O exemplo que vem de Cabo Frio

Uma cidade turística mostra que é possível haver
pavimentação de Primeiro Mundo no Brasil

por Bob Sharp

Na viagem do Rio de Janeiro a Búzios (180 quilômetros), por ocasião do lançamento do Peugeot 207 para a imprensa, o roteiro preparado pela fábrica incluiu passar por Cabo Frio. Ao chegar a esta pequena cidade, surpresa das surpresas: o asfalto na maior parte dela era completamente uniforme, sem nenhuma irregularidade. Poucas vezes vi isso no exterior. Por coincidência, esta semana notei a mesma coisa em ruas e avenidas de um bairro de São Paulo, Vila Mariana, asfalto com qualidade igual à que vi em Búzios. O carro mal oscila, roda suavemente. Dizer que parece no ar é exagero, mas é o que se sente. Fiquei abismado.

A conclusão é óbvia: querendo, faz-se bem-feito. No final dos anos 60 ouvi uma frase que não esqueço: "Um país gigante que tem uma loteria esportiva em que, minutos após o término do último jogo de futebol, conhece-se os cartões vencedores, tem capacidade administrativa". Temos capacidade para fazer as coisas bem-feitas, mas é preciso vontade e determinação.

Fico-me perguntando por que não pode ser sempre assim, termos uma pavimentação de qualidade. Já falei algumas vezes sobre nosso mau piso nesta coluna, como é possível ser tão ruim. Cheguei a compará-lo com o das avenidas de Bagdá depois que assisti a um vídeo, que me chegou pela internet, mostrando um Hummvee das forças armadas americanas trafegando por lá e abrindo passagem em meio ao tráfego, com toques delicados nos pára-choques dos "donos da esquerda". Nas tomadas feitas de bordo, o jipão não balançava absolutamente, comprovando a qualidade da pavimentação pelo menos naquela parte da capital iraquiana.

Digo sem medo de errar: se nosso chão fosse como o dos exemplos que citei no começo, eu não teria o menor receio de ter um carro com sistema de freios antitravamento (ABS), ao contrário do que eu disse numa coluna há um ano. Não havendo ondulações no asfalto, o ABS nunca é "enganado" e pode, assim, desempenhar seu papel sem restrição. É capaz de produzir os efeitos benéficos para os quais foi inventado há 30 anos, como evitar que as rodas travem numa freada mais enérgica. É importante lembrar que o ABS nasceu na Europa, parte do mundo em que o piso é, em regra, excelente.

Sobre piso perfeito, correu uma história no meio industrial que há algum tempo um fabricante nacional de articuladores esféricos ("pivôs") de suspensão e direção procurou exportar seus produtos para o Japão. Conversa vai, conversa vem, o importador japonês disse que não compraria as peças dessa empresa por uma razão bem simples: articuladores não se trocavam jamais no Japão. Motivo? Duravam mais que o carro. Como assim? Não eram submetidos a esforços e desgaste acelerado simplesmente porque o piso não exigia...

Muitas vantagens
Essa questão de piso de boa qualidade vai mais longe do que se pensa. Com vias de traçado correto e piso de qualidade, alguns dos benefícios são:

> A altura de rodagem pode ser menor, com ganho de estabilidade e aerodinâmica, em favor da segurança e da economia de combustível, nesta ordem. Menor o consumo, menores as emissões de dióxido de carbono, o hoje temido gás que responde por cerca da metade do efeito-estufa que está aumentando a temperatura da Terra.

> A durabilidade dos veículos aumenta e reduz-se o custo de operação, muito importante no preço das passagens dos coletivos e do frete.

> Os carros nacionais não precisariam ter amortecedores com batente hidráulico, que evitam pancadas secas quando as rodas "caem" após transpor uma lombada (chamadas de quebra-molas em algumas regiões), portando resultando em menor custo desse importante item do automóvel. No caso de modelos importados ou que passam a ser produzidos aqui, várias alterações hoje feitas na suspensão e nos pneus se tornam desnecessárias, com nova redução de custos.

> Pneus tenderiam a durar mais, por se flexionarem menos e com isso baixar sua temperatura.

> No caso de inexistirem lombadas, o material de atrito e as superfícies rotativas dos freios têm vida bem mais longa, além de reduzirem-se as emissões gasosas nocivas pelo escapamento e, no caso dos motores a diesel, menos material particulado (fuligem) ser jogado na atmosfera, o que interessa a todos.

> Ônibus e microônibus sendo mais baixos tornam bem mais fáceis o embarque e o desembarque.

Tudo isso pode parecer utópico, mas o fato é que não é. Basta haver vontade por parte das administrações das três esferas e exercer fiscalização — pressão forte mesmo — sobre as empreiteiras contratadas para construção ou manutenção das estradas e também sobre as concessionárias das rodovias, que têm a incumbência de conservá-las.

Mesmo nas boas estradas brasileiras é possível notar como os veículos trafegam oscilando o tempo todo. Em especial os ônibus de dois deques, que não param quietos tanto no sentido longitudinal quando no transversal. Já ouvi muitos dizerem que evitam viajar no deque superior devido ao incômodo e, em muitos casos, enjôo.

O piso ruim, no caso das cidades, deixa o andar de bicicleta desagradável devido aos choques que normalmente passam para o guidão, pois nem todas contam com algum tipo de suspensão. Já comentei nesta coluna como é incômodo até andar de motocicleta, justamente devido ao asfalto irregular.

Pode parecer futilidade eu falar em piso de qualidade diante dos inúmeros problemas que o Brasil tem, mas não é. Já baixamos de sete habitantes por veículo — há pouco tempo eram nove —, isto significando que somos bastante motorizados e o automóvel não é mais artigo de luxo. Mais importante, o benefício de pisos perfeitos tem alcance social ao contribuir de maneira decisiva para reduzir o custo dos transportes. Portanto, temos todos direito a rodar por estradas decentes, de traçado e piso perfeito, sem ondulações e desníveis. Sejamos ou não motoristas, não é exigir demais.

Ao mesmo tempo, o excesso de peso nos caminhões precisa ser coibido e com punições pecuniárias vultosas, pois, mais do que levar o piso à ruína, é fator contribuinte para os mais pavorosos acidentes. Aliás, não preciso repetir que o maior problema do trânsito brasileiro é a falta de fiscalização.

Com empenho e boa-vontade de todos os envolvidos na abertura ou conservação de vias e rodovias, é possível mudar a face do país e ainda por cima sair lucrando, de acordo com o que foi dito mais acima.

Cabo Frio está aí para provar.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 12/7/08

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