Falta de cabeça

O trânsito complica-se cada vez mais e não parece haver luz no fim do
túnel, mas pode haver com vontade política e algumas providências

por Bob Sharp

Realizou-se — e não "aconteceu", como está virando moda, sobretudo nas assessorias de imprensa — esta semana o seminário "Desafio da mobilidade urbana", promovido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e SAE Brasil, a sociedade de engenheiros da mobilidade da qual faço parte como consultor editorial da revista Engenharia Automotiva e Aeroespacial, publicação da entidade.

O importante tema dispensa explicações e está no foco das discussões, desde em gabinetes de governos das três esferas de administração aos bate-papos descontraídos entre amigos regados a chope — que os deixa "bêbados", na idéia obtusa dos parlamentares que aprovaram o projeto de lei logo apelidada de "seca", do presidente da República que a sancionou e, para minha surpresa, da cabeça de muitos brasileiros, todos sem saber do que estão falando. Mas não fujamos do foco da coluna.

No seminário, a conclusão óbvia é de que o problema é colossal. Problema que se manifestou primeiro em São Paulo e extravasou para algumas capitais brasileiras e mesmo certas cidades mais populosas. Muito se falou e debateu, mas as palavras mais sensatas saíram de Dario Rais Lopes, engenheiro e vice-presidente do Instituto de Engenharia, e de Jackson Schneider, presidente da Anfavea.

Dario Lopes foi muito claro na sua idéia de que trânsito consiste de hardware e software. Hardware é o espaço, as vias, cuja modificação para acolher maior número de veículos requer tempo e investimento, ambos não tão fáceis de obter. Software é o controle de tráfego que está ao alcance quase imediato e que não requer grandes somas de dinheiro.

O estado da arte da tecnologia, segundo o engenheiro, permite grau de aproveitamento e otimização das vias muito além do que se imagina ou supõe, e nada disso se vê ou se pensa implantar aqui, pelo menos no curto prazo. Controle dos semáforos por uma rede computadorizada já é feito em algumas metrópoles, entre elas a região da Grande Tóquio, com sua população colossal de 28,8 milhões de habitantes. A Grande São Paulo vem em quarto lugar, com 20,3 milhões, atrás de Lagos, capital da Nigéria (24,6 milhões) e Mumbai (antiga Bombaim), na Índia, em segundo, com 26,2 milhões de habitantes.

É desnecessário ser perito em trânsito para constatar a zorra que é sistema de semáforos no Brasil. É inadmissível que uma questão crucial para a fluidez seja solenemente ignorada por quem, de direito, deve procurar otimizá-la por todos os meios ao alcance. Convido o leitor a fazer um teste: levante cedo num domingo de manhã, pegue o carro e dirija-se a uma parte da cidade onde o trânsito normalmente é complicado. A explicação para a confusão que se vê todos os dias salta à vista logo. Como disse o humorista e compositor Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto, 1923-1968), é o próprio samba do afro-brasileiro doido, de sua autoria. Não dá para acreditar como alguém deixe as coisas do jeito que estão, preferindo a comodidade de falar em "excesso de veículos".

O presidente da Anfavea e outros palestrantes tocaram num ponto sensível para quem almeja as benesses dos cargos eletivos: a inspeção veicular e os milhões de carros rodando sem pagar IPVA. Na opinião deste colunista, o político que implementar a primeira e resolver o problema da segunda pode ir tratando de procurar emprego, pois nunca mais será eleito. A massa que — infelizmente, não por sua culpa — não pode manter o carro em ordem e nem pagar o imposto anual "sobre a propriedade de veículo automotor" o apedrejaria, mas, como isso é crime, não lhe daria o cobiçado voto.

Poucos sabem, mas as primeiras conversas sobre inspeção veicular começaram há 20 anos. Uma geração! Acredite quem quiser. Só imagino como deve estar doendo a barriga dessa turma lá da "ilha", de tanto com ela empurrar assunto tão importante. Nem precisaria lembrar o mal que um carro em mau estado causa, mas é bom repetir: enguiça, bate, polui. Numa região de tráfego denso e de população, mais ainda, mais uma vez não é preciso ser perito em trânsito para saber o que acontece.

A outra solução, que atende (ou deveria atender) à questão de carros rodando sem pagar IPVA — no caso de São Paulo, 30% da frota, mas não deve ser muito diferente em outros estados —, é o Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav), o tal chip nos veículos, que deveria começar em julho deste ano, mas que já atrasou. Com o sistema, o controle da frota circulante seria total e com toda certeza tiraria alguns milhões de carros das ruas, aliviando o trânsito e melhorando-o qualitativamente.

Produção x espaço
É comum, nas coletivas de imprensa da Anfavea, jornalistas questionarem a entidade sobre o que ela pensa sobre produzir e licenciar veículos novos no ritmo excepcional de 2006 e 2007, e que continua este ano, sem que haja aumento de espaço nas vias. Palestrantes como o Ministro das Cidades, Márcio Fortes de Almeida, sugeriram contenção da frota, mas Jackson Schneider já havia dito, como que antevendo o que ministro falaria, que "Queria ver o que o cidadão das ascendentes classes D e E no mercado de consumo, que está podendo comprar o carro zero-quilômetro, faria se lhe dissessem que agora ele não pode mais comprar carro".

O fato é que solução para o alto e denso volume de tráfego exige vontade política. O transporte de massa sobre trilhos é a única saída plausível. São Paulo necessitaria hoje de uma malha metroviária superior a 450 quilômetros e tem apenas 63. A cidade de Curitiba, paradigma nacional em transporte urbano, com corredores, plataformas de embarque em nível elevado e bilhetagem na entrada, como nas ferrovias, já pensa em rodas sobre trilhos. Mas mesmo sem o recurso do metrô a cidade não pára, como se acredita. As pessoas acabam se condicionando, encontram alternativas de deslocamento ou procuram não se deslocar mais (a internet ajuda bastante e foi para isso que foi criada, tornar possível o trabalho a distância).

O problema dos congestionamentos é sério, e como tal deve ser encarado por todos os envolvidos no sistema — motoristas inclusive, se não principalmente. Pequenas e simples atitudes como não "morrinhar", mas manter velocidade adequada e no limite da via ou bem próximo dela, fariam enorme bem. Ainda ontem pude notar isso ao pegar um pequeno trecho de estrada para ir aqui perto. A velocidade máxima permitida, 90 km/h, já está abaixo do razoável (era 100 km/h há coisa de um ano), mas assim mesmo havia muitos carros cerca de 20 km/h abaixo do limite com tudo livre à frente. É assim que começam os engarrafamentos.

Excesso de veículos, como as emissoras de radiotrânsito gostam tanto de informar? Não, é tudo falta de cabeça mesmo.

"O político que implementar a inspeção pode ir tratando de procurar emprego, pois nunca mais será eleito. A massa o apedrejaria, mas, como isso é crime, não lhe daria o cobiçado voto."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 23/8/08

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