Motoristas engessados

Aumentam o cerco por meio de parafernália
eletrônica e o faturamento de municípios e estados

por Bob Sharp

Todo motorista brasileiro já notou: dirigir hoje é consultar atenta e continuamente o velocímetro. O que deveria ser um ato normal de nosso tempo tornou-se um verdadeiro horror. A fiscalização por radar ou detector de solo aumenta exponencialmente com a desculpa (esfarrapada) de reduzir acidentes, quando o que as administrações buscam é faturar com as multas.

Um exemplo eloqüente disso é o anúncio feito ontem, e publicado nos principais jornais de São Paulo (que certamente não é a única cidade nesse "magnânimo" empenho), de que as ruas contarão com mais 354 dispositivos de medição de velocidade, distribuídos em 175 radares fixos, 26 móveis e 153 lombadas eletrônicas. A autoridade de trânsito do município, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), diz que já começou a testar os equipamentos das 13 empresas ou consórcios que participam das concorrências (as informações são do jornal O Estado de S. Paulo). O negócio deve ser mesmo muito bom para haver tanto interesse,

Prossegue a reportagem dizendo que o valor dos três contratos, por quatro anos, é de R$ 40,2 milhões. O secretário de Transportes, Alexandre de Moraes, justificou a contratação dos serviços dizendo que "a Prefeitura vem investindo em fiscalização eletrônica, onde é viável, para liberar os fiscais que podem agir em outros pontos da cidade, garantindo a segurança e melhorando a fluidez do trânsito". Se o leitor leu rapidamente e não notou, repito: a Prefeitura vem investindo... Claro, há um bom motivo para isso.

Com os novos controles, a Prefeitura estima como previsão orçamentária (?) arrecadar R$ 557 milhões com multas somente neste ano, um salto de 17% em relação a 2007. Está mais do que na cara que é investimento mesmo, e dos melhores. O secretário Alexandre de Moraes foi bastante preciso no comentário, convenhamos...

Para se ter uma idéia do massacre financeiro contra o cidadão — que sustenta, pelos salários pagos, essa "turma" — em 2007 foram aplicadas em média 330 mil multas por mês na capital paulista, prossegue a reportagem. Entre 1997 e 2006 a arrecadação com multas chegou a nada menos que R$ 3,2 bilhões. É como se a população motorista fosse uma horda de transgressores dos limites de velocidade, que dirige tresloucadamente o tempo todo, pondo todo o sistema de trânsito em risco. Mas basta ficar num ponto elevado qualquer e observar o tráfego para se constatar que não é nada disso. O nome do jogo é armadilha.

A armadilha
Já falei bastante a respeito nesses quase sete anos de coluna neste site. Toda via tem uma velocidade natural, aquela que se imprime ao veículo baseada na referência visual. Citei até o exemplo de pilotos de aviões se valem dessa referência nos instantes que antecedem o pouso, mesmo nos mais modernos jatos. Citei também o fato de pilotos de carros de corrida não precisarem de velocímetro para percorrer um circuito o mais rápido que podem (esses carros nem velocímetro possuem), por saberem a quanto podem tomar uma curva apenas pela referência visual.

Quem já teve a oportunidade de dirigir num país avançado qualquer notou que, ao ver uma placa de velocidade e consultar o velocímetro, os dois dados conferem. São raras as vezes em que se precisa olhar o velocímetro para ficar dentro do limite. Não é o que acontece aqui, e todos já notaram isso.

Por não ser o que acontece aqui é que se registram esses valores astronômicos na arrecadação com multas, em especial as de excesso de velocidade. As velocidades de ruas, avenidas, vias expressas e rodovias são irreais, hipócritas, na maioria dos casos. São verdadeiras "armadilhas de velocidade" armadas pelo poder público — que nós sustentamos, não custa repetir, inclusive concedendo-lhes cartões de crédito corporativos.

O pior de todo esse quadro é o conceito de que a carnificina do trânsito brasileiro — morrem 110 pessoas por dia nos acidentes — tem no "excesso de velocidade" uma das maiores causas. Esquecem-se, ou omitem, as autoridades de trânsito que há um elenco de causas de acidentes. Uma delas, certamente a maior, a ultrapassagem feita erroneamente, a falta de julgamento das velocidades do veículo que vem em sentido contrário e o próprio (falando de rodovias de pista única e mão dupla). Isso independe de se ultrapassar em local proibido ou não — o que nos remete a outra armadilha, a "da faixa amarela contínua".

Todos já perceberam que há um vasto universo de caminhões muito lentos no Brasil. Culpa da prática do excesso de carga, que é resultado da falta de pesagem (dinheiro para radar, há...) e também de outra "brasilidade", a do terceiro eixo. Para o leitor entender, um caminhão de dois eixos, por exemplo, sai de fábrica calculado para 12 toneladas de peso bruto total (PBT). Aí os "ispertos" acrescentam-lhe um terceiro eixo, o que pela Lei da Balança habilitam-no para 18 toneladas PBT. Mas o motor continua o mesmo, para não falar dos freios. O resultado só pode ser um: lesma morro acima, F-1 morro abaixo.

Como a Lei de Murphy é implacável, imaginemos estarmos numa leve subida alcançando um desses caminhões modificados para mais carga. Claro, o motorzinho Diesel original não pode fazer milagre e o veículo lento está bem na nossa frente. E a faixa amarela é contínua. Tudo bem, não atrapalha a vida perder alguns minutos, mas que é uma situação irritante, sabemos que é. E fazemos a ultrapassagem com toda segurança, pois o cálculo da faixa impeditiva leva em conta a velocidade no trecho. Como o caminhão está lento, sobra espaço para a manobra. Só que lá em cima, invisível, como que camuflado, está o implacável xerife estrategicamente posicionado: caímos na armadilha da faixa amarela.

Seria ótimo que não houvesse caminhões-lesmas (eles são raros nos países avançados), pois não haveria esse tipo de armadilha simplesmente por ninguém ser estimulado a desrespeitar a sinalização se a velocidade de viagem é normal. Ninguém é louco ou irresponsável, apesar de muitas autoridades acharem que somos.

O resultado das ultrapassagens malfeitas, estamos fartos de saber. Vidas perdidas e pessoas com seqüelas profundas para o resto da vida. Enquanto isso, a caça aos "bandidos" que trafegam acima do limite se intensifica. O resto do elenco — vias esburacadas, mato cobrindo as placas, traçado de curvas errado, sinalização horizontal longe de perfeita, falta de policiamento constante e compreensivo e não apenas carros de polícia estacionados, patrulhamento que indique vício de comportamento dos motoristas — é simplesmente deixado de lado. A razão de tantos acidentes? Fácil, ora, imprudência...

Antes de encerrar a coluna, um elogio para a concessionária Nova Dutra. Utilizei a rodovia de mesmo nome neste carnaval e notei várias placas que indicavam "Curva acentuada". É a informação correta, não "Curva perigosa", como tanto se vê país afora. Toda curva é perigosa, não apenas algumas. De parabéns a Nova Dutra por essa.

Fora esse bom exemplo de cabeça posta para funcionar, vamos vivendo, motoristas deste Brasil (este país tem nome, viu, Sr. Presidente?), engessados por uma máquina administrativa que faz das multas uma grande parte do seu sustento. Está nos orçamentos.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 9/2/08

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