Sem combustível

Uma das piores coisas que pode acontecer a quem
dirige um carro, acontece, e por pura displicência

por Bob Sharp

Matéria em O Estado de S. Paulo nesta quinta-feira (1º) revelou que, segundo dados do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e da Agência Reguladora de Transporte de São Paulo (Artesp), 230 veículos por dia, em média, param nas rodovias paulistas por falta de combustível. Não pode haver displicência maior do que usar um veículo sem ter certeza de que há combustível suficiente no tanque para o percurso que se quer fazer.

Talvez eu tenha sido um dos poucos, em relação à população, que tenha tido noção da importância de cuidar do combustível, ao fazer o curso de pilotagem de avião, ainda bem jovem. Um dos meus instrutores, o Abiel Derizans, sempre dizia "Olha a gasolina! Olha a gasolina!" e aquilo me marcou. O fato é que nunca, em 47 anos ao volante, habilitado — houve alguns antes, na ilegalidade, já contei isso aqui — fiquei parado por falta de combustível.

O raciocínio que sempre procuro transmitir é o seguinte. Se em algum momento será necessário reabastecer, ou o carro não teria sentido, então que se faça antes que o combustível se esgote completamente. Essa lógica vale para outras coisas também, como para os pneus e até produtos de consumo doméstico que, se faltarem, deixa a pessoa em situação embaraçosa, como aquilo que normalmente se usa nos banheiros. Se vai ter que comprar, é inevitável, que se os compre antes.

Parece brincadeira, mas quando eu era sócio de uma concessionária DKW-Vemag, depois Volkswagen, ainda no Rio de Janeiro, sempre me vi às voltas com esse tipo de problema na seção de peças. Os responsáveis invariavelmente se esqueciam de manter itens essenciais no estoque. Eles não ficavam atentos ao sistema de controle da época, o Kardex, que permitia observar o movimento de saída das peças e fazer os pedidos à fábrica em tempo hábil. E não ter a peça ali, na hora, significava atraso nos serviços da oficina e, pior, a peça ter de ser comprada em outra concessionária ou na fábrica em caráter de emergência, o que deixava uma margem menor.

Sobre carro e combustível, há um enunciado da Lei de Murphy que considero dos melhores: "A quantidade de combustível no tanque é inversamente proporcional à pressa que se tem". De fato, naquelas ocasiões em que estamos em cima da hora ou atrasados para um compromisso, o ponteiro do combustível já chegou ao traço vermelho...

Hoje, com a volta do uso do álcool com força total, um problema se soma ao rodar com pouco combustível: o maior consumo. O que leva de tempo e distância para acabar, com álcool tudo se passa mais rapidamente. Pode pegar o motorista de surpresa. Também hoje, ter o carro parado por falta de combustível é um enorme risco, tanto de ser atingido em pleno acostamento por um veículo desgovernado, quanto de ser assaltado. Como se não bastasse o dissabor puro e simples de ficar parado, há ainda a possibilidade de ser multado, pois constitui infração parar por pane seca segundo o Art. 180 do Código de Trânsito Brasileiro, que leva à perda de quatro pontos na carteira de habilitação e multa de R$ 85,13.

Como norma, quando o ponteiro chegar a um quarto do tanque, reabasteça-se. Mas não é preciso encher o tanque por completo, a menos que se vá sair em viagem de média para longa, pois seria carregar peso a mais sem necessidade. Faça as contas: um litro de gasolina brasileira pesa 750 gramas e de álcool, 780 gramas. Ter 20 litros sem necessidade representa 15 kg e 15,6 kg mais, nesta ordem. Uma mala grande, cheia, em geral pesa 20 kg — por aí pode-se ter uma idéia do peso morto.

Computador de bordo
Independente de se ter muito ou pouco cuidado com o nível do tanque, um dos equipamentos mais úteis que um carro pode ter é o computador de bordo. Todos têm a função de autonomia restante e isso constitui um valioso auxílio para não se ficar sem combustível. Mantendo-se as mesmas condições de rodagem, a informação é totalmente confiável.

Quando trabalhei na Embraer, em São José dos Campos, fazia o percurso entre a empresa e minha casa em São Paulo todo dia. Foram incontáveis as vezes em que saí da Embraer, já tarde, tipo nove da noite, e o ponteiro do medidor estava na zona vermelha. O computador indicava 100 km de autonomia, insuficiente para os 114 km do trajeto total. Mas era óbvio que, quando eu entrasse na estrada e mantivesse 120 km/h indicado, o consumo diminuiria.

De fato, o computador ia indicando autonomia cada vez maior, até chegar ao limite para aquela situação e quantidade no tanque, digamos 120 km. Só que eu já havia rodado 20 km, portanto faltavam 94 km para chegar em casa. Era exato, nunca falhava. Antes de chegar em casa, eu parava no posto habitual e reabastecia. Muitas vezes cheguei a esse posto com apenas 10 km para rodar. O carro era o Escort 1,8 16V, que por acaso tenho até hoje.

Todavia, é preciso levar em conta que o consumo na estrada (o computador informa) cai rapidamente quando se entra na cidade. Se for uma cidade grande, meu caso, pode-se ter pane seca nela própria. Uma vez quase parei sem gasolina numa Chrysler Grand Caravan de teste por esse motivo. Foi preciso pôr combustível assim que saí da estrada, ainda longe de casa.

Quando se está com pouco combustível numa viagem e não se tem certeza de encontrar posto adiante, o melhor a fazer é baixar a velocidade para a faixa 60-70 km/h, pois é uma velocidade em que praticamente não há arrasto aerodinâmico e, portanto, é a de menor consumo. Se a coisa estiver mesmo crítica deve-se desligar o ar-condicionado, se houver, fechar as janelas e até dobrar os espelhos externos. Só que nessa condição, que é de emergência, deve-se prestar total atenção ao tráfego à retaguarda pelo espelho interno, pois se estará lento demais dependendo da estrada.

Sempre que me lembro ou falo a respeito desse assunto, vêm-me à lembrança os primeiros Volkswagens que tivemos na família, quando eu era garoto. Esses carros não tinham medidor de gasolina, mas traziam uma solução simples e eficiente para isso: reserva de combustível — física, não apenas um dado teórico como nos carros de hoje, em que muitos manuais indicam tanque de tantos litros, incluindo a reserva. O VW tinha uma torneira no que seria a parede de fogo de um automóvel de motor dianteiro, que se manobrava com o pé direito.

Eram três posições: aberto, reserva e fechado. Quando o tanque "principal" acabava — o motor começava a cortar por falta de combustível —, abria-se a reserva e se tinham cinco litros mais, o bastante para rodar mais 50 quilômetros. Funcionava à perfeição. A mesma solução existe até hoje em muitas motocicletas. O que não se podia fazer era deixar de voltar a torneira para a posição correspondente ao tanque principal, o que muitos esqueciam, da mesma maneira que esquecem nas motos.

Como essa solução não existe mais nos automóveis (bem que poderia voltar), o jeito é não descuidar jamais do tanque do nosso carro de cada dia.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 3/5/08

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