Queda moral

Coisas estranhas que não se imaginava ser
possíveis andam acontecendo — e preocupam

por Bob Sharp

Esta semana quero dividir com os leitores da coluna dois fatos, ocorridos há poucos dias, que mostram os rumos que as coisas estão tomando no Brasil quando se trata de assuntos públicos.

O primeiro deles mostra o que pode fazer a falta de educação combinada com falta de responsabilidade e de caráter. Um deputado estadual do Paraná, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), deu uma "aula" pela televisão de... como não pagar pedágio! A reportagem pôde ser vista no canal Globo News e está disponível com vídeo no site G1, da Globo.

O "nobre" deputado argumenta na reportagem que as tarifas do pedágio são abusivas e conta que no domingo 27/1 viajou de Cornélio Procópio a Curitiba, 350 quilômetros, e não pagou nenhum dos três pedágios do caminho. Ele só foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal já próximo à capital paranaense, na BR 277. Foi autuado por evasão de pedágio, Art. 209 do Código de Trânsito Brasileiro — grau grave, R$ 127,68 de multa e lançamento de cinco pontos no prontuário da carteira de habilitação.

Cinicamente, disse ao repórter: "Furar pedágio é simples. É só você, na verdade, chegar muito próximo do veículo da frente. Quando chega na cabine de pedágio, você arranca junto com o veículo da frente. A cancela tem um sensor eletrônico que vai impedir que a cancela baixe, e você passa com o veículo da frente sem nenhum problema", disse o parlamentar.

Pergunto-me o que se passa na cabeça de uma pessoa que comete um ato desses. Um representante eleito pelo povo para criar leis que não respeita o sistema de tráfego, por sua vez baseado em lei federal. É a completa alienação da noção dos deveres de um cidadão. Afinal, em que país estamos?

É o tipo de história que se encaixa à perfeição na antiga série televisiva encenada pelo ator Jack Palance, a Acredite se quiser. Evidentemente, o inominável ato foi alvo de muitas críticas, inclusive do líder da oposição e integrante do Conselho de Ética na Assembléia Legislativa do Paraná, Valdir Rossoni (PSDB), que disse ser o que o deputado fez "um péssimo exemplo para sociedade". Põe péssimo nisso..

Resta ver como terminará essa história, o que o Conselho de Ética da casa vai fazer. O receio de quem é de bem — nós — é que provavelmente termine com os envolvidos saboreando famoso e popular prato da cozinha italiana.

Esconde-esconde
Nesta mesma semana ocorreu outro fato difícil de acreditar. O jornalista Eduardo Sodré, do caderno de veículos Carro Etc. do jornal O Globo, escreveu uma matéria sobre cintos de segurança, em vista de haver no mercado de reposição cintos de qualidade duvidosa. O problema é grave porque um cinto fora de especificação não cumprirá adequadamente seu papel, que é reter o ocupante ao banco em caso de colisão ou capotagem. Não é preciso dizer o significado disso.

Como bom profissional que é, Eduardo quis conhecer as normas técnicas a respeito de cintos de segurança. Como é hábito nestes tempos de internet, acessou o site da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), www.abnt.org.br, imaginando que o órgão dispusesse da norma que rege a questão dos cintos e outras. Ledo engano, havia eram instruções de como efetuar o pagamento.

Contrariado, ele entrou em contato com a ABNT por meio da assessoria de imprensa a fim de tentar obter a normas de que precisava. Em vão: foi-lhe confirmado que, para ter as normas, só pagando. O jornalista conversou com alguns colegas, entre os quais me incluo, para saber se era isso mesmo, se tínhamos conhecimento de que só pagando a ABNT forneceria a norma. Recebeu a mesma resposta nossa: sem pagar, não leva. E está dito no site, sobre a ABNT, que "é uma entidade privada, sem fins lucrativos".

O absurdo de toda essa questão é que se tratava de um grande jornal e de um jornalista sério, em busca de uma informação de capital importância para ser divulgada como alerta a donos e operadores de veículos automotores. Ou seja, uma prestação de serviço de valor inestimável. Deixar de dar a informação à imprensa, nesse caso específico, é indesculpável.

Inclusive, o jornalista de O Globo ouviu de mim uma experiência vivida alguns anos atrás: pedir a uma fábrica que fizesse uma cópia de um trecho de determinada norma e a enviasse para mim, também para fins de matéria, o que me foi negado com a justificativa de constituir cessão indevida de direitos autorais. Não se tratava de reproduzir uma obra, mas algumas páginas.

Os que me lêem há mais tempo conhecem o que venho dizendo: há alguma coisa errada com a cabeça dos brasileiros. Não vou entrar no mérito de suas causas, mas que estamos com um sério problema pela frente, não há nenhuma dúvida. O pensamento torto se reflete em tudo o que está à nossa volta, diuturnamente, deixando a vida de ser tão agradável quanto poderia.

O caos que se tornou o trânsito brasileiro é apenas conseqüência da queda do nível de inteligência que nos assola como uma verdadeira praga. Só para contar um caso aos leitores de fora de São Paulo: o órgão que controla trânsito aqui resolveu banir as motocicletas de duas importantes avenidas por considerá-las perigosas para os motociclistas. Detalhe: são vias urbanas de velocidade-limite 90 km/h. É preciso dizer mais alguma coisa? Pelo mesmo raciocínio, motos não poderão mais ser usadas em viagens.

Parece que a nação está mesmo caindo moralmente.

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Foto: Arnaldo Keller - Data de publicação: 2/2/08

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