Começam a pensar

De repente, surgem soluções para o "excesso de veículos"

por Bob Sharp

Ainda no tema de congestionamento, abordado na semana passada, começam a aparecer nos meios de comunicação autoridades falando sobre soluções para o problema, que está extrapolando as grandes capitais. O foco das atenções parece finalmente algo em que venho falando há anos aqui: fluidez.

Uma delas me chamou a atenção, parecendo que, mais uma vez, a coluna anda circulando bem por aí. A prefeitura de São Paulo admitiu que há "pequenos obstáculos" na cidade que contribuem para prejudicar a fluidez e tomará medidas para eliminá-los, já tendo destinado verba de R$ 1 milhão para isso.

Ou seja, está faltando engenharia de tráfego quando justamente ela é mais necessária, pois ninguém nega que o volume de trânsito vem aumentando paulatinamente. Não só aqui, mas no mundo todo — lembre-se, em termos globais já são seis habitantes por veículo. Isso mesmo, seis bilhões de pessoas no planeta sendo transportadas por um bilhão de veículos de todos os tipos.

Notícias recentes sobre a capital japonesa mostram que lá os congestionamentos vêm diminuindo ano após ano. Menos carros nas ruas? Pelo contrário, a frota de Tóquio aumenta sem cessar a passos largos também. Como, então, conseguiram o "milagre"? Muito simples, algo que por aqui é clamado com atitude anti-social, para a "zelite": obras viárias. São túneis, passagens subterrâneas, viadutos, enfim, tudo que promova fluidez.

Aqui, alguns "expertos" (que não dispensam o automóvel, é bom lembrar) insistem em dizer que novas pontes e viadutos nada resolvem, apenas transferem o congestionamento de lugar. É impressionante a visão retrógrada dessas pessoas em uma questão que afeta a vida de todos nós. É muito fácil avaliar esse quadro. Pegue o leitor exemplos de qualquer cidade brasileira onde vive e julgue como seria o trânsito sem determinadas obras feitas há muitos anos. Seria inimaginável.

Outro ponto crucial está nas coisas mais simples que qualquer autoridade de trânsito pode resolver com facilidade. Por exemplo, não existe nada mais antifluidez do que uma rua onde se trafega de repente virar contramão, e isso se vê por toda parte. Ou uma de mão única passar a ser de mão dupla após um cruzamento. Nos dois casos o motorista é obrigado a mudar de direção, com afunilamento de pista no segundo.

Essa mesma perturbação existe quando "brilhantes" engenheiros de tráfego resolvem colocar uma mini-rotatória numa via de mão única, pois a passagem pelo pequeno círculo só admite uma fila de veículos. Enfim, são todas coisas pequenas, mas que no fim acabam atrapalhando o livre e necessário fluxo de veículos.

Isso sem contar o que venho condenando há anos nesta coluna, as famigeradas lombadas e, no caso de São Paulo, o câncer que são as valetas. Até hoje não entendi essa paixão dos engenheiros paulistanos por essa maneira de facilitar o escoamento das águas pluviais, pois São Paulo não é a única cidade onde chove. Será que faltaram às aulas dessa matéria na faculdade? Como a maioria dos leitores sabe, sou carioca e vivi até meus 35 anos (estou com 65) em minha cidade natal. Pois nunca vi uma valeta sequer lá, e olha que o Rio também tem regiões montanhosas, com suas subidas e descidas. Como é que a água de chuva escoa lá sem as valetas?

A parte do motorista
Não é só culpa da administração de trânsito o problema que estamos enfrentando. Cabe também ao motorista responsabilidade pelo semicaos que estamos vivendo. Falta a muitos, milhares mesmo, a noção de que fazemos todos parte de um sistema e que cabe a cada um a missão de não perturbá-lo, sob nenhum pretexto.

Quase todos já viveram a situação de estar num congestionamento e de repente tudo começar a andar normalmente, como se nada houvesse. É o chamado congestionamento sem causa: nada aconteceu que o provocasse, como um carro enguiçado, acidente ou obras na pista. Ele só acontece porque um motorista resolveu trafegar mais devagar que os outros.

Um leitor de Brasília me mandou um vídeo postado no Youtube que mostra uma experiência da Universidade de Nagoya, no Japão. O vídeo, bem curto mas infelizmente narrado em inglês, mostra uma situação de trânsito típica em que tudo flui normalmente até que alguém começa a rodar mais devagar. Pronto, os carros se agrupam e num certo momento o trânsito pára, para recomeçar novamente. É o que acontece em nosso dia-a-dia. Vale a pena ver neste link.

É essa noção, de fazer parte do sistema, que precisa ser ministrada nas escolas de motoristas — não me acostumo com "Centro de Formação de Condutores", da mesma forma que acho estranho "comissária" em vez de "aeromoça", nome que a TAM sabiamente resolveu adotar de vez. É nessas escolas que os alunos precisam receber essa noção, que não se dirige carro devagarinho, como nas aulas.

Tudo isso, trânsito, fluidez, é mesmo um enorme problema. Mas se as cabeças forem postas para funcionar, tanto das autoridades quanto a dos motoristas, tem jeito.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 29/3/08

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