Um brasileiro no paraíso

Basta uma semana fora para constatar a dura realidade:
a de como estamos distantes do Primeiro Mundo

por Bob Sharp

Pela coluna da semana passada o leitor sabe que estive viajando a trabalho na Suíça e em Portugal. O leitor sabe também que sou atento às questões de trânsito, por entender que ele faz parte de nosso cotidiano e portanto tem o poder de afetar bastante nossas vidas. Não adianta querer conceber um mundo sem automóveis, um pensamento utópico. Mesmo os que pregam a redução do uso dos automóveis não o dispensam, pois na maioria dos casos é um veículo insubstituível.

É do arquiteto carioca Sérgio Bernardes (1919-2002) a frase "O corpo humano se divide em cabeça, tronco, membros e rodas". O mundo já chegou ao bilhão de veículos e, com uma população de seis bilhões de habitantes, são seis habitantes por veículo globalmente. Assim, se temos (e queremos) conviver com o automóvel, condições têm que ser dadas para isso possa ser feito da melhor maneira possível. É o que se faz na maioria dos países avançados, é o que não se faz por aqui.

Quando se sai do Brasil e chega a um país como a Suíça, vê-se logo uma diferença abissal entre as coisas de trânsito de lá e daqui. Começa pela sinalização clara de como se pegar uma auto-estrada — a placa mostrada ao lado, acompanhada do número da rodovia. Mais simples, impossível. Nada de placas enormes (e caras) com os nomes das rodovias, como se vê por aqui. Bate-se o olho na placa de auto-estrada e pronto.

Depois, a pavimentação. Asfalto liso, perfeito, até nos remendos, perfeitamente nivelados com o resto. Carros e ônibus praticamente não balançam, algo inimaginável por estas plagas. Lombada (quebra-molas), nem pensar. A marcação de faixas de rolamento é impecável, assim como toda a sinalização. Uma coisa curiosa na Suíça é não haver placa que indica altura máxima dos veículos sob um viaduto, a nossa conhecida onde se lê 4,40 metros e que muitas vezes caminhões se engastam nelas. Lá sabe-se qual a altura máxima permitida e todo mundo obedece. Não precisa placa.

Outra curiosidade é não haver placa nas auto-estradas que indique retorno. Ao se encontrar um viaduto, ali se pode retornar, questão de pura lógica. Mas o melhor é a sinalização de limite de velocidade ser luminosa e por isso ser possível alterar o limite quando isso se faz necessário — por exemplo, quando neva, chove ou há obras na rodovia. Até em caso de acidente já começa a haver redução de velocidade alguns quilômetros antes.

Nosso velho hábito de colocar placa de 40 km/h numa estrada de limite 120 km/h, só porque há homens trabalhando, não passa pela cabeça de ninguém lá, pois placa é para ser obedecida e não se consegue andar a 40 km/h numa auto-estrada.. Por falar em limite de velocidade, ele é de 100 km/h na Suíça, mas o grosso do tráfego que ultrapassava nosso ônibus rodava tranquilamente a cerca de 120 km/h.

Na estrada, o comportamento dos motoristas é aquele que deve ser. Ninguém fica na faixa da esquerda por bel-prazer, que só é utilizada para ultrapassar. Faz-se a manobra e volta-se logo para a direita. Parece até um balé.

Os semáforos viram para amarelo antes do verde, como na Alemanha e na Argentina, até onde sei. Nada mais lógico, pois o motorista se prepara para arrancar e, quando dá verde, o carro pode ser movimentado logo (e é). Mais importante, o motorista da via transversal, ao ver o amarelo para ele seguido ao verde, sabe que outro vai arrancar sem demora e se refreia de pegar o "rabo do sinal", a clássica passada com sinal amarelo e muitas vezes já com vermelho. Tampouco, pelo mesmo motivo, há a clássica buzinada de aviso "estou aqui aproveitando o amarelo, gente".

O controle dos semáforos é de fato computadorizado. Observei por alguns minutos um sinal defronte do hotel Mövenpick, onde ficamos em Lausanne (a 67 quilômetros do Salão de Genebra), e vi que os tempos são totalmente variáveis, em função do tráfego. Os carros não ficavam muito tempo parados. A eletrônica está aí para isso mesmo. Por falar em carros, ninguém de farol de neblina aceso à toa, "para o carro ficar lindão", e muito menos com a luz traseira de neblina ligada. Bola de engate, um ou outro, muito raro, e assim mesmo de aço temperado, sem banho de cromo. Quanto aos vidros escurecidos, não vi nenhum.

Portugal
Fazia 12 anos que eu não ia a Portugal e o que vi lá foi de embasbacar. As auto-estradas são fascinantes. Padrão de Alemanha para cima. É muito difícil, para nós brasileiros, entender como pôde haver mudança tão profunda nessa questão num espaço de tempo relativamente curto. Piso e sinalização perfeitos, indicações claras e um sistema de limite de velocidade favorável ao motorista, exatamente ao contrário do que se vê aqui, país em que motoristas são caçados como baratas — notaram como as baratas estão sempre fugindo, em atitude de defesa?

As placas indicam 120 km/h e outra, abaixo, de fundo azul com número branco, 50 km/h, a velocidade mínima. O motorista não precisa ficar de olho no velocímetro e pode rodar bem acima do limite sem ser importunado, a exemplo do que ocorre na França e na Itália.

Como na Suíça, placas de "Auto-estrada" por toda parte facilitam a vida do motorista. Saídas e entradas da auto-estrada perfeitas, com raio de curva constante nas alças, eliminando as tão comuns surpresas que se vêem aqui, iniciar uma curva e no meio dela o raio diminuir. As defensas daqui marcadas por impactos contam bem o que aconteceu.

Uma solução tipo Ovo de Colombo é as faixas de bordo de pista possuírem pequenas ranhuras transversais que causam leve vibração no carro ao passar sobre elas, suficiente para '"acordar" o motorista sonolento que está a ponto de deixar a faixa (disseram-me já existir isso na faixa junto à defensa na rodovia SP 280 Castelo Branco; a conferir).

Todas as auto-estradas portuguesas são pedagiadas e contam com Via Verde, equivalente a nosso Sem Parar, com uma pequena diferença porém: não há cancela. Portanto, não há tensão e muito menos alguns funcionários perambulando nas imediações das cabines, comum aqui. Para melhor visualização noturna da faixa da Via Verde, existe marcação luminosa de solo — verde, é claro.

O percurso de teste que a Citroën organizou para o novo C5 incluiu estradas secundárias bem antigas, estreitas e cheias de curvas (mas de piso perfeito também). Muitas atravessavam pequenas cidades, aquelas em que a porta das residências dão direto no asfalto. Nada de lombadas nem nesse caso — se fosse aqui, imagine o leitor o festival desses dejetos viários que seria... —, mas há outro Ovo de Colombo nessas estradas.

De vez em quando (raro até) avista-se ao longe um semáforo, fechado. Estando-se na velocidade regulamentar — que nunca é inferior a 50 km/h —, ao nos aproximarmos do semáforo este passa a amarelo piscante. Se o carro estiver acima deste limite o sinal permanece fechado, obrigando o motorista a parar e esperar dar amarelo piscante para reiniciar a marcha.

A solução controla a velocidade e ao mesmo tempo estimula o motorista a trafegar de maneira comedida. A lombada eletrônica do Brasil é uma solução burra, pois obriga o motorista a ficar de olho no velocímetro para se manter no limite. Muitos motoristas "dão uma margem" com medo da multa e passam bem abaixo da velocidade prevista, prejudicando a fluidez do trânsito.

Mas, como o que é bom dura pouco, aqui estamos de volta para continuar a sofrer os efeitos de irresponsabilidade de umas poucas e alienadas autoridades da noção de dever. Até quando, ninguém sabe.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 14/3/08

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