Sem ordem, sem progresso

Minorias estão prejudicando o país, mas nada
está sendo feito para deter a maléfica onda

por Bob Sharp

Um dos maiores exemplos da baderna que assola o Brasil, intensificada desde janeiro de 2003, quando o atual presidente tomou posse para o primeiro mandato, é a ação do MST. Essa turma de imundos não respeita nada e nem ninguém. Acham-se no direito de fazer o que querem, de invasão de praças de pedágio a propriedades rurais, passando por agências bancárias e outras organizações.

Fazem-no sem o menor receio ou cerimônia, empunhando suas "ferramentas de trabalho", ou seja, foices e facões. Só faltava ser martelo em vez de facão — aí a farra campesina estaria completa. E, estranhamente, quem faz resistência a esses marginais, agindo apenas na defesa do que é seu, é considerado bandido e acaba sendo preso.

O pior lado desse movimento, que nem constituído juridicamente é, está no poder de estimular manifestações ilegais semelhantes, partindo-se do princípio de que vale tudo quando se trata de impor uma idéia, reivindicar, protestar ou simplesmente fazer bagunça. Uma dessas bagunças ocorreu sábado passado em São Paulo.

Centenas de ciclistas tomaram a Av. Paulista — sempre ela, por que será? — para protestar contra automóveis e consumo de combustível (?), de acordo com a reportagem televisiva da TV Globo. A avenida, claro, parou. Mas o tal protesto, mais do que perturbar a vida da cidade, mostrou uma faceta que eu não conhecia (como não conhecia o fato de motoristas trafegarem contramão nas rodovias e outras vias), que é a pouca-vergonha e o descaramento. Bem na linha de deu a louca no mundo, alguns ciclistas — as imagens mostraram — vestiam apenas cueca. Que tipo de protesto é esse, afinal? É um grande desrespeito às outras pessoas, isso sim.

Não satisfeito, porém, um dos participantes, que sei ser engajado na "causa da bicicleta" — chegamos a trocar e-mails cordiais depois da coluna sobre o Dia Mundial sem Carro —, ficou completamente nu (só não me lembro se ficou de capacete ou não). Em plena via pública, para quem quisesse ver. É inacreditável que isso possa acontecer hoje, quando já caminhamos para o fim da primeira década do século 21. Quanta falta de compostura, quanta grosseria com as pessoas na rua naquele momento! O nudista em questão se chama André Pasqualini. Seu nome foi revelado na reportagem televisiva por um singelo motivo: foi detido e levado para um distrito policial próximo dali.

Ao ler o jornal O Estado de S. Paulo do dia seguinte, a informação de que ele é um dos organizadores daquela demonstração absurda, edição tupiniquim de uma manifestação igualmente idiota chamada World Naked Bike Ride, algo como Pedalar Nu Mundial. Segundo o jornal, a estupidez foi inventada em 2001 em Zaragoza, na Espanha e já teria seguidores em Bruxelas, Londres, Madrid e Paris. Ou seja, alguns ciclistas brasileiros resolveram ser meros macaquinhos de imitação de um protesto nojento feito lá fora. Pasqualini será processado pelo crime de ato obsceno, diz a notícia. Em compensação, foi visto por milhões de pessoas em todo o país. Deve ter-se achado o máximo com a fama alcançada em alguns minutos...

Mancha
São atitudes como a desse grupo que mancham aqueles que, cidadãos sérios e apreciadores da bicicleta, fazem uso dela para se locomover, como Arturo Alcorta, que tive o prazer de conhecer recentemente. Tenho-o escutado na Rádio Eldorado AM, onde ele trabalha como bike-repórter prestando um ótimo serviço de informação à população, dada a agilidade da bicicleta no complicado trânsito que não é exclusividade da capital paulista.

Arturo quer e luta por uma cidade mais favorável à bicicleta, mas o faz em bons termos: reúne-se com autoridades, expõe seu ponto de vista, argumenta, tenta convencer, traz dados concretos e propõe soluções plausíveis. É assim que se faz, não promovendo uma baderna acentuada pelo comportamento obsceno.

Todo protesto, quando substanciado, é válido — é um direito de todos nós protestar —, mas isso precisa ser feito dentro da mais absoluta ordem e, sobretudo, respeitando aqueles que não estão envolvidos na ação. Protestar contra automóveis e o consumo de combustível é a mesma coisa que protestar contra a pesquisa espacial: vai de encontro ao nosso tempo. Como na Inglaterra do século 19, quando houve protestos contra a carruagem sem cavalo, a máquina ameaçadora à vida humana, que acabou levando em 1865 à promulgação da Lei da Bandeira Vermelha.

Todo carro tinha de ter à frente um sinalizador a pé agitando uma bandeira dessa cor, logicamente limitando a velocidade do veículo a 6,5 km/h, que é a quanto um homem caminha a passos rápidos. A lei foi revogada em 1896. A Inglaterra e o mundo experimentavam o progresso trazido pela Revolução Industrial e os tempos modernos haviam chegado, mas havia a turminha do contra. De novo, protestar é um direito, mas que seja feito dentro da ordem e da lisura, não da maneira que foi feita por esse grupo de ciclistas.

Em plena São Paulo atual, vem um grupo falar em mudar radicalmente a face da cidade, como se a bicicleta fosse a panacéia para todos os males da megalópole. Imagine-se como seria uma mãe transportando seu filho de um ano numa bicicleta, pedalando ladeira acima...

Nossa bandeira é das poucas — 13, entre as dos 192 países — que contêm alguma mensagem, mas parece que tem sido pouco observada ultimamente. Ela diz claramente: Ordem e Progresso.

Sem ordem não há progresso.
 



P.S.: Recebi nesta quinta-feira uma informação à imprensa que dizia "CCR/NovaDutra quer redução acidentes na Via Dutra. Por isso, começa a instalar radares fotográficos na rodovia. Primeira fase do projeto de controle fixo de velocidade tem início pela Serra das Araras (Piraí – RJ) e vai abranger 25 pontos da Dutra entre Rio e SP."

Fiquei indignado e respondi na mesma hora ao assessor de imprensa: "É uma vergonha uma concessionária de rodovia instalar radares fotográficos. Concessionária não é polícia. Sinto muito, mas vou bater com força nisso no Best Cars. Parece que as pessoas em nosso país perderam a capacidade de raciocinar."

A resposta foi mais inacreditável ainda: "A NovaDutra não é, nem pretende ser polícia. Não faremos fiscalização, mas, sim, controle de velocidade. Nosso objetivo é a redução do número de acidentes, de sua gravidade e do número de mortes. É sabido que, onde foram implantados controles eletrônicos de velocidade, houve reduções significativas na violência do tráfego. Nosso objetivo é reduzir a velocidade e não penalizar os usuários."

Cinismo maior, estou para ver.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 21/6/08

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