Histórias de recalls

Quatro casos de problemas de proprietários com
seus veículos e como as fábricas agiram

por Bob Sharp

A coluna de hoje vai falar de recall, palavra da língua inglesa de difícil tradução. O dicionário Webster's define, entre outros significados, chamar de volta ou rechamar (re + call), nesse caso um verbo. Mas há também o substantivo recall, intimação ou convocação. Como não cabe intimar um dono de carro a levar o carro para a oficina, fico com convocação mesmo.

Porsche Cayenne
O importador oficial Porsche no Brasil anunciou esta semana uma convocação para o Cayenne V6. A nota diz que 18.856 veículos Cayenne foram produzidos no último ano, dentre os quais cinco apresentaram ruído leve. Prossegue a nota dizendo que "os veículos poderão ser usados normalmente. O Cayenne V6 não apresenta qualquer risco ao ser utilizado, bem como não há qualquer dano ou alteração estética. Mais uma vez, informamos que esta correção ocorre da possibilidade de ruído leve somente no veículo Cayenne V6."

Mas, como tudo anda muito rápido hoje devido à internet — inclusive avisos de convocação para serviço —, o da fábrica lá em Stuttgart chegou um dia antes do emitido pelo importador, pois este precisa traduzir a informação antes de publicá-la. Assim, minha surpresa não foi ao ler a nota alemã na segunda-feira, pois convocações acontecem, mas quando li a brasileira, na terça.

A nota da fábrica começa dizendo, já no título, do que se trata: "Porsche Cayenne: linha de combustível reposicionada". A generalização deve-se a, na Alemanha, Cayenne puro ser a versão V6; Cayenne S, a V8 de aspiração natural; e assim por diante. Depois de informar a série afetada — que o importador acertadamente isolou segundo o número de unidades importadas da versão para o Brasil — a Porsche explicou:

"Há a possibilidade, nesses veículos, de ligeiros movimentos do motor ao trafegar poderem fazer com que a linha de combustível interfira com o acabamento decorativo no compartimento do motor. Isso pode provocar um ruído tipo algo batendo e marcas de atrito na própria linha de combustível. Até agora, há cinco reclamações conhecidas no mundo, mas apenas em um caso surgiram marcas de atrito na linha de combustível. De maneira a evitar quaisquer problemas futuros, a Porsche vai alterar o roteiro da linha de combustível dos veículos em questão. O tempo despendido na oficina é de cerca de 40 minutos. Para os clientes, que serão avisados sobre isso brevemente, o procedimento é gratuito." — e assim termina o aviso.

Não dá para entender por que omitir uma informação tão simples, optando por lançar uma dúvida para o consumidor. A fábrica alemã, por seu lado, contou a história certa, mas quem conhece um pouco de automóvel sabe que linha por onde passa um líquido, que roce com alguma coisa, pode vir a furar. Nesse caso, a medida preventiva da Porsche foi mais do que acertada.

Renault Logan
No caso dos recalls, todo fabricante tem o direito de dizer qual é o problema sem estabelecer um clima de terror, mas tem que explicar com exatidão o que está acontecendo e suas possíveis conseqüências. No momento de disparar a operação, todos os setores da fábrica envolvidos — jurídico, engenharia, marketing, pós-vendas, produção, peças, fornecedor (se for o caso), relações públicas, imprensa — chegam ao consenso de como deve ser a comunicação. É comum, por exemplo, quando um item defeituoso está no sistema de direção, dizer-se que "a ruptura de peça pode levar à perda do controle direcional". Não soa tão terrível e dá a dimensão exata do que pode ocorrer, mesmo com termos abrandados.

No fim do ano a Renault anunciou convocação para reparar um problema no sistema de direção do Logan e informou com precisão o que poderia acontecer: "(...) em casos extremos, o desacoplamento da ligação entre a caixa de direção e o terminal de direção, havendo o risco do condutor perder o comando da direção." No portal UOL chegou a sair declaração da fábrica sobre possibilidade de acidente fatal. A Renault cumpriu com sua obrigação, mesmo sabendo que convocações em carros há pouco no mercado nunca são bem-vistas.

Troller Pantanal
Na semana passada a Troller, que hoje pertence à Ford, fez a mais estranha convocação de que se tem notícia. Eu pelo menos nunca vi nada parecido. A fábrica simplesmente decidiu tirar os 77 picapes Troller Pantanal do mercado — todos! —, produzidos só em 2006 e 2007. O motivo da ação é terem descoberto trincas no chassi que, com o tempo, podem se propagar e comprometer sua durabilidade e integridade, com possibilidade de perda de estabilidade e controle direcional em manobras bruscas, podendo causar acidentes.

No texto publicado pedem que o proprietário telefone para um atendimento de discagem gratuita para "receber a devida orientação". Esta, constatamos, é não usar mais os veículos (vão retirá-lo) e vendê-los para a Troller pela tabela da Fipe. Em caso de recusa, diz a empresa que o proprietário terá de assinar um termo, isentando a Troller de qualquer responsabilidade pelo que venha ocorrer (resta saber como o cliente será obrigado a assiná-lo).

Nesse caso, a informação do que pode ocorrer foi correta, mas a solução foi inusitada. Atrevo-me a chamá-la de maluca. Inclusive, dadas as circunstâncias, meu senso jurídico (todo mundo tem um pouco) diz que a fábrica deveria ressarcir o proprietário integralmente, jamais como veículo usado.

Volkswagen Fox
O caso do banco traseiro do Fox, que ao ser escamoteado oferece risco para as mãos de quem está realizando a operação, ficou nacionalmente conhecido. Há oito casos registrados de ponta de dedo decepada ou mão machucada. Seria caso de convocação, foi a opinião geral. Mas não a minha. Primeiro, convocação para reparo é necessária quando alguma coisa saiu errada no projeto e/ou na fabricação. O sistema de escamoteamento do banco traseiro do Fox não se enquadra nisso.

Segundo, a propalada argola que decepa dedos faz parte do mecanismo de liberação do encosto, para que este rebata e repouse sobre o assento, a etapa preliminar do escamoteamento completo. Os casos de ferimentos se deram ao tentar escamotear o conjunto (assento mais encosto) levantando-o pela tal argola, quando para isso existe uma cinta própria no assoalho do porta-malas, próxima ao assento. Está tudo claramente explicado no manual do proprietário. Uma rápida leitura do manual teria evitado o infortúnio dessas oito pessoas. Mas, como esse livreto que acompanha todo carro costuma ser desprezado no carro zero-quilômetro (e venerado no usado)...

Há um terceiro fator, contribuinte, que é a vítima não dar conta de que banco de automóvel é normalmente pesado. Procurar levantá-lo, sem condições de poder fazer a força necessária, pode levar a pessoa a largar o banco, que retorna abruptamente para o lugar. Se nesse momento a mão estiver no caminho, como ter colocado um dedo na tal argola para "ajudar" a levantar o banco após puxar a cinta certa, é ferimento na certa.

O deslocamento repentino do banco — qualquer banco — é perigoso e há alertas claros no manual a esse respeito. O que a fábrica fez, colocar uma argola de borracha na alça tida como perigosa, foi uma medida preventiva correta, pois a argola existe apenas para unir duas alças, não para se enfiar o dedo nela. A outra alça fica voltada para dentro do habitáculo, para ser possível acessar o compartimento de bagagem com o carro em movimento mediante pequena inclinação do encosto.

Outro ponto amplamente comentado é que a versão de exportação não ofereceria risco. Incorreto. Salvo a diferença na alça para levantar o assento, em que no carro exportado há uma barra no mesmo lugar, junto ao assoalho, o escamoteamento é exatamente igual — primeiro o encosto, depois encosto mais assento. Quando o Fox vendido no Brasil sai com banco sem ajuste longitudinal, o sistema de destravamento do encosto é igual ao do exportado, mediante pinos em cada extremidade, na parte superior. Não existe a tal argola porque não há alça para destravar o encosto.

É lamentável que pessoas tenham sofrido esse tipo de lesão ao efetuar o escamoteamento de um banco, mas fica mais do que evidente que neste caso faltou uma leitura do manual. E há momentos em que vale o bom senso: deixar a mão no vão da grande porta de carga traseira no momento em que é fechada ocasionaria o mesmo tipo de lesão do banco traseiro do Fox.

Nesse caso do Fox, convocação não é aplicável. A fábrica está certa.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 23/2/08

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