Dirigindo na sombra

Em tempo de contramão, ficar na defensiva é
o melhor que o motorista tem a fazer hoje

por Bob Sharp

Muito se fala de direção defensiva e, como adiantei semana passada, temos todos de ficar atentos à mais nova praga de nosso trânsito: carros na contramão. É mesmo de impressionar o que vem acontecendo: estar numa auto-estrada moderna, de trânsito rápido, e de repente darmos de cara com alguém vindo em sentido contrário. É certamente a situação mais perigosa com que um motorista pode se deparar.

Mais perigosa do que qualquer cruzamento, pois nesse o bom senso diz que alguém pode cruzar bem à nossa frente ou nos pegar pelo lado. Já falei algumas vezes nesta coluna que todo cruzamento é perigoso, não apenas aqueles em que a autoridade de trânsito avisa que é por meio de placa. Dei até o exemplo de o maior acidente aeronáutico da história de aviação ter sido no solo: dois Boeings 747 que colidiram quando um vinha na corrida de decolagem e outro cruzou a pista, ceifando 580 vidas e deixando 64 sobreviventes gravemente feridos. Foi no aeroporto Los Rodeos, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, 31 anos atrás. Já pegar alguém contramão numa auto-estrada é bem mais difícil de prever.

Daqui para frente mais um "bom senso" é preciso, quer dizer, passa a ser imprescindível pensar o tempo todo nessa possibilidade. Tanto quanto, ao passar sob um viaduto em estrada, olhar para cima e ver se há pessoas lá em cima, pois já houve inúmeros casos de serem atiradas pedras nos carros passando. Houve até um caso, há alguns anos, de um motorista de ônibus da Viação Cometa ter morrido, numa importante estrada paulista, vitimado por uma pedra jogada de cima de um viaduto. A pedra entrou pelo pára-brisa.

Será cada vez mais importante procurar olhar o tráfego bem à frente, bem como aumentar bastante a distância do carro adiante, de maneira a haver tempo e espaço para uma manobra evasiva. Ficar à distância que até hoje era segura — a regra de dois segundos de separação — deixou de ser.

É de todo lamentável que nosso sistema de trânsito tenha se deteriorado a esse ponto. Parece que a irresponsabilidade passou a reinar absoluta, autoridades perderam de vez o pouco controle que tinham. Fiscalização hoje se resume a radar ou detector de velocidade e blitze. Patrulhamento móvel pertence definitivamente ao passado.

Carteiras falsas
Pode-se até entender um esquema de corrupção que leve à emissão de carteiras de habilitação falsas — há corrupção no mundo todo. Mas o que aconteceu esta semana, a possibilidade de haver 40 mil documentos de habilitação falsos, emitidos por gente de dentro de uma Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) da Grande São Paulo, é estarrecedor. Pior do que o fato sempre condenável de toda corrupção, é possível haver um grande número de motoristas com pouca ou nenhuma capacidade para dirigir. Não nos faltava mesmo mais nada...

E a coisa vai longe, com diplomas de curso superior comprados. Imagine-se o que um médico sem formação pode causar de mal. Ou um engenheiro de construção civil. É tenebroso.

Tudo isso contribui para o caos do trânsito brasileiro. Nesta semana, quem mora em São Paulo teve um dia de cão devido a acidentes de caminhões em artérias importantes, uma delas bem dentro da cidade. Nesta, uma carreta tombou e, pior, sobre um motociclista, que teve uma perna esmagada. Como é possível um caminhão tombar num via urbana? O que está havendo com a cabeça das pessoas?

Rodovias de mão dupla, como um trecho da federal BR-116 no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, volta e meia têm o trânsito interrompido por horas e mais horas devido a acidentes, que em geral envolvem caminhões. Tenho certeza de que o problema não é apenas alcoolismo ao volante ou sono, mas — e principalmente — falta de capacidade mesmo. Estamos desaprendendo a dirigir e isso é muito mais sério do que se pensa.

Basta observar o dia-a-dia de qualquer cidade brasileira e o comportamento de muitos motoristas, as barbaridades que cometem diante de nossos olhos. Isso vale para veículo de qualquer tamanho e até mesmo motocicletas. É assustador, verdadeiro processo de deterioração de comportamento.

Outro dia me mandaram um vídeo pela internet que mostrou um motociclista batendo de frente contra um caminhão, resultando em sua morte instantânea. Ele não conseguiu se manter na trajetória da curva e invadiu a contramão. Como pode alguém perder a vida de maneira tão estúpida? Se uma curva não é conhecida, tem-se que ficar na defensiva, isto é, manter velocidade compatível. Será que é tão complicada essa postura?

Muitos viram pela televisão, nesta sexta-feira, reportagem sobre um motorista que entrou com o carro dentro de um supermercado em Niterói, no estado do Rio de Janeiro — ao manobrar! Era um homem de 75 anos. Imagine-se esse motorista numa estrada, com chuva. Que condições terá ele de dirigir com segurança?

Nesse verdadeiro terreno minado que é o trânsito, só nos resta dirigir na defensiva — na sombra, como se diz. Não dá mais para confiar nos outros. Alguém pode aprontar alguma quando menos se espera. Vir na sua direção, de frente, numa ótima auto-estrada, por exemplo, uma possibilidade que era remota.

Era.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 7/6/08

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