vi anúncio de fabricante de películas escurecedoras, a Intercontrol, apregoando a vantagem de o vidro não estilhaçar em caso de quebra — o que é verdade, mas também um tremendo de um sofisma, pois para isso bastaria uma película incolor. Chegam ao extremo e aparente cuidado de mencionar a legislação atual a respeito, omitindo que a transmitância luminosa regulamentar consiste do conjunto vidro mais película. Isso quer apenas dizer que não adianta aplicar uma película regulamentar, como a empresa quer fazer crer. Propaganda enganosa.

Tenho noção exata de que sou um chato ao bater nessa tecla com freqüência aqui, nesta coluna, por estar indo contra a vontade do que indiscutivelmente já é maioria — indo contra até o editor do Best Cars, Fabrício Samahá, meu amigo pessoal e que tem películas em seu Focus —, mas nesse caso o dever fala mais alto. Não posso evitar falar a respeito e condenar com veemência esse mais novo e estranho símbolo de brasilidade, quando vejo um carro de polícia nessa flagrante infração.

Chega-se a ver aos montes automóveis com o vidro do pára-brisa escurecido, que é o ápice da irresponsabilidade. À noite é impossível qualidade de visão mínima, indispensável para o dirigir correto e seguro.

Antes de tudo, lei é lei, e lei não foi feita para ser ignorada. Acho que falar ao telefone dirigindo não representa o perigo que muito se fala, mas é proibido e, ponto final. Se eu transgredi-la, posso ser multado. De modo inverso, quem gosta de película acha que não atrapalha o dirigir, como eu penso sobre o usar o telefone dirigindo, mas o fato é que é proibido escurecer além do limite legal. A lei é até mais permissiva no caso da película, pode-se aplicá-la desde que dentro de limites.

Enquanto no caso do telefone celular estudos mostram que a probabilidade de acidente aumenta, nem é preciso estudar a questão de risco no caso da película escura demais, pois a visibilidade reduz-se a ponto de ela deixar ser minimamente razoável. Mas nos dois casos — celular e película, repito — existe norma específica para cada.

Nem carro antigo escapa
Na apresentação do Mille no Autódromo Virgílio Távora, em Fortaleza, onde se realizou um concurso de economia ao dirigir entre os jornalistas, a Fiat convidou o Clube do Uno do Ceará a expor modelos antigos do modelo, com maneira de chamar a atenção do carinho dos proprietários pelo carro. Este e vários clubes de Uno espalhados pelo Brasil reúnem, juntos, mais de 24.000 associados, disse Luiz Cláudio da Mata, um número que impressiona.

Mas não é que a maioria estava “filmada”? Aplicaram aos carros, muitos em excelente estado, um acessório que não se usava ou não era tão conhecido na época. Ficou estranho. Falei com ele a respeito, claro, na tentativa de demovê-lo e os outros dessa alteração sem sentido.

Acho curioso a maioria das pessoas achar que o carro fica mais bonito quando com as películas, pois na minha opinião fica algo irreal, falso até. Fica parecendo com maquete de automóvel em estúdio de estilo, que obrigatoriamente tem de ter vidros que não são vidros, já que nem interior tem. Mas, como se diz, tem gosto para tudo.

Seria o carro “filmado” uma forma extremada de egoísmo, o de “ interior do meu carro é só para eu ver”? Com a palavra os psicólogos.

Acho tão agradável a vista interna dos veículos, quando me aproximo deles para embarcar, que não consigo conceber alguém chegar e se deparar com aquela barreira escura. Fora, como eu já disse em outras ocasiões, ser péssimo, no trânsito, não se poder ver através do carro ao lado ou à frente e até mesmo dos carros estacionados ao se chegar a um cruzamento. Aqui também entra outra componente psicológica, do tipo “os outros que se danem, não estou nem aí se meu carro impede a visão através deles”.

Muitas pessoas com quem converso dizem sentir o mesmo que eu dentro de um carro com película irregular: aflição. Aflição de não poder olhar a paisagem à volta com plenitude, pior de noite, mas ruim de dia também. No recente lançamento do novo Fiat Strada, havia um curto deslocamento noturno do hotel onde ficamos em Atibaia até um clube hípico, onde seria realizada a convenção e entrevista coletiva de imprensa. Quando vi as vans estacionarem na porta do hotel para nos levar e vi que eram “filmadas” ao extremo, protestei e pedi outro transporte, no que a anfitriã Fiat logo atendeu, nos oferecendo um Doblò com vidros regulamentares.

Outro dia peguei uma carona com um amigo em seu Fiesta, comprado e colocado para rodar naquele dia. Estava com películas e o amigo foi logo dizendo para não baixar os vidros, pois as películas haviam sido aplicadas naquele dia e estavam em secagem. O percurso foi de apenas algumas quadras no bairro de Moema, onde resido na capital paulista, mas o suficiente para provocar uma sensação aflitiva toda aquela escuridão dentro do carro. Realmente, custa-me acreditar ou aceitar que pessoas se conformem em andar de automóvel desta maneira.

Na mesma Fortaleza, fizemos um trajeto de ônibus à noite cujos vidros eram escurecidos. Não foi possível ver a bela cidade direito. Só não pedi outro transporte para não criar caso duas vezes consecutivas. Mas na volta foram usadas vans Fiat Ducato com vidros normais. Perfeito!

O país ficou mesmo às escuras dentro dos carros que aqui rodam. E nas barbas da lei, o que é pior.

"Muitas pessoas com quem converso dizem sentir o mesmo que eu: aflição de não poder olhar a paisagem à volta com plenitude."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 30/8/08

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