Sempre o posto

Parece haver algo de mágico nos postos de combustíveis,
pela atração que exerceram e exercem nos jovens

por Bob Sharp

A paisagem é comum em muitas cidades brasileiras: jovens se reunindo nos postos de combustíveis à noite para bater papo em meio a umas cervejas. Mas nem sempre foi assim. As chamadas lojas de conveniência são uma invenção que data de meados dos anos 70. Antes, posto era apenas posto, mas já atraía a garotada do mesmo jeito. Eu era um dos atraídos, quando morava na cidade do Rio de Janeiro. Eu já havia falado de postos de combustíveis nesta coluna mais de seis anos atrás (leia), mas sob uma ótica diferente.

O posto, de bandeira Esso, ficava numa esquina na "fronteira" Ipanema-Leblon, na avenida da praia que começa como av. Vieira Souto e pois passa a av. Delfim Moreira. Ali, desde o começo dos anos 50, se reuniam todas as noites os automobilistas do Rio, de jovens aos de meia-idade. Foi mais para o fim da década que comecei, com meu irmão, a aparecer por lá.

A faixa etária baixou um pouco — eu ainda não tinha carteira — e a turma aumentava sem parar. Era toda noite lá, que era o chamado "postinho", depois de ver as namoradas. Todos nós éramos vidrados em automóvel e corrida de automóvel e o papo ia longe, até uma da manhã nos dias de semana e um pouco mais sexta e sábado. A maioria era estudante e alguns já trabalhavam, tinha-se de acordar cedo no dia seguinte.

O papo era tipicamente "gasolina", automóvel era a ordem do dia. Bebida alcoólica, nem pensar — não havia à venda lá e a cerveja em lata ainda demoraria anos a chegar. A única "droga" que rolava era o cigarro. O pouco ruído gerado pelo falatório não incomodava ninguém, pois não havia prédio de apartamentos perto e ficávamos ao ar livre, tendo a abóbada celeste como teto. Tampouco existiam os potentes sistemas de áudio de hoje que tanto infernizam quem está por perto. Carinhosamente, nos referíamos ao posto como "escritório". O mais curioso era quando se ia lá de dia para reabastecer e se constatava um visual completamente diferente.

Era um tempo de poucos carros nas ruas, a frota da cidade ainda estava longe de chegar ao milhão de veículos. A indústria automobilística brasileira ainda engatinhava, estava em sua primeira fase. Praticamente vimo-la nascer e tínhamos enorme curiosidade pelos carros que estavam aparecendo — Fusca, DKW, Dauphine e Gordini, Simca.

Meus pais ficavam preocupados com o freqüentar meu e do meu irmão todas as noites aquele lugar, pois sempre íamos lá com um dos carros da família, primeiro um Fusca 1955 e depois um DKW-Vemag 1959, já de motor 1.000 (havia sido lançado um ano antes com motor de 900 cm³). Fora a questão de dois garotos que gostavam de andar rápido, o que sempre representa risco, começava a aparecer o fantasma da droga na sociedade, no caso a maconha. Pais se preocupavam, é natural, e com os meus era igual. Poucos anos antes de falecer, em 2005, nossa mãe nos contou que papai, por duas ou três vezes, saiu de casa de táxi e foi até o "escritório" ver o que rolava por lá. Claro, se fosse com o outro carro nosso, eu e meu irmão logo o veríamos. Depois de constatar que o ambiente era saudável, só garotada falando de automóvel, sem bebidas e nem drogas, ele sossegou.

Ficávamos, assim, umas boas horas ali batendo um bom papo, examinando os carros preparados que muitos tinham, trocando idéias e experiências, saindo para experimentar — enfim, tudo divertido e também instrutivo. Aprendi muito ali e tenho certeza de que isso se aplica a vários outros.

Os carros
Estávamos ali também para apreciar os carros dos amigos. Lembro-me de ter ficado admirado com o minúsculo roadster Honda S800, com quatro carburadores e que cujo motor virava a 8.000 rpm, um espanto para a época. Havia também um Volvo P1800 de seis cilindros com três carburadores duplos, sem filtro de ar e com cornetas, que volta e meia obrigava o dono a pegar o extintor (não era obrigatório, mas ele tinha), abrir o capô rapidamente e apagar o início de incêndio quando havia retorno de chama. Tinha de tudo por lá, até Renault 4CV "rabo quente".

Era tudo muito informal, o grupo não tinha nome e nem havia adesivo para os carros. As pessoas chegavam e iam entrando na roda do papo. Muitos, inclusive eu, tomavam parte nas corridas da época, realizadas no circuito de rua da Barra da Tijuca — na geração anterior, alguns chegaram a correr no Circuito da Gávea. Era um pessoal animado, de cabeça boa, que apreciava automóvel de verdade. Ainda me relaciono com vários deles, apesar de muitos já terem nos deixado — estamos falando de cinqüenta ou pouco menos anos atrás.

De vez em quando baixava a polícia lá, mas nunca houve motivo para efetuar detenções e nem aplicar multas. Houve uma noite em que foi feita uma grande operação policial, dessas de chegar e cercar tudo, mas ninguém havia ido ao postinho. Foi como se tivéssemos sido alertados, mas não houve nada disso, apenas mera coincidência. Quem nos contou a respeito, na noite seguinte, foi um dos frentistas noturnos que sempre participava de nossos papos.

Parei de ir lá quando me casei pela primeira vez, em 1965, pois não fazia mais sentido. O ponto continuou até o início dos anos 70 e morreu naturalmente. No ano passado o posto acabou para dar lugar a um prédio de apartamentos, já que ali é uma das regiões mais belas e valorizadas da cidade. Ao passar por lá e ver os tapumes de obra, veio-me uma grande tristeza ao me lembrar daqueles bons anos de juventude, fazendo algo que eu tanto curtia, e que certamente foram importantes para minha formação.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 5/7/08

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