Na contramão

Esse negócio de andar na contramão — da via e da
história — pegou para valer, aqui e no mundo

por Bob Sharp

Foi escrever Deu a louca no mundo, semana passada, e parece que o título atraiu mais coisas de doido. Muitos leitores sabem que escrevo também em Quatro Rodas e leram minha coluna na edição de abril passado, em que falo de um acidente causado por um ônibus da Viação Itapemirim, que desceu pela contramão uma alça de acesso a uma rodovia. Isso depois de manobrar porque errou o caminho. Alguns dias antes, um universitário havia rodado assim intencionalmente, numa auto-estrada paulista, até se acabar ao pegar um caminhão de frente. Pelo jeito, foi suicídio.

Pois bem, agora a coisa pegou para valer. Há alguns dias uma mulher de 57 anos não tinha dinheiro para o pedágio e não pensou duas vezes. Manobrou e voltou para casa, pela contramão, numa estrada movimentada. Esta semana, uma jovem de 27 anos, bancária, fez o mesmo numa das mais movimentadas avenidas de São Paulo até ser detida. Parentes disseram que ela é bipolar, para explicar o bizarro procedimento. Bipolar, ou transtorno bipolar, é um desordem psíquica associada a mudança brusca de humor. Antes quem sofria disso era chamado de maníaco-depressivo. E agora? Qualquer que seja o nome, estamos diante de um problema colossal, o desprezo pela própria vida e as dos outros.

Esse negócio de maluquinho me lembra uma prova para ver se a pessoa é mesmo: é só saber se a pessoa está ou não rasgando dinheiro. Se rasgar é porque é. Se não rasgar...

Será que no elenco de direção defensiva será preciso incluir essa possibilidade, a de um doido na contramão? É o que parece. Essa eu acho que ninguém pensava que tal seria possível, assim como ninguém imaginava que alguém fosse jogar um avião comercial contra um prédio estando dentro desse avião, como ocorreu em Nova York na manhã de 11 de setembro de 2001.

Tem havido mais casos de contramão por essas bandas, eu soube depois. Inclusive no exterior. Outro dia assisti a um vídeo mandado pela internet que era a imagem captada pelas câmeras de uma auto-estrada italiana, nas redondezas de Nápoles. Carretas saíam de uma rodovia transversal e dobravam à esquerda, em flagrante contramão, para andar uns 200 ou 300 metros e depois pegar outra estrada à esquerda. Tinha todo o jeito de maneira de cortar caminho, evitando fazer os retornos regulamentares. Naquela pequena amostra do inferno, carros e caminhões desviavam como podiam.

Mas a coisa não fica só na contramão. Rola na União Européia há mais de um ano a idéia de restringir a publicidade de carros a gasolina, como maneira de estimular a produção de veículos mais econômicos, ou mesmo proibir a comercialização de carros que façam menos de 14 km/l. Pior, querem tirar dos anúncios motes como "prazer de dirigir". O negócio está mesmo muito mais feio do que se pensa. Patrulhamento, de exceção está virando regra. Um horror, em duas palavras.

Álcool zero
Por aqui, a última foi a aprovação, pelo Congresso Nacional, do álcool zero. Nada, nem uma gota de bebida alcoólica será tolerado. Até o limite (do nosso código de trânsito) de 0,6 grama por litro de sangue, se apanhado, o motorista perde o direito de dirigir por um ano. Acima disso é considerado crime e o motorista será preso e ficará sujeito a pena de seis meses a três anos de prisão. É torcer para que a lei não seja sancionada pelo presidente "deste país". Serei eu a favor de álcool e volante? É claro que não. Mas sou contra exageros.

Já falei aqui: todo motorista flagrado alcoolizado de que se tem notícia está com, no mínimo, 1 g/l. O limite expresso no Código não foi criado do nada, pode-se apostar nisso. Portanto, até essa concentração ninguém pode ser considerado bêbado. Se não pode, então está em condições para dirigir. Simples. Mas a turma lá de cima — o leitor sabe onde, a tal "ilha" — acha que não. A mesma turma que apronta mil e vive nababescamente às nossas custas, com 15 salários, férias de verão, férias de julho, três dias de trabalho por semana, foro especial e otras cositas mais.

A vida, que já não anda nada fácil, tem agora um complicador a mais. Se o motorista tomar uma taça de prosecco num mero brinde, estará em condição ilegal. Ou seja, todos foram jogados no mesmo saco. Mais uma vez o justo paga pelo pecador. Que mania!

Pior, o Congresso, com essa esdrúxula lei, criou a figura da meio-grávida, atualizada para meio-bêbado. Até 0,6 g/l, é infração; acima, é crime. Antes de mais nada, seria preciso comprovar o efeito da concentração de álcool no sangue sobre a capacidade de dirigir. É impossível admitir que países avançados estejam errados nessa questão, como Alemanha (0,5 g/l) e Estados Unidos (média 0,6 g/l, alguns estados com até 1 g/l).

Seria o lógico e mais do que suficiente para atender o objetivo a que se quer chegar — evitar que motoristas alcoolizados provoquem acidentes de toda ordem — tornar crime a alcoolemia superior a 0,6 g/l. Considerar "bêbado" quem tomou dois chopes durante o almoço, mesmo sem constituir crime, é um exagero completo e absurdo.

Pior, não vai resolver e nem ajudar a reduzir o número de acidentes, pois, se formos fazer uma análise precisa, há muitos fatores envolvidos na sua anatomia, já bastante conhecidos: má formação do motorista, condições das vias e estradas muitas vezes deploráveis, carros em mau estado e falta de fiscalização, esta gerando a sempre perigosa sensação de impunidade.

Temos de acabar com a contramão, em todos os aspectos. Só lucidez ao volante e nas decisões funciona realmente.
 



P.S.: Semana passada falei na "Flexpedition" da GM e o absurdo em si só que representa. Pois bem, esta semana tive a grata surpresa de tomar conhecimento que a Mercedes-Benz do Brasil realizará o programa "Rota do Conhecimento". Ao contrário da baboseira da GM e seus valentes "expedicionários", o fabricante da estrela de três pontas organizou uma ação itinerante que levará informações sobre segurança, saúde, finanças e tecnologia para caminhoneiros, percorrendo 50 cidades entre junho e novembro. Serão dadas palestras por instrutores do Sest/Senat (Serviço Social do Transporte/Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) em paradas de três dias em postos de combustíveis e em eventos, como a Festa do Carreteiro, em Aparecida (SP), e a Festa do Caminhoneiro, em Guarulhos, no mesmo estado. Nota dez. Está de parabéns a Mercedes-Benz pela iniciativa.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 31/5/08

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