Motorista de mentira

É impressionante como, até hoje, ter carteira de habilitação
não significa que uma pessoa seja motorista de verdade

por Bob Sharp

Um leitor assíduo escreveu-me contando uma história de estarrecer. Apenas pediu-me que não revelasse seu nome e nem o da outra pessoa envolvida: sua mãe. Frederico (nome fictício) contou que ela (ele nem informou seu nome no relato) tinha mais de 50 anos, mas nunca havia dirigido, apesar de sempre ter mostrado vontade de aprender. E não é que, pouco tempo atrás, disse para o filho ter perdido o medo e que começaria a maratona da habilitação?

Escolheu uma auto-escola — um centro de formação de condutores, o nome correto hoje — de confiança da família, fez o teste psicotécnico, cumpriu todo o currículo teórico e fez o teste respectivo. Até aí, tudo dentro dos conformes. Depois vieram as aulas práticas e, finalmente, o teste prático, no qual ela foi aprovada sem problema. Frederico mora no interior paulista e por isso não tinha visto sua mãe dirigir até então. Num fim de semana veio visitá-la numa cidade da região da Grande São Paulo. Como precisaram ir a um supermercado, ela fez questão de dirigir o carro do filho, que naturalmente foi junto.

Frederico contou que o que ele viu foi surreal: sua mãe não tinha a mínima condição de estar ao volante de um automóvel. Disse que os erros que ela cometeu foram vários e os mais primários possíveis.

Foi aí que ele se deu conta de como a formação de motoristas é falha. Classificou, o que achei uma bela comparação, a emissão da carteira de habilitação como a de um porte de arma sem critério, pois ele viu que sua mãe ao volante era como ter o porte sem responsabilidade e tampouco saber atirar, portanto um perigo ambulante na visão dele. Ele disse que isso o revoltou — com total razão.

Comentou, usando uma expressão que gosto muito, que na "ilha da fantasia" ficam bolando leis e mais leis que só aumentam o volume de infrações, pensam em aumentar o valor das multas, em enrijecer as penalidades, enquanto o aprendizado de novos motoristas permanece arcaico. Disse, com razão, que deveríamos seguir modelos bem-sucedidos como o da Suécia e outros países avançados que levam trânsito realmente a sério. Encerrou pedindo uma coluna a esse respeito — aqui está ela — devido ao que ele considera, como eu, algo de extrema gravidade.

Má experiência
Isso me lembra uma experiência passada, quando eu dirigia a atividade de competições da Volkswagen. Haveria um rali no Sul e a área de imprensa da fábrica me pediu para levar um carro de rali da nossa equipe de casa, pois pretendia convidar alguns jornalistas para o evento e deixá-los dirigir o carro, para sentirem o que era um carro de rali. Nosso engenheiro buscou um jornalista no hotel enquanto os demais — cinco — vieram em outro carro nosso.

O que meu colega contou foi de arrepiar. O jovem jornalista — que logicamente era habilitado, ou não permitiríamos que dirigisse um veículo da frota — dirigia como se ainda estivesse aprendendo. O uso dos comandos era péssimo, errava o básico. Reunidos no trecho de estrada de terra em que andariam no Gol de rali, ele foi o primeiro a sair e... nem fez a primeira curva. O carro tombou, danificando-o pouco, mas o suficiente para impedir que o programa pudesse continuar. Ele nada sofreu, felizmente. Os outros jornalistas ficaram loucos da vida, com toda razão.

Isso foi há 25 anos e passado todo esse tempo vê-se que o quadro não mudou, como mostra o relato do leitor com relação à mãe dele.

Não se pode esperar de quem acabou de se habilitar a mesma desenvoltura de quem já tem alguns anos de volante, mas existe um mínimo aceitável. O recém-formado tem de ser capaz de dirigir normalmente e com segurança em meio ao tráfego, mesmo sem ter grande habilidade. É isso que os responsáveis pelo trânsito brasileiro têm de pôr na cabeça. Não adianta lamentar as estatísticas e partir para soluções sem pé nem cabeça como a "lei seca", de que tanto já falei aqui.

Preço político
É claro que haverá o famoso "preço político" para quem impuser novo sistema de aprendizagem que realmente forme motoristas, e não apenas uma ferramenta para passar no exame. A responsabilidade de quem está ao comando de um veículo automotor vai bem além disso. Um processo eficaz de formar motoristas terá custo pelo menos quatro vezes maior que o atual, que chega perto de 500 reais.

Seu responsável com toda certeza será criticado e deverá pagar preço alto por isso, caso venha a se candidatar a cargo eletivo. Na esteira, seu partido político sofrerá as "conseqüências". A indústria automobilística também deverá torcer o nariz, pois o acesso ao automóvel ficará mais difícil. Mas o fato é que o Brasil terá que passar por esse processo. Já não somos mais um paiseco qualquer, mas um que já é o sexto maior mercado do mundo, atrás apenas da Rússia, Alemanha, Japão, China e Estados Unidos, e continuamos a crescer em ritmo forte. A responsabilidade do gestor do Sistema Nacional de Trânsito, o Denatran, é, portanto, enorme.

Costumo comparar o currículo de uma escola de motoristas com o de uma de pilotos privados, que é a categoria básica, em que o aluno precisa voar 40 horas. Se um avião pequeno voa, em média, a 130 km/h, isso significa em torno de 5.000 quilômetros pilotando, bem mais do que um candidato a motorista, que dirigirá 15 horas a no máximo 40 km/h nas retas — apenas 500 quilômetros considerando o tráfego, sinais etc. Além disso, o piloto de avião só poderá voar à noite mediante instrução complementar.

Imagine-se o recém-habilitado pegar uma rodovia à noite com chuva. Sobre isso, bem disse há muitos anos o Cel. França Filho, então comandante da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo, no Programa Tribuna Independente, Rede Vida, canal 38 cabo, 12/3/96: “A pessoa faz um exame de baliza, de arrancar em rampa, obtém a carteira e depois pega a estrada, totalmente despreparada”.

Um currículo teórico adequado deve incluir Física aplicada e falar de distância de parada, aderência e forças atuantes sobre o veículo, bem como mecânica e eletricidade do automóvel. Já o currículo prático precisa contemplar o dirigir à noite e em rodovias com tempo seco e chuva, o acessar vias de trânsito rápido e como frear. Isso tudo é o mínimo que uma pessoa deve saber e praticar antes de receber a Permissão para Dirigir, que antecede a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação um ano depois — desde que não tenha cometido infração grave ou gravíssima ou reincidido numa infração média no período.

Só assim teremos motoristas habilitados de verdade, não de mentira.

"Existe um mínimo aceitável. O recém-formado tem de ser capaz de dirigir normalmente e com segurança em meio ao tráfego, mesmo sem ter grande habilidade."

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 2/8/08

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