Cheiro de pizza

Quando parecia que o abuso dos vidros escurecidos chegava ao
fim, o assunto está com jeito de empurrado com a barriga

por Bob Sharp

Muito se fala em desobediência às leis de trânsito como causa de toda sorte de problemas de trânsito que nos assolam. Isso tem sido objeto em várias colunas. Todavia, não conheço desobediência escancarada maior do que ter películas escurecedoras nos vidros fora da norma e, pior, ficar tudo por isso mesmo. Se há um limite mínimo é para ser respeitado, e não solenemente ignorado. No entanto, vidros escurecidos viraram moda, havendo até um quê de cultural no hábito. Películas já fazem parte do leque de brindes que as concessionárias oferecem ao se comprar um carro novo. A que ponto se chegou!

No ano passado o Contran estabeleceu novas normas para películas escurecedoras por meio da Resolução 254, de 26/10/07. Foi bastante abordada a fiscalização a ser feita por aparelho destinado a medir a transmitância luminosa do conjunto vidro-película e, desse modo, ser possível autuar veículos em situação irregular por meio de metodologia própria e legal. O medidor seria usado pelas polícias engajadas em trânsito, só que agosto já está próximo e nada do aparelho sair, muito menos a fiscalização.

A explicação que me foi dada numa visita recente a uma indústria de vidros para automóveis, interessada no assunto, é que o Inmetro — Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior criada em dezembro de 1973 — está bem atrasado no processo. O Inmetro precisa homologar o medidor, que é produzido no Paraná, para que as medições de transmitância luminosa tenham amparo legal.

O motivo de "empurrar com a barriga" — a conclusão é minha — uma questão de tão grande importância é Inmetro não poder terminar o processo de homologação por estar com um equipamento danificado. Precisa comprar outro, mas, como autarquia, necessita da famosa licitação. Sem ela, nada feito. Em meio a esse interminável compasso de espera, eis que um leve cheiro do popular e saboroso prato italiano espalha-se no ar...

Império contra-ataca
Quando parecia que meus apelos e os de uma parte responsável da imprensa festejavam o que parecia ser uma vitória, sai a notícia que na Câmara dos Deputados prossegue a análise do Projeto de Lei nº 5.472/05, de autoria do deputado Capitão Wayne (Rose-Marx Wayne de Oliveira, PSDB-GO). A proposta do PL é reduzir a transmitância luminosa no pára-brisa de 75% para 70%, nos vidros laterais dianteiros de 70% para 28% e nos demais vidros de 50% para 15%. É como se estivesse sendo tentado derrubar a regulamentação em vigor.

A Resolução 254, é bom lembrar, não saiu como "as forças do bem" queriam, pois autorizou 70% no pára-brisa (não tinham nada que mexer nesse importante vidro), embora mantendo essa transmitância nos vidros laterais dianteiros. Mas pisou na bola, como se diz, ao autorizar passar de 50% para 28% nos demais vidros. De qualquer maneira, é melhor do que o PL do capitão propõe e pelo menos o motorista terá a necessária visão de quem está ao comando do veículo.

É essa, na minha opinião, por conhecer bem como as coisas funcionam em nossa querida terra brasilis, a razão do cheiro de pizza: uma demora "programada" que dê tempo para que o Congresso Nacional aprove a lei, o que seria uma lamentável vitória das "forças do mal" — as que envolvem toda a cadeia de produção, venda e aplicação das películas escurecedoras.

Esconderijo traiçoeiro
Além de toda a deficiência de visibilidade causada por tais películas — basta ver a quantidade de automóveis à noite rodando com o vidro da janela do motorista baixado à metade para ele poder enxergar direito —, vários casos trágicos foram registrados neste último mês.

Apesar de os policiais terem agido contrariando os elementares métodos de abordagem e defesa, ao fuzilar crianças inocentes ou mesmo adultos, como uma vítima que era posse de seqüestradores, o fato é que os vidros escurecidos — bem escurecidos — contribuíram para as tragédias. Tivessem os carros vidros normais, provavelmente nada disso teria acontecido.

Há coisa de dois anos desembarquei no Aeroporto Santos-Dumont, no Rio de Janeiro, e fui tomar um táxi comum. Na fila de veículos, notei que pelo menos seis eram "filmados". Eu disse para o fiscal do ponto que eu não andava em táxi assim e que mandasse vir um carro sem películas — claro, eu não ficaria esperando até que chegasse um sem o acessório. Aquilo o desconcertou, fez até um pouco de cara feia, mas mandou um carro lá de trás se adiantar para me servir.

Recentemente eu estava no mesmo aeroporto e desta vez os carros, praticamente todos, não tinham mais os vidros escurecidos. Como quem não quer nada, perguntei a um taxista por que o carro dele e de vários outros não tinha mais películas. "Eu não, para malandro pegar meu táxi e ninguém ver o que se passa aqui dentro? De jeito nenhum", respondeu. E disse ainda que tinha muito passageiro que recusava pegar o táxi dele por causa dos vidros escurecidos.

Francamente, como motorista velho — nos dois sentidos, de experiência e de idade, 65 —, não me entra na cabeça como pode alguém apreciar ou se conformar de ter de dirigir com vidros escuros por acreditar que há benefício para a segurança pessoal. No terreno da proteção solar, os vidros esverdeados que equipam todos os carros hoje são mais do que suficientes para evitar os malefícios da radiação ultravioleta.

Outro dia o jornal carioca O Globo noticiou que muitos proprietários estão retirando as películas ou aplicando outras com maior transmitância em seus carros. Isso depois da morte do menino João Roberto Amorim Soares, de três anos, um caso que abalou a nação. É sinal de que muitos começaram a repensar essa importante questão.

O ideal seria começar a fiscalização da transmitância luminosa mínima dos vidros, mas pelo andar da carruagem isso ainda vai demorar, pois o Inmetro não está ajudando — ou estaria ajudando as "forças do mal" a levarem essa.

Seria ótimo se o cheiro de pizza desvanecesse logo no ar.

O fato é que os vidros escurecidos — bem escurecidos — contribuíram para as recentes tragédias. Tivessem os carros vidros normais, provavelmente nada disso teria acontecido.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 26/7/08

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