Montadora: não dá mais

O vocábulo tomou conta da imprensa e do ideário
brasileiro e, se não for feito algo, ficará para sempre

por Bob Sharp

Quando esta coluna for publicada, na sexta-feira 7 de março, ainda não terei retornado de viagem à Europa, onde fui para o Salão de Genebra e depois ao lançamento da segunda geração do Citroën C5. Viajar sempre é bom, mas no meu caso há uma satisfação a mais: passar alguns dias sem ler ou ouvir — a não ser dos colegas com que viajei — a palavra "montadora".

O fato é que não dá mesmo mais para ouvir esse termo. A questão tem sido bastante abordada no Best Cars esses anos todos, tanto por mim quanto pelo editor Fabrício Samahá, mas mesmo assim insisto, uma vez que se trata de um modismo que não consigo deixar passar em brancas nuvens.

É como se a imprensa e a indústria brasileiras tivessem encasquetado que fábrica de automóveis já era, que "moderno" mesmo, prova de domínio da profissão, é encher a boca ou teclar "montadora". De nada adianta lhes dizer que Anfavea é sigla de Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Fabricantes, não montadoras. Ou teríamos uma Associação Nacional das Montadoras de Veículos Automotores, cuja sigla teria de ser Anmovea...

Por incrível que pareça, até já vi executivo americano da indústria automobilística daqui dizer "montadora" em português, com o devido sotaque da terra de Tio Sam, em meio a um diálogo ou discurso falado em inglês. A que ponto se chegou.

Muito mais do que implicância ou inconformismo meu, o grande mal que vejo no uso desta palavra, em vez de simplesmente "fábrica", é deixar de passar às pessoas o entendimento pleno de como um veículo é fabricado. Isso vale mais ainda para os jovens que estão entrando na adolescência, fase da vida em que se começa a adquirir maior volume de conhecimento.

Fora o fato de o Brasil, ao adotar o termo, passar a constituir uma ilha cercada da palavra "fábrica" nos diversos idiomas por todos os lados. Numa comparação, seria o mesmo que chamar de filmadora uma produtora cinematográfica.

Algum tempo atrás o escritório da Porsche em Miami divulgou uma nota de imprensa em inglês, espanhol e português. Trate o leitor de adivinhar em que línguas o termo usado era fábrica e em qual era montadora... Escrevi à assessora de imprensa explicando a questão, no que ela, atenta e inteligente, captou logo a mensagem. Passado um tempo, a ignóbil palavra estava banida dos textos em português da Porsche.

O mais incrível é existirem no mundo fábricas e montadoras de automóveis, cabendo a estas somente a montagem veículos recebidos totalmente desmontados de alguma fábrica — CKD, sigla em inglês que quer dizer isso, completely knocked down. Por exemplo, metade da produção dos Porsches Boxster e Cayman está a cargo da indústria finlandesa de tratores Valmet, por sua divisão de automóveis. A empresa, de fato, só monta o modelo. Portanto, é uma autêntica montadora.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus monta seus produtos em Resende, RJ, sem nada produzir lá. Tudo é fornecido. Mas como tem uma engenharia de produto e experimental, é uma fábrica, não uma montadora.

Origem desconhecida
Não se sabe ao certo quando surgiu o jargão "montadora" entre nós, mas tudo leva a crer que tenha se originado no âmbito da própria Anfavea, lá pelo fim dos anos 70 ou início da década seguinte. Lembro-me de durante muito tempo só ouvir esse termo lá, quando comecei a participar das entrevistas coletivas mensais com a imprensa, em 1982. Só que o motivo ou justificativa de chamar fábrica de montadora, continua a não haver. Não se diz, por exemplo, "garantia de montadora". Soaria estranho ou mesmo ridículo. Toda garantia de carro zero-quilômetro é de fábrica.

Não há ninguém, do mais alto ao mais baixo cargo numa fábrica de automóveis, que desconheça o fato de que ali há uma fabricação, não apenas uma montagem. Todos, sem exceção, sabem que existe a ala de prensas, geralmente enormes, para estampar os componentes da carroceria; a área de armação de carroceria, hoje dominada por um batalhão de robôs soldadores; o setor de pintura, uma grande e complexa instalação; a usinagem de motores e transmissões, equipada com máquinas-ferramenta de alta velocidade e precisão. Claro, existe também a área de montagem, geralmente separada em motores e transmissões, chassi rolante (suspensão, direção e freios) e montagem final, que sempre começa pelo interior da carroceria (vidros, painel, volante, tapeçaria e bancos).

É do conhecimento geral que muitas peças e componentes são fabricados fora, adquiridos da indústria de autopeças, ou de fornecedores, como também são conhecidos. Hoje cerca de 80% dos componentes de um carro são comprados — itens como todo o sistema de freio, de arrefecimento, de alimentação, chassi rolante, peças em bruto como virabrequim, comando de válvulas e engrenagens. Bancos e todos os revestimentos também vêm de fora, assim como os vidros e todo o equipamento elétrico.

Mas na fábrica da Honda em Sumaré, SP, o alumínio para a fundição de blocos e cabeçote é fornecido por uma empresa especializada, que entrega a matéria-prima em estado líquido, pronto para ser vertido nos moldes. Também, ao contrário da maioria das fábricas, pára-choques e painel de instrumentos do Fit e do Civic são produzidos lá mesmo.

Há ainda nas fábricas a engenharia do produto e a engenharia experimental, nas quais o investimento costuma ser dos mais pesados tanto em estrutura de pessoal quanto em instalações, como os campos de provas. Há os laboratórios de emissões e de segurança veicular onde são feitos os testes de impacto. Os centros de estilo são outra parte inseparável da atividade, pois é onde são desenvolvidos os conceitos, onde as linhas para os próximos 10 ou mais anos são traçadas.

Todo esse elenco de operações, a compra de componentes fora e a montagem são atividades própria de uma fábrica, jamais de uma montadora. É esse o motivo de se dizer fábrica ou fabricante em diversas línguas, como factory, manufacturer, automaker (Estados Unidos e Reino Unido), usine (França), Werk (Alemanha), fabbrica (Itália), para citar as principais. Em espanhol é como em português, fábrica.

Os americanos também usam OEM, iniciais de "fabricante de equipamento original", em inglês, em lugar de fábrica ou fabricante. Mas é uma questão polêmica lá, pois sempre se entendeu OEM como um fabricante que produz algo para ser comercializado com outra marca. Caso, por exemplo, da cadeia de lojas de departamentos como a Sears, Roebuck (nos EUA), que comercializa quase tudo com marca própria. Uma fábrica de enceradeiras que produz para a Sears sempre foi uma OEM. Mas hoje OEM significa mais o próprio fabricante de veículos. Note que a palavra "fabricante" em inglês aparece em OEM.

Não se fala, em qualquer canto do mundo além do Brasil, montadora em lugar de fábrica ou fabricante. Imagine-se no tempo da Alfa — fábrica que existiu cinco anos antes que o industrial Nicola Romeo a adquirisse, em 1915, e formasse a Alfa Romeo — falar-se em "montadora" em vez de "fábrica": teríamos a Alma, Anonima Lombarda Montatora di Automobili... Ou a Fiat, de 1899, seria Miat, sigla para Montatora Italiana Automobili Torino.

É mesmo preciso erradicar "montadora" de nossos textos sobre automóveis e indústria automobilística. O esforço precisa começar pelos jornalistas, pois somos os grandes comunicadores. Eu e o Best Cars já fizemos nossa parte. Cada fabricante também precisa acabar com a nefasta palavra no âmbito de suas empresas.

Falar errado é péssimo e montadora, não dá mais.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 8/3/08

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