Trânsito complicado

A culpa do tráfego cada dia mais congestionado não é do
"excesso de veículos", mas da falta de planejamento

por Bob Sharp

Ultimamente temos visto nos noticiários problemas de engarrafamentos-monstro, em especial em São Paulo, mas o problema não é só na capital paulista. O que tem acontecido resulta apenas da falta de uma coisa chamada planejamento urbano. Não só dos aspectos de trânsito em si, mas também, e sobretudo, do crescimento associado à construção desmedida de prédios de apartamentos e comerciais.

Os leitores mais antigos desta coluna hão de se lembrar como tenho falado sobre esse assunto todos esses anos, em que insisto na omissão das administrações municipais no equacionamento das condições de vida das cidades. Para elas é muito mais fácil pôr a culpa nas vendas explosivas de automóveis que levam ao pau-pra-toda-obra "excesso de veículos".

Começa pelas estatísticas dos Detrans, que só falam dos novos licenciamentos diários, mas se esquecem — por conveniência, com certeza — dos veículos que saem de circulação ou vão embora para cidades menores, em geral no interior. Depois vem a culpa dos financiamentos em prazos cada vez maiores, propiciando alcance ao carro novo por quem há alguns anos nem pensar nisso podia.

Pegue-se uma rua estreita, de sete metros de largura, e construa-se nela um prédio de 25 andares. Só isso já desequilibra totalmente a vida daquela comunidade em termos de geração de tráfego. Agora multiplique-se esse efeito por 10, 15 ou 100 e tem-se a própria figura do caos. Caos que vai gerar um série de impostos municipais, é bom lembrar, como o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). E, como a sede de arrecadação das prefeituras é insaciável, tome prédios gigantescos nas cidades. E assim vai a coisa, descontrolada.

Diante do clamor público, a prefeitura paulistana anunciou esta semana medidas para reduzir os congestionamentos. Ao tomar conhecimento delas, fiquei com a sensação de que andaram lendo a coluna: serão eliminadas 167 lombadas e várias valetas, certos traçados de ruas serão corrigidos, limitação de operações de carga/descarga de caminhões será introduzida e os semáforos terão seus tempos reajustados. Tudo em nome de quê? Da fluidez! Hum, muy inteligentes, ellos...

Semáforos
Como falei na coluna passada sobre os semáforos controlados por computador em Genebra, é inadmissível que nas grandes cidades brasileiras o recurso não seja utilizado. Não dá para entender como alguém que é investido na direção do trânsito não promova essa melhoria, quanto mais hoje em dia, em pleno reinado da informática. Basta pegar o carro numa calma manhã de domingo, cedo, e sair rodando para se constatar como os tempos dos sinais são completamente errados. É desnecessário ser perito nessas questões para ver como os que cuidam do trânsito no Brasil são alienados.

Um exemplo fácil. Vá-se a qualquer avenida reta e longa, com vários cruzamentos (para os paulistanos, a Av. Paulista; para os cariocas, Av. Rio Branco) e observe-se os semáforos. Dá para notar o absurdo completo de ficar tudo verde ou tudo vermelho. Não há fluidez possível quando onda verde é inexistente.

Outro exemplo são as avenidas de pista dupla. Não dá para sincronizar os semáforos nos dois sentidos. A solução nesse caso é favorecer um sentido no período em que o volume de tráfego nele seja maior. Como é impossível efetuar a alteração à mão, só mesmo um sistema computadorizado é capaz de se adaptar às necessidades do momento.

Já comentei aqui uma vez, mas vale a pena repetir. Há mais de 30 anos percorri a Avenida Rivadávia, em Buenos Aires, que mede 22 quilômetros e é ladeada por prédios de apartamentos, com cruzamentos sucessivos. Pois bem, mantendo 60 km/h, o limite daquela via, a onda verde era visível ao longe. Os semáforos iam se abrindo à medida que eu avançava pela avenida como num passe de mágica. Isso em 1975. Se existia lá, como pode não existir aqui até hoje?

Há outro caso que sempre comento no meu círculo. Do nascedouro de uma importante avenida em São Paulo até o primeiro pedágio nas rodovias que seguem para o leste, não há um semáforo sequer. No entanto, o tráfego nessa avenida — uma marginal de rio seguida da outra — pára sem que haja qualquer anormalidade. É evidente que há algo de fundamental errado, e aponto o traçado como culpado. Não dá mesmo para admitir que ninguém se preocupe com esse aspecto; pelo menos não vejo ninguém comentar.

E o problema dos problemas, o tráfego de caminhões grandes na cidade, até mesmo carretas de longo percurso, de 45 toneladas de peso bruto total combinado. Há momentos em que esses caminhões agrupados têm o aspecto de um (grande) trem de carga. É uma situação intolerável e incompreensível. No caso de São Paulo, a construção de um anel rodoviário, ou rodoanel, arrasta-se há anos. Um dos setores, o Norte, vive embargado por ação dos ambientalistas "ecochatos". Enquanto isso, a população que se dane. A solução que tiraria carretas da cidade, pois poderiam rumar para outros destinos sem entrar na capital, fica sendo empurrada com a barriga.

Finalmente, a insuficiência de linhas de metrô, o melhor transporte de massa que existe. Apenas 57 quilômetros de linhas é muito pouco para uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes como a capital paulista. Para comparação, Paris tem 2,2 milhões e 215 km de linhas. Não adianta partir para a venerada porém burra solução de corredores de ônibus, pois a velocidade de tráfego é baixa, a capacidade de transporte é pequena e o visual da cidade se deteriora.

Todo o elenco de falta de planejamento e de medidas eficazes para assegurar fluidez acima de tudo, associado a um crescimento sem controle das cidades, não poderia mesmo dar noutra coisa.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 22/3/08

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