Uma questão de habilidade

Exemplo dos italianos mostra como ainda
temos muito o que aprender ao volante

por Bob Sharp

Estive semana passada na Itália cumprindo um programa profissional (não foi lançamento) e, como de hábito, o anfitrião reserva um dia para nos adaptarmos ao fuso horário, que no caso era de cinco horas adiante (quatro normais e uma por conta do horário de verão no hemisfério norte). Essa diferença já dá para perturbar bastante nosso relógio biológico.

Chegamos em Roma às 6h30, hora local, e uma hora depois voamos para Nápoles, mais ao sul — um vôo curto de uma hora. De lá, embarcamos num ônibus rumo à região chamada Costa Amalfitana, onde populações se desenvolveram há cinco séculos em meio às escarpas sobre o Golfo de Nápoles, no Mar Tirreno, em vilas como Positano e Amalfi — nosso destino, a 60 quilômetros de Nápoles.

Não, a coluna desta semana não é sobre turismo, mas falar da estrada que atravessa aquela costa, cortada na montanha. Pense o leitor carioca, ou que conhece o Rio de Janeiro, na Av. Niemeyer (que liga os bairros do Leblon e de São Conrado) e terá uma idéia dessa estrada. Só que é uma idéia muito pequena, tipo amostra grátis.

Durante uns 40 quilômetros é um serpenteado impressionante para acompanhar as entranhas da escarpa, com um mínimo de viadutos e pontes que poderiam retificar um pouco o perfil da montanha. Mais impressionante do que o traçado em si é a largura da estrada, entre cinco e seis metros. Dois automóveis que se cruzam deixam muito pouco espaço para os lados. E por ali trafegam caminhões e, claro, ônibus de turismo, aqueles grandalhões que conhecemos aqui. Sem contar o grande contingente de scooters e motocicletas.

Agora, a altura da estrada a partir do planalto, quando começa a descida, e assim fica por muitos quilômetros, é de dar frio na barriga. Se alguém acha a Av. Niemeyer alta em relação ao mar, não faz (e nem pode fazer) idéia da altura dessa estrada nas escarpas. São 300, 400 metros verticais, sem medo de errar, mas com medo de alguma coisa errada acontecer na mecânica do coletivo e ele cair no espaço — literalmente. O mais surpreendente é a baixa altura das defensas, combinada com fragilidade. Em termos de veículos de duas rodas, então, nem se fala. Piloto e passageiro podem facilmente voar por cima delas.

Perguntei a nossos anfitriões sobre acidentes nessa estrada e ninguém soube dizer. Claro que há, mas provavelmente em número baixo, ou eles saberiam responder de pronto, em especial devido à velocidade de informação que caracteriza nossos tempos.

Minha grande surpresa e dos outros jornalistas que estavam comigo (sete) foi como os motoristas locais e os de fora andam naquela estrada. Primeiro: lombada, nem pensar, mesmo com incontáveis casas na beira da pista. Limite de velocidade postado inferior a 50 km/h, nunca. Aqui, pelo que conheço da turminha que cuida de trânsito, seria um festival de placas de 20 km/h mais lombada eletrônica, sem contar os dejetos viários chamados lombadas físicas.

Aquele motorista morrinha, que segura todo o tráfego atrás, não vi nenhum. Parece todos têm consciência de que o negócio é não atrapalhar o outro. Pelo contrário, é só ajuda quando o leito carroçável diminui devido a carros estacionados num dos lados. Não existe clima de disputa por espaço como as que se vê muito por aqui, pessoas vendendo a alma ao diabo para ganhar um metro na vida.

O hotel em que ficamos localiza-se praticamente numa curva, que é apertada, e tínhamos de atravessar a rua num ponto cego em um dos sentidos até um pequeno espaço do outro lado, onde o ônibus podia estacionar e depois manobrar. A travessia não representava nenhum risco, mesmo sem faixa de pedestres, pois havia um espelho convexo que permitia aos motoristas e motociclistas saber o que há após a curva. Se fosse aqui...

Várias vezes nosso ônibus encontrou outro vindo contra. Ambos tinham de parar para os motoristas calcularem a folga de centímetros entre eles e o bordo da via, muitas vezes passagens sob arcos, para então reiniciar a marcha. Tudo sem o menor estresse. É como se todos atrás do volante estivessem em seu hábitat.

Claro, era o início da primavera, estávamos na segunda e na terça-feira, mas no verão em julho e agosto a coisa deve complicar bastante. Um amigo italiano que mora aqui e que costuma ir lá nas férias disse que a coisa complica bastante nessa época — como em todo pólo turístico muito concorrido. Quem costuma ir ao litoral paulista sabe disso. Mas o importante é que tivemos todos uma bela — em todos os sentidos — lição de civilidade conjugada com inteligência e habilidade.

Posição correta e visível
Na bela Turim cumpriríamos a parte principal do programa. Cidade muito bela e simpática, localiza-se no noroeste da Itália e tem como limite com a França os Alpes, com seus picos nevados, um visual sempre agradável. A população mal chega ao milhão, com um entorno de cerca de 700 mil habitantes.

Para fumantes, como eu, o mundo está ficando cada vez mais inóspito. Na Europa, de uns dois anos para cá, o cerco aos fumantes é total. No hotel não se podia fumar em ambiente algum, só no quarto. Então era comum eu ficar na porta principal para fumar um cigarro naqueles momentos em que estávamos nos reunindo para sair para algum lugar (mesmo com oito não é uma operação fácil...).

O hotel ficava numa esquina apertada onde todos os carros tinham de dobrar à direita. Como fumar sem fazer nada é chato, pelo menos para mim, eu ficava olhando os carros efetuarem a curva. Como vidros escurecidos não existem no chamado mundo avançado (não vi nenhum), dava para ver bem os motoristas na manobra. Pois nenhum estava muito perto ou muito distante do volante, mas na distância correta, com braço e antebraço formando ângulo de 90 a 110 graus. Experimente o leitor fazer o mesmo aqui (como faço às vezes) e verá a quantidade de braços retesados, igual ao que se vê em nossos comerciais de automóveis na TV — por que será?

Mas o que me deixou impressionado de verdade era como o volante era movimentado. A mão direita sempre se deslocava antes para a esquerda, preparando a virada, terminando a curva com a mão esquerda um pouco além da vertical. Perfeito! Parecia um filme de como dirigir. "Mão ordenhando vaca", no caso a esquerda espalmada por dentro do aro do volante, era coisa inimaginável, pelo menos para aquelas dezenas de motoristas que passaram diante de mim. De novo, observe o leitor uma situação de tráfego semelhante aqui. É capaz até de ouvir os mugidos...

Essa habilidade, numa coisa aparentemente tão simples, ajuda a explicar por que se consegue andar em paz na Costa Amalfitana e por onde quer se vá na Europa. As pessoas sabem, de fato, dirigir. Mas assim como a mãe do presidente do Brasil, que nasceu analfabeta (ele disse isso), todos nascemos sem saber dirigir. Precisaremos aprender, e para isso quem for nos ensinar deve conhecer a fundo todos os aspectos da técnica de dirigir. E quem for verificar se aprendemos a lição, mais ainda, dentro de um leque de situações que represente o trânsito no mundo real. Não dar uma simples voltinha numa quadra em terceira marcha e, no caso das motos, reprovar o examinando se ele usar o freio dianteiro.

O caos do trânsito brasileiro está aí mesmo e é no comportamento e na habilidade dos motoristas que está a saída. Só que corrigir isso dá um trabalho danado, como tenho dito, e trabalho anda tão em baixa na esfera do Executivo e do Legislativo que não se vê luz no fim desse longo túnel. Não foi à toa que a famosa parte do discurso de Winston Churchill, ao assumir o governo britânico antes da Segunda Guerra Mundial, teve aqui suprimida a palavra "trabalho", ficando apenas "sangue, suor e lágrimas" — a original era "blood, sweat, tears and toil".

A questão da habilidade tem de ser prioritária.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 12/4/08

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